Especiais | 03-03-2026 13:00

João Heitor: “cheguei à câmara com a cara lavada e irei sair com a cara lavada”

João Heitor: “cheguei à câmara com a cara lavada e irei sair com a cara lavada”
ESPECIAL RETROSPECTIVA
João Heitor, presidente da Câmara do Cartaxo, tem-se focado em libertar o concelho para o crescimento

João Heitor cumpre o segundo mandato à frente da Câmara Municipal do Cartaxo, depois de há cinco anos ter interrompido o ciclo de 45 anos de governação socialista. O presidente eleito pelo PSD reconhece o sacrifício que representa gerir um município que recebeu numa camisa de forças do descalabro financeiro, mas enfrenta as dificuldades transformando-as em responsabilidade e em crescimento sustentável. Recusa o lamento sobre a pesada herança e a impossibilidade de recorrer a financiamento ou baixar os impostos, focando-se em libertar o concelho para o crescimento e trabalhar para que as pessoas vivam felizes no concelho.

Desde que foi eleito presidente da Câmara do Cartaxo o que é que mais mudou na sua forma de ver as coisas?
Sempre tive um conhecimento alargado sobre o concelho. Nasci e cresci aqui, mesmo quando estive a estudar e a trabalhar fora vinha cá todos os fins-de-semana. Portanto, sempre tive proximidade ao território e às pessoas. Aquilo que está na base das decisões, os princípios e os valores, não mudaram. O que mudou foi a dimensão da gestão. Todos os dias temos de tomar decisões com recursos escassos, procurando sempre o bem-estar da população.
Já está a colher resultados da sua política ou ainda está na fase dos sacrifícios?
Vivemos em sacrifício porque continuamos intervencionados pelo Fundo de Apoio Municipal até 2045. Conseguimos antecipar o equilíbrio financeiro de 2038 para 2029, fruto de uma gestão muito rigorosa e também por termos conseguido alavancar a estrutura da receita e melhorar o rácio financeiro. Hoje temos o concelho equilibrado do ponto de vista da tesouraria, o que é muito importante, mas continuamos impedidos de aceder a financiamento e temos carências para as quais não temos os recursos que gostaríamos. Neste exercício de gestão há uma dimensão da concretização e uma dimensão da consciencialização de um pensamento comunitário, para que as pessoas percebam que tudo o que está a ser feito é para elas, mesmo que não seja à sua porta.
A maioria absoluta reforçada aumenta a responsabilidade?
Sinto isso todos os dias. Se a responsabilidade já era grande, hoje é ainda maior. Temos mais pessoas a acreditar em nós. Não servimos apenas quem votou em nós, servimos todos. Mas isso reforça a nossa responsabilidade. Não deixamos de ouvir, de envolver, de partilhar.
É mais difícil tomar decisões ou viver com as consequências?
Pior do que tomar uma decisão errada é não tomar uma decisão. Quando decido, penso sempre no impacto nas pessoas. Se acredito que o impacto positivo é maior do que o negativo, sigo esse caminho. Há sempre aprendizagem.
Uma parte significativa do seu trabalho tem sido pagar dívidas que não contraiu. Isso chateia-o?
Gozo não dá a ninguém. Mas não posso viver a pensar nisso, não podemos viver no lamento. É uma realidade que já sabíamos quando nos propusemos a fazer este trabalho. Temos de ultrapassar isso de forma sustentável e equilibrada, garantindo qualidade de vida e preparando o concelho para não voltar a passar pelo mesmo.
O orçamento de 2026 cresce para 48,3 milhões, mas os impostos não descem…
Não é uma escolha possível sequer, porque é uma imposição do Fundo de Apoio Municipal. Não podemos dar a volta a isso. Quando entrarmos em equilíbrio financeiro, aí sim será uma decisão política reduzir ou não os impostos. Acho que não há político que não goste de baixar impostos. Mas nesta altura não é opção. O que podemos fazer é garantir que o dinheiro que as pessoas entregam é bem aplicado.
Prefere ser acusado de arriscar ou de deixar passar oportunidades?
Há diferentes tipos de risco. Na segurança e na saúde das pessoas não arrisco. A nossa matriz é conservadora nesse aspecto. Noutras decisões pode haver risco, porque podemos enganar-nos nas previsões. Mas não deixamos de decidir por medo da responsabilidade. Assumimos as nossas decisões.
Qual é o investimento que acha que pode mudar o quotidiano do Cartaxo?
Tudo aquilo que estamos a concretizar é importante: os investimentos nas escolas, a reabilitação do Centro de Saúde de Pontével, a Loja do Cidadão, mas também no desporto, na cultura, reabilitação de estradas, investimento no ambiente e na higiene urbana, com novos equipamentos de recolha de resíduos e a construção do ecocentro. Tudo isto garante condições básicas de qualidade de vida. Mas acredito que há investimentos que podem ser verdadeiros “game changers”, como atrair empresas ou conseguir um equipamento hoteleiro com capacidade para 90 ou 100 camas. Isso pode mudar o paradigma.
E o que é que pode mudar na vida das pessoas?
Há um tema que para mim é importante: a felicidade. Mesmo perante as dificuldades, temos condições para que as pessoas vivam felizes no Cartaxo. Isso começa também dentro do próprio município, na forma como trabalhamos, na mentalidade de que estamos aqui para servir a comunidade.
Quando fala com um investidor, qual é o argumento que usa para o convencer?
As pessoas. O Cartaxo tem pessoas muito competentes, com cada vez mais formação. Depois, a localização. Estamos a 35 minutos de Lisboa, a 40 minutos do mar, temos o rio. E os serviços que estamos a reforçar na educação, saúde, cultura e desporto.
Há decisões impopulares, mas necessárias. Como lida com isso?
Tomo-as. Com respeito pelas pessoas. Sabendo que podem não ser compreendidas no momento, mas que a médio e longo prazo servem melhor a comunidade. E é preciso explicar muito bem o porquê.
Como imagina o Cartaxo daqui a 10 anos?
Não tenho dúvida de que vai crescer em todas as dimensões. Já estamos a sentir isso. Costumo dizer que estamos condenados ao sucesso. Temos de conduzir este caminho sem precipitações, sem ansiedade, mas com visão clara. Não queremos ser um dormitório. Queremos que as pessoas tenham aqui o melhor da cidade no campo, que possam aqui fazer o seu projecto de vida.
Se pudesse mudar uma coisa amanhã, sem custos, o que mudaria?
A reabilitação urbana. Na cidade e nas freguesias. É muito caro e causa desgaste nas pessoas enquanto decorre. Precisamos de melhores estacionamentos, reabilitar ruas, reorganizar espaços. Temos pensado e estudado soluções, mas exige muito investimento.
Qual é o maior problema da máquina municipal?
Continuamos a ter poucas pessoas em algumas áreas. Temos limitações à contratação por estarmos intervencionados. Fizemos alterações à orgânica e já colhemos frutos. Investimos nas obras, na higiene urbana, nos espaços verdes. Hoje o espaço público está mais cuidado, mas é difícil contratar pessoas com experiência pelos ordenados que a função pública oferece.
Como lida com o desgaste de estar no poder?
Temos de manter uma perspectiva humilde e ambiciosa ao mesmo tempo. Em nenhum momento podemos achar que somos donos da razão, temos de nos pôr em causa todos os dias.
Quais são os limites que recusa ultrapassar?
Há muitos. Não podemos abdicar dos nossos valores. Cheguei à câmara com a cara lavada e irei sair com a cara lavada. Não pondero sequer qualquer caminho torto. Estou aqui para servir a comunidade, não para eu e os outros nos servirmos. E mesmo na relação política, temos de dar o exemplo.
O que perdeu e o que ganhou desde que é presidente?
Perdi tempo com a minha família e com os amigos. Há uma carga diária permanente que nos obriga a estar sempre disponíveis. Faço-o com gosto, mas retira espaço à família. Ganhei satisfação por sentir que estou com a minha equipa a cumprir a missão. Quando as pessoas reconhecem o esforço e o trabalho, isso dá-nos força. Há muito para fazer, mas passo a passo vamos fazendo caminho.
O João Heitor de 2021 é diferente do de 2026?
Somos sempre diferentes, senão não evoluímos. Hoje sinto-me mais conhecedor, mais maduro. Com consciência de que tento todos os dias de melhorar alguma coisa em mim.

Um karateca que foi professor e dirigente que tem na ética uma forma de estar

João Miguel Ferreira Heitor nasceu a 24 de Março de 1979, em Vale da Pinta, e fala do concelho que dirige como quem fala da própria casa. Licenciado em Educação Física e pós-graduado em Gestão Empresarial, começou como professor, trabalhou com crianças e jovens com necessidades educativas especiais e passou depois pelo sector empresarial, onde assumiu funções de direcção regional numa multinacional ligada ao sector agro-pecuário. A política não surgiu por acaso, mas como extensão natural de um percurso feito no associativismo, no desporto e na causa pública.
Desde jovem ligado ao karaté, modalidade em que conquistou títulos nacionais enquanto atleta e treinador, é hoje presidente da Associação Nacional de Karaté - Portugal. Foi presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária do Cartaxo e dirigiu a Sociedade Cultural e Recreativa de Vale da Pinta. Em 2021 assumiu a presidência da Câmara Municipal do Cartaxo num contexto de forte pressão financeira, mas recusa transformar essa herança num discurso de vitimização. Fala antes em disciplina e em responsabilidade. A maioria absoluta reforçada em 2025 não lhe trouxe leveza. Sente que há mais pessoas a acreditar no projecto e isso aumenta a exigência. Prefere decidir do que ficar paralisado e garante que nunca abdica dos seus valores, colocando a ética “a montante de tudo”.
Apesar das limitações financeiras, fala do futuro com convicção. O Cartaxo, acredita, está “condenado ao sucesso”, desde que o crescimento seja conduzido sem ansiedade e sem precipitações. Não quer um concelho dormitório. Quer um território onde se possa viver da A à Z, com emprego, serviços, cultura e qualidade de vida.
Casado e pai de três filhos, admite que o cargo lhe retirou tempo à família e aos amigos. Em casa é, antes de tudo, marido e pai. Reconhece que a política o obriga a equilibrar emoção e pragmatismo e sente-se hoje mais maduro e mais sólido na forma como exerce a função. Não projecta o futuro a longo prazo. Seja no serviço público ou no sector privado, mantém a ideia de base: servir e deixar melhor do que encontrou.

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