A ideia de que há um conjunto de iluminados detentores da verdade é assustadora
Manuela Ralha é uma mulher que fez história nas autarquias nacionais ao tornar-se na primeira pessoa em cadeira de rodas a ter funções executivas num município português. Foi em 2017, depois de ter sido desafiada por Alberto Mesquita para fazer a diferença no concelho. Hoje em dia, ao lado de Fernando Paulo Ferreira, o trabalho continua na luta pela defesa dos mais fracos, pelo direito à habitação, pelas melhores condições de mobilidade. Mesmo quando um camionista abalroou o carro em que seguia e ficou numa cadeira de rodas, não se deixou abater e envolveu-se na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e tem sido um rosto da mudança de mentalidades e acções, não só no concelho de Vila Franca de Xira como no país.
Quase ao fim de uma década no cargo o que ainda a motiva para continuar?
Saber que me falta fazer muita coisa. O trabalho nunca está concluído. Mas sou uma optimista. Houve muita coisa que se fez no âmbito da melhoria das acessibilidades no concelho desde que cheguei à vereação. Não posso dizer que foi tudo da minha autoria, mas sou culpada em algumas situações. Já havia nos presidentes Maria da Luz Rosinha e Alberto Mesquita uma preocupação grande em tornar o espaço público democrático e para todos. Continuamos a construir as nossas cidades tendo em mente apenas as medidas do homem vitruviano do Leonardo da Vinci, com dimensões típicas, mas somos tudo menos típicos. O executivo ter uma pessoa com limitações funcionais e que tem uma palavra a dizer sobre as coisas torna estas preocupações muito mais visíveis e diferentes. Consegui dar transversalidade à preocupação com a inclusão. Isto não é só um problema de acessibilidade, um problema cultural, um problema da educação ou da coesão social, é uma questão transversal a toda a sociedade.
Numa tomada de posse nos bombeiros em Alverca, foi notícia nacional uma foto de O MIRANTE dos bombeiros a levarem-na ao colo. Sente que isso mudou as mentalidades?
Não acredito, mas foi uma consequência do facto de as pessoas continuarem a entender que toda a gente funciona com os pés. Ainda nos esquecemos muito de quem tem mobilidade reduzida. Não é só as pessoas com deficiência que se movem em cadeiras de rodas. São os idosos, os pais com os carrinhos de bebé, são as pessoas obesas, cegas, etc. Há toda uma comunidade que tem dificuldades de mobilidade e que acaba por ficar presa na sua própria casa, como fiquei durante 10 anos à espera de uma seguradora, porque não tinha transportes. O espaço público não está preparado para todos, mas temos lutado contra isso e ajudado a melhorar muito do que existe.
Actualmente a política local encanta-a ou desilude-a?
Não sou uma política de carreira, por isso, sempre achei que a política é aquilo que quisermos que ela seja. Não tem a ver com as cores partidárias, tem a ver com pessoas. Revejo-me muito nos princípios do Alberto Mesquita e do Fernando Paulo Ferreira. Revejo-me em muitas coisas, senão não estaria aqui. Não estou na política para fazer favores.
Consegue que o presidente da câmara oiça a sua voz e implemente as suas ideias?
Estou aqui porque faço parte de uma equipa. Se me pergunta se gostava de ir mais além? Gostava. Mas as coisas têm o seu tempo próprio. Não tenho problema em falar com o presidente. Somos um grupo de trabalho, cada um tem a sua forma de pensar e de estar. Não somos um partido de pensamento único.
Como é ser mãe e mulher na política?
Estamos num país em que até há 50 anos as mulheres não tinham papel algum na comunidade. E hoje continuamos a ter um país onde, politicamente, ainda estamos numa sociedade patriarcal. As mulheres são tão competentes como os homens. Infelizmente se não tivermos o sistema de quotas em vigor muitas mulheres não conseguem atingir determinadas posições. Basta ver, por exemplo, quantas mulheres têm sido candidatas a presidentes de câmara. As mulheres são mais pragmáticas, mais práticas e têm outra visão da estruturação da sociedade.
