Especiais | 04-03-2026 19:00

Casa do Povo de Arcena preserva tradições ao mesmo tempo que mantém dinamismo

Casa do Povo de Arcena preserva tradições ao mesmo tempo que mantém dinamismo
ESPECIAL RETROSPECTIVA
Clara Negrinho, actual presidente da Casa do Povo de Arcena, lidera uma direcção composta exclusivamