Especiais | 03-03-2026 21:00

O rancho de Alpiarça que é família feita de muitas famílias onde ninguém fica para trás

O rancho de Alpiarça que é família feita de muitas famílias onde ninguém fica para trás
ESPECIAL RETROSPECTIVA
O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Alpiarça mantém viva a tradição ribatejana há mais de meio século

O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Alpiarça nasceu em 1969 e continua a levar o nome do concelho pelo país fora e além-fronteiras. Entre ensaios, trajes de cores garridas que contam a história e uma direcção que gere “como uma pequena empresa”, o grupo mantém-se de boa saúde, com mais de 40 elementos de gerações que partilham danças, cantares, saberes e memórias. À conversa com O MIRANTE, o presidente da direcção, José Cunha, o tesoureiro e ensaiador, Vítor Abaladas e a secretária, Sara Caetano, falam da origem do rancho, do orgulho em representar Alpiarça, das dificuldades e do futuro.

De que forma foi feito o trabalho inicial de recolha etnográfica de danças, músicas, trajes e testemunhos? Esse trabalho foi sendo actualizado ao longo dos anos?
Foi feito essencialmente pelo António Flor, o fundador, que ia bater de porta em porta, para tentar saber modas, letras, quadras e perceber como eram os trajes de antigamente. Temos uma cantiga antiga, o Fadinho da Ti Maria Crevinas, que tem uma quadra cantada por uma senhora que, se fosse viva, teria agora uns 120 anos. Se fosse hoje seria muito difícil fazer uma recolha assim. As pessoas hoje já não abrem a porta, têm medo. Teria de ser mais por fotografias e por aquilo que está escrito sobre Alpiarça.
Como se reflecte a diversidade da lezíria, da charneca e dos campos nos trajes apresentados?
Reflecte-se nos vários trajes que apresentamos, no campino de gala, o campino do campo, o traje domingueiro, de pescador, ceifeira, trabalhadora do campo, pescadora, por exemplo. O público reconhece alguns deles, como o do campino de gala e o pescador, porque há elementos descalços e com as redes. É sempre bom quando o público pergunta e quer saber mais acerca do nosso passado.
Tiveram de fazer adaptações ao longo do tempo?
Sim. Um exemplo: antigamente as campinas dançavam com chinelas. Hoje muitas dançam com sapatos porque as meninas e mulheres já não estão habituadas a andar com calçado assim e acabavam por perder as chinelas a dançar.
Que importância têm danças como o baile de roda, as modas e os viras na identidade do rancho e do território?
Representa o que fomos e o que ainda somos. Temos o Vira do Vinho, porque aqui há muitas vinhas e o vinho do Ribatejo é conhecido. Temos o Bailarico de Alpiarça, que é sapateado e palmas, e o Verde Gaio, em quadra, que também fala em Alpiarça. Depois há danças que se vão repetindo, porque estamos muito próximos de outros concelhos onde o passado se assemelha. E não podemos esquecer que Alpiarça pertenceu ao concelho de Almeirim, o que explica afinidades.
O que sentem quando sobem a palco?
É um orgulho enorme. Estar num rancho não dá dinheiro. Quem anda nisto tem de gostar mesmo. Muitas vezes vamos cansados, mas subimos a palco com orgulho e numa pilha de nervos porque vamos representar Alpiarça. Sentimos o peso da responsabilidade, sobretudo quando a actuação é cá porque é aqui que estão os nossos, a avaliar-nos. Lá fora também a sentimos, claro, e termos mil pessoas a bater-nos palmas enquanto representamos Alpiarça é um orgulho que não cabe no peito.
O folclore, o rancho, é muito mais do que palco...
Muito mais, o rancho não se resume a tocar e dançar. São os conhecimentos, as amizades que ficam, as viagens a outras terras onde bebemos da cultura dos outros. É o respeito que temos uns pelos outros mesmo quando às vezes há um que fica chateado por uma coisa ou outra, mas quando descemos do palco, abraçamo-nos sempre. E se corre bem, há quem chore de alegria. No folclore não há competições, onde cada grupo representa aquilo que sabe fazer melhor. E isso é muito bonito.
O rancho está de boa saúde?
Está de boa saúde! Neste momento temos cerca de 40 elementos. O mais novo tem três anos e o mais velho 74. Temos mais mulheres que homens. Numa actuação podemos ter entre 10 e 11 pares, mas vai depender do palco: nem sempre dá para dançar toda a gente e aí é preciso explicar e gerir as expectativas dos elementos, porque todos querem dançar. Em média fazemos entre oito a 12 actuações por ano, a maioria fora, por convite de outros grupos, por isso, dá para ir rodando.
Não foi sempre assim na história do rancho. Já viveram momentos delicados...
Já. Houve alturas em que não tínhamos elementos para actuar. Há cerca de 10 anos houve momentos em que só tínhamos sete pares e com dois de férias era complicado. Mas também é preciso reconhecer que já estivemos com quatro pares e fizemos grandes actuações.
Andar no rancho é também ter a possibilidade de conhecer novos lugares. Que saídas, memórias ou momentos marcantes destacam das actuações em Portugal e no estrangeiro?
O rancho é para muitos a única possibilidade de conhecer novos sítios. Fomos por exemplo a França, a Champigny-sur-Marne, cidade geminada com Alpiarça, há cerca de sete anos. Fomos recebidos como se estivéssemos cá: com comida portuguesa, boa estadia, cobertores, casacos… foi tudo excelente. E ainda nos deram comida para trazer para o caminho. Há emigrantes que nos viram lá e que quando vêm a Portugal fazem questão de nos visitar. São amizades que ficam para a vida. Depois, falando do nosso país, já o percorremos de norte a sul. Da Póvoa de Varzim a Lamego e a várias cidades algarvias.
Vivemos um tempo em que as crianças estão muito presas aos ecrãs. O rancho funciona como uma boa alternativa?
Sim. O rancho tira os miúdos dos ecrãs. Aqui, no ensaio, não há telemóveis. Já tivemos jovens com dificuldade em integrar-se e quando vieram para o grupo começaram a interagir, a falar. Aqui brincam, divertem-se, dançam, ficam longe das tecnologias que já tanto os absorvem.
Que valores tentam transmitir aos mais novos?
Educação e respeito acima de tudo. Respeito pelos mais velhos, saber pedir, saber cumprimentar. E aprender a estar uns para os outros. Somos todos diferentes e é preciso que saibamos respeitar essas diferenças. É assim que deve ser numa família e num grupo como o nosso.
O rancho também sabe ser família?
É uma extensão em muitos casos. Se alguém se sente mal, o grupo corre, preocupa-se. Aqui aprende-se que é preciso estarmos uns para os outros e que ninguém fica para trás. E aprende-se naturalmente, pelo que se vive aqui. Depois há uma intergeracionalidade muito bonita, com casos de avós que vêm e ficam no rancho por causa dos netos. O Rancho da Casa do Povo é uma família feita de muitas famílias.
Qual é o maior desafio que o grupo enfrenta actualmente?
O maior desafio é gerir pessoas, temos de funcionar como uma pequena empresa. Gerir feitios, horários, compromissos…estamos a falar de 40 pessoas com vidas diferentes. Não é fácil. E é preciso honrar compromissos porque, sempre que aceitamos um convite, do outro lado as pessoas estão a contar connosco. E nós temos de cumprir, por isso, também se aprende aqui algo muito importante: o espírito do compromisso.
Recebem o apoio e sentem o reconhecimento devido pelo trabalho que fazem na divulgação da identidade de Alpiarça?
Sentimos o apoio do povo e do município, mas podia ser maior. Temos o autocarro do município para algumas saídas planeadas, mas as restantes são por nossa conta, por isso fazemos eventos para angariar fundos. Recebemos também do município um subsídio anual, mas grande parte vai para pagar o acordeonista. É uma realidade transversal a quase todos os grupos, ter de se pagar a quem toque acordeão, porque já é difícil encontrar quem saiba tocar sem ser por pauta, de ouvido. Temos neste momento alguns elementos que poderão vir a conseguir.
Que futuro imaginam para o rancho e que mensagem gostariam de deixar às próximas gerações?
O que mais gostávamos era que não deixassem morrer esta casa. Já tivemos tempos difíceis. Hoje estamos melhor, mas é preciso garantir continuidade. E para isso é preciso vontade e espírito de sacrifício.

Valores e tradições passam de geração em geração

O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Alpiarça nasceu em 1969, a partir de um grupo cénico impulsionado por António Flor da Silva, figura recordada como determinante na recolha etnográfica inicial, feita de porta em porta para recolher e perpetuar modas, quadras, letras e vestuário tradicionais. Actualmente com cerca de 40 elementos, o rancho é em palco uma colectânea de gerações que partilham o folclore como paixão.
Do mais novo, com três anos ao mais velho com 74, apresentam-se em palco trajados a rigor, com vestimentas que representam a lezíria e o trabalho ribatejano: os campinos, campinas, pescadores, ceifeiras e trabalhadoras do campo. Modas têm muitas, mas o fandango, na sua vertente mais conhecida ou com vara pau, é o ex-líbris das actuações que faz as delícias de quem assiste. Novos dançam com novos, pais dançam com filhos, numa entrega de arrepiar e fazer estremecer o chão do palco a cada batida de pés ao som de melodias estridentes e apressadas.
A direcção é composta por José Cunha, que a preside há 18 anos e está ligado ao rancho desde os sete, por Sara Caetano, que ocupa o cargo de secretária e integrou o grupo aos 14 anos, e por Vítor Abaladas, tesoureiro há mais de uma década e ensaiador principal há cerca de um ano. O grupo ensaia uma vez por semana, à sexta-feira, por volta das 21h30, durante cerca de duas horas, e realiza em média 12 actuações anuais, maioritariamente fora do concelho, por convite de outros grupos e entidades. Entre as memórias marcantes está a deslocação a Champigny, em França, ou outras como as vividas em Espanha, Itália, Alemanha, Jugoslávia e Grécia.
O rancho, filiado na Federação de Folclore Português, assume-se como espaço de educação e integração, sobretudo para os mais novos, promovendo valores como respeito, disciplina e entreajuda e mantendo a preocupação de garantir continuidade geracional, com o desejo de que surjam novos responsáveis para que a história desta casa possa continuar a ser escrita a novas mãos.

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