Como é que vê a entrada de partidos mais radicais como o Chega nas autarquias?
Numa altura em que deveríamos todos olhar de uma forma mais humanizada para a sociedade, entristece-me ver que não aprendemos nada com a história. Custa-me que a mentira, hoje em dia, valha mais do que a verdade. Que o negacionismo seja, cada vez mais, a forma de estar na política e custa-me esta polarização relativamente à política e este crescente culto da personalidade. Parece que não aprendemos nada com as guerras e com o fascismo. Cada vez estamos mais egoístas, pensamos menos nos outros. Às vezes sinto que não sou deste mundo. A minha construção de sociedade é uma ideia em que nós devemos olhar o outro com o princípio da igualdade, olhar o outro não apenas com os nossos olhos, mas tentar pôr-nos sempre no lugar do outro e percebê-lo.
O que diz a quem acha que os políticos são todos iguais?
Que se candidatem e venham perceber que o nosso dia tem 24 horas de trabalho, não tem 12 nem oito. A nossa vida é totalmente pública, toda a gente sabe aquilo que somos, o que ganhamos, onde estamos. Não temos segredos. Se acham que um político “encher-se” é ter mais despesas que ganhos venham para o nosso papel. Claro que não podemos julgar o pomar por uma árvore podre. Se as pessoas se candidatam acham que o importante é ter poder ou encher os bolsos estão no local errado. Não é fácil estar na política hoje em dia. Os políticos são julgados todos os dias e as suas famílias vêem e lêem muita coisa desagradável nas redes sociais. A democracia e a liberdade precisam de ser cultivadas todos os dias.
É uma sonhadora?
Sonhadora e optimista. Mas sempre muito pragmática porque não perco tempo com aquilo que não posso fazer ou com aquilo que não posso mudar. Não perco tempo a discutir com alguém nas redes sociais. Quem quiser falar comigo fala olhos nos olhos. A política é uma arte nobre, de servir o próximo, e esse deve ser o foco.
O que ainda sonha concretizar até ao final do mandato?
Muita coisa. Já consegui finalmente levar a bom porto a instalação da Comissão Municipal de Protecção e Promoção da Pessoa Idosa. Vai trabalhar da mesma forma que trabalha uma Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, com o Ministério Público. Estamos a trabalhar na criação de uma bolsa de assistentes pessoais, voluntários, e numa estratégia municipal de combate à pobreza que promova a capacitação das pessoas que estão dependentes de apoios económicos. A sociedade está sempre em movimento e precisamos de evoluir constantemente nas respostas que temos que dar. Um Estado Social é proteger os mais vulneráveis.
E de todos os desafios que o concelho de Vila Franca de Xira enfrenta, qual destaca como o mais prioritário?
A prioridade é a habitação. É o pelouro mais sensível que tenho actualmente. Neste momento temos perto de 400 pessoas em lista de espera para ter uma habitação municipal. Cada vez mais existe uma gentrificação que está a correr com os idosos dos centros das cidades para depois os donos das casas poderem fazer especulação imobiliária. Vamos tentando mitigar isso da melhor forma que sabemos.
Uma mulher “intolerante a intolerantes”
Manuela Ralha tem 58 anos e uma vida onde se cruza a música com a política. Nasceu em Lisboa, mas diz sem hesitar que é de Alhandra, onde cresceu a sua veia de activista e onde o Tejo é a sua fonte de inspiração. Cresceu numa família profundamente politizada. Do lado do pai, a tradição comunista e a luta operária. Do lado da mãe, a ligação ao Partido Socialista. Teve familiares que foram presos políticos e em casa falava-se de ética, de justiça social e de democracia. Em jovem pertenceu a associações de estudantes, grupos de jovens, teatro e actividades culturais. A inquietação cívica nasceu ao mesmo tempo que a curiosidade pelo mundo. A ligação à música teve as influências do avô e do pai, que foram músicos na Euterpe Alhandrense. Manuela Ralha começou no saxofone, passou pela Academia de Amadores de Música de Lisboa e pelo Conservatório. Fez o ensino primário na “escola das meninas”, num tempo ainda marcado pela separação de géneros, apesar de já ter apanhado o 25 de Abril no primeiro ciclo.
