Especiais | 03-03-2026 07:00

O MIAA não é só um museu, é uma marca cultural do interior que faz inveja a grandes cidades

O MIAA não é só um museu, é uma marca cultural do interior que faz inveja a grandes cidades
ESPECIAL RETROSPECTIVA
O presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos com a chefe de Divisão da Cultura, Anabela Diogo

A distinção atribuída por O MIRANTE ao Museu Ibérico de Arqueologia e Arte vem reforçar um caminho que já soma reconhecimentos nacionais e prémios ligados à requalificação urbana. No Convento de São Domingos, em Abrantes, a aposta foi livre de aventuras arquitectónicas, mas com ambição: juntar património, colecções e programação contemporânea, criar rotinas educativas e atrair visitantes para a cidade e para a região. O presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos, e Anabela Diogo, chefe da Divisão da Cultura, falam do investimento, dos desafios, da equipa e do que falta fazer para que os abrantinos sejam os principais embaixadores do museu.

Que significado tem, para o município e para a equipa, voltarem a ver o museu distinguido?
Recebemos o prémio de Museu do Ano em 2023, atribuído pela APOM [Associação Portuguesa de Museologia]. Esse prémio, em particular, foi uma validação muito importante: reforçou o projecto e o grande investimento que fizemos, tanto na reabilitação do edifício como na aposta nos conteúdos. Ficámos muito felizes com esse reconhecimento porque ser o melhor museu do ano em Portugal é exigente. E é, seguramente, reflexo não apenas de um investimento financeiro, mas do esforço de todos para que Abrantes tivesse um museu com reconhecimento nacional. Esse reconhecimento tem depois impacto no número de visitantes e na amplificação da divulgação deste espaço cultural e social.
O que é que uma distinção vem acrescentar a esse percurso?
Acrescenta proximidade. Traz uma ligação directa ao território, à comunidade e ao Médio Tejo. E há uma mensagem importante: o museu não é só um equipamento para ser visto, é um espaço que tem de ser vivido e reconhecido por quem cá está. Costumo falar em quatro aspectos que, no fundo, se interligam. Primeiro, o investimento no edifício: tínhamos um edifício a cair. Segundo, os conteúdos: as colecções permanentes e as temporárias, e o trabalho constante para manter o museu com vitalidade. Terceiro, a capacidade de atrair pessoas e ser mobilizador do turismo e da actividade económica do concelho. E quarto, os profissionais que aqui trabalham, que são a alma do museu. A soma destes factores dá corpo às distinções e faz justiça ao investimento e ao empenho de muitos.
Que desafios trouxe a requalificação do antigo Convento de São Domingos?
Muitos. Houve vários projectos, alguns controversos. Felizmente optou-se por um mais simples, no bom sentido: recuperar o pré-existente e manter a linguagem do edifício, o que permite menores custos, quer no investimento, quer depois na manutenção. Essa simplicidade transmite segurança e confiança e está mais adaptada às nossas realidades de concretização das exposições. Quem entra percebe o respeito pela estrutura do edifício, mas, ao mesmo tempo, há um sinal contemporâneo.
O MIAA é um incentivo à regeneração urbana na cidade?
Claro. O MIAA, tal como outros museus que temos vindo a construir e reabilitar, faz parte de uma estratégia de requalificação urbana. Reabilitámos Santa Maria do Castelo, temos o Museu de Arte Contemporânea, temos o Museu Metalúrgico Eduardo Ferreira no Tramagal… são obras em edifícios com peso no nosso contexto urbano e na memória colectiva. Aliámos regeneração urbana aos conteúdos e à afirmação do concelho.
O museu recebeu também prémios ligados à requalificação urbana. Isso pesa na forma como o território é visto?
Pesa, sim. Recebemos o prémio Teotónio Pereira, que é relevante, e isso liga-se às questões da estética dos espaços e ao investimento na regeneração urbana. Abrantes investe com critério e com ambição.
Há uma intenção clara de valorizar artistas locais?
Há, sim. Promovemos, por exemplo, dois artistas locais: Mário Cordeiro e José Pimenta. A do Mário Cordeiro está patente. São artistas nem sempre muito conhecidos, mas são grandes artistas. E o museu também tem este papel: acolher a arte local, dar-lhe contexto e trazê-la para o centro da conversa. Depois temos as exposições permanentes: Maria Lucília Moita, a Coleção Estrada e a colecção arqueológica do município. Temos ainda protocolada uma colecção Figueiredo Ribeiro, de arte contemporânea.
O MIAA começa, em grande parte, com a cedência de 1.500 peças da Coleção Estrada. Como é que esse processo aconteceu?
O museu começa mesmo aí. O [coleccionador] João Estrada foi muito relevante e foi ele que impulsionou o projecto ao ceder ao município a colecção com a contrapartida de o município criar um espaço capaz de acolher uma colecção tão importante. Isso deu início a todo o processo. Depois, no âmbito de fundos comunitários e das candidaturas para requalificação do Convento de São Domingos, foi possível avançar.
Houve um longo trabalho museológico antes de abrir portas...
Houve. Um processo de análise de peças, certificações, preparação de colecções. Demorou anos. O investimento foi de muitos milhões: na regeneração e na preparação de conteúdos. Falou-se em seis milhões, mas o investimento foi superior a seis milhões de euros, considerando todas as dimensões do processo.
Ainda vale a pena investir em cultura?
Vale. A cultura não é para dar lucro, é para acrescentar valor às pessoas. A arte educa para a cidadania, para a estética.
O MIAA tem conseguido cumprir a função de atrair visitantes?
Tem. Um dos propósitos do investimento era captar fluxo turístico para a região e, em particular, para Abrantes. Pessoas que venham, que possam dormir cá, comer cá, fazer compras. Temos investido no dinamismo do museu e na articulação entre os equipamentos culturais. Isso é determinante e, até agora, recebemos cerca de 30.000 visitantes.
Que comentários costumam ouvir sobre um museu com esta dinâmica estar em Abrantes?
Ouvimos muitas vezes que este museu podia estar em Lisboa. Podia estar numa cidade qualquer da Europa. Podia estar no mundo. E podia! Há uma ideia de que os grandes museus têm de estar nos grandes centros. Nós contrariamos isso.
O que é que hoje em dia deve distinguir os museus para serem mais atractivos?
Os museus têm de ser espaços de formação e cultura para todas as idades e classes sociais. Cada vez vejo mais o museu para grandes massas, não apenas para alguns. E este museu tem uma linguagem, muito por causa dos seus profissionais: todos têm de ser bem recebidos. E, na prática, temos um catálogo de serviços educativos na rede de museus. As escolas inscrevem-se, escolhem oficinas, ateliers. Trabalhamos muito com o público escolar, mas quando falamos em serviços educativos não falamos só de crianças: é educativo no sentido amplo. E há um trabalho em rede, também com escolas de fora e contactos com instituições de ensino superior.
Defende-se um museu menos silencioso e mais vivo?
Sim. Há oficinas em que as crianças estão sentadas no chão, a desenhar, a dançar, a fazer música a partir de obras de arte. Isso acontece no MIAA. Sou absolutamente contra a ideia de museus como espaços estáticos.
O museu já conquistou Abrantes?
Ainda falta. A melhor forma de promover o MIAA são os nossos: virem, conhecerem e depois trazerem amigos e família. Há muita gente da nossa cidade, do concelho e da região que ainda não veio. Os que já vieram, como já ouvi, dizem que o MIAA é inacreditável, que andavam há anos para vir e que não pensavam que tanta qualidade pudesse estar aqui dentro. Falta reconhecermos mais o que é nosso e promovermos melhor. Quando os nossos vêm, tornam-se nos melhores embaixadores.
A tecnologia pode ser uma ameaça à museologia tradicional?
Acho que não. O digital pode ser um fenómeno perigoso no sentido de deixar as pessoas no sofá, mas ver ao vivo é diferente. Quem gosta, vai ao local. E, ao mesmo tempo, o mundo digital é um excelente veículo de comunicação: ajuda a chegar a outras camadas, a cativar jovens. Vamos investir mais na promoção e divulgação. Vi recentemente que há equipamentos com inteligência artificial a “conduzir” visitas, e isso será comum no futuro.
Que exposições temporárias estão patentes e quais os próximos passos?
Está patente a exposição do Mário Cordeiro, que revelou uma obra vasta que poucos conheciam. E a colecção Figueiredo Ribeiro, de arte contemporânea. A seguir, há uma parceria com a Culturgest: três artistas vão estar em residência em Abrantes durante três meses, a criar obras a partir do MIAA e do território, com trabalho ligado a realidades locais e culminando numa exposição no museu. É um exemplo claro do museu vivo e do reconhecimento do nosso trabalho.