Pertenceu à Juventude Socialista. Foi autarca pela primeira vez na Junta de Vila Franca de Xira como vogal e no mandato a seguir foi secretária. Deu aulas de educação musical, trabalhou técnica vocal e direcção coral e passou por uma editora discográfica. Chegou a ter oito actividades ao mesmo tempo na juventude, praticando natação, judo, ballet e ginástica rítmica, demonstrando que nunca gostou de estar parada.
A sua vida mudou abruptamente com um acidente na Estrada da Alfarrobeira em Vialonga, perto da fábrica da Central de Cervejas, quando o carro em que seguia foi abalroado por um camião. Seguiu-se um processo judicial de dez anos contra a seguradora, que assumira a culpa, mas protelava a resolução do sisnistro. Foram dez anos de exames repetidos, perícias sucessivas. Não recebeu baixa, não pôde trabalhar, ficou fechada em casa, dependente do apoio dos pais e dos sogros, com quatro filhos para criar - dois biológicos e dois do então marido.
O isolamento forçado levou-a a encontrar outra forma de intervenção. Criou o blogue “A Vida Num Só Dia”, onde escrevia sobre os direitos das pessoas com deficiência. Atendia telefonemas noite dentro, respondia a e-mails, partilhava legislação, explicava procedimentos. Começou a defender publicamente a ideia de que a deficiência não é uma questão médica, mas uma questão de direitos humanos. Criou com outros activistas o Movimento (d)Eficientes Indignados. Regressou ao desporto através da natação adaptada, onde foi campeã nacional e recordista, distinguida com o Prémio Carlos Lopes da Câmara de Vila Franca de Xira. Chegou a ser a atleta mais velha da Europa na sua categoria. Não foi aos Jogos Paralímpicos por uma questão de quotas. Acabou por deixar a competição por indicação médica.
Ajudou a fundar a Mithós - Histórias Exemplares, uma associação de apoio à multideficiência de Vila Franca de Xira, pensada como associação gerida por pessoas com deficiência e não apenas para elas. Foi co-fundadora do Centro de Vida Independente, em Lisboa, que implementou os primeiros projectos de assistência pessoal. Teve um papel relevante no movimento “Sim nós fodemos”, para desmistificar a sexualidade das pessoas com deficiência. “Era um activismo directo, de rua, de confronto com ministros e deputados”, recorda.
Considera que o ex-presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Alberto Mesquita, ao escolhê-la para integrar o executivo quis levar activismo à governação, ajudar a transferir um olhar crítico para dentro da autarquia. Aceitou o desafio porque percebeu que poderia fazer mais pelas pessoas vulneráveis do concelho nessa posição. Está no terceiro mandato como vereadora, com os pelouros da Acção Social, Saúde, Habitação Municipal, Alimentação e Veterinária, Cultura, Bibliotecas e Arquivo, Informática e Desenvolvimento Tecnológico. Não se considera política de carreira e o que a move é “poder fazer”, é o trabalhar para uma sociedade justa, equitativa, humanista, que não deixe ninguém para trás.
Acredita na Carta dos Direitos Humanos e na ideia de que todos nascemos iguais em dignidade. Foi assim que foi educada. Considera que equidade não é tratar todos por igual, mas dar a cada um o que precisa. Detesta a intolerância, a exclusão, a soberba, o individualismo e o culto do ego, dizendo ser intolerante a intolerantes.