Identidade, educação e futuro no coração de Abrantes

O Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA), instalado no Convento de São Domingos, tornou-se um dos símbolos mais visíveis de como um território do interior pode afirmar ambição cultural sem perder ligação às suas raízes. A requalificação do antigo convento do século XVI devolveu vida a um edifício emblemático que marcava a identidade urbana e afectiva de Abrantes, num processo onde se procurou respeitar a memória do espaço e, ao mesmo tempo, garantir condições museológicas contemporâneas. Mas o MIAA não é apenas um edifício bonito: é uma ideia de comunidade, onde o património, a arte e a educação se cruzam com uma programação activa e com equipas que trabalham para tornar o museu acessível a todos.
Os prémios recebidos, entre eles o Museu do Ano atribuído pela APOM e distinções ligadas à requalificação urbana, não são um fim em si mesmos: são sinais de que o investimento feito no edifício, nos conteúdos, na atracção de visitantes e no trabalho dos profissionais faz justiça ao esforço colectivo que tornou possível um museu de referência. O museu tem uma equipa de 12 pessoas, entre técnicos superiores na vertente das artes, assistentes técnicos, pessoas que trabalham em coleções, serviços educativos, uma técnica de conservação e restauro.
A importância do MIAA mede-se, também, no quotidiano: nas visitas guiadas, nos serviços educativos, nas oficinas em que crianças desenham, dançam ou criam música a partir de obras de arte, e na diversidade de uma oferta que vai da arqueologia e da pré-história à arte contemporânea. Para o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos e Anabela Diogo, responsável na Divisão da Cultura há nove anos e ligada desde a abertura do museu, o MIAA só cumpre plenamente a sua missão quando é vivido: quando os abrantinos e a região entram, reconhecem o valor do que foi feito e se tornam embaixadores do espaço. Essa missão tem ainda caminho a percorrer, porque continuam a existir pessoas do concelho que ainda não sabem o que têm dentro de portas.
O MIAA é assumido como motor de desenvolvimento local: atrai visitantes, reforça a imagem de Abrantes, incentiva turismo e actividade económica, e integra-se numa rede cultural mais ampla do concelho, articulando-se com outros museus e equipamentos. Num tempo em que o digital parece competir com a experiência presencial, o município defende a tecnologia como aliada da divulgação, sem substituir o essencial: a experiência ao vivo e o encontro entre pessoas, obras e território.

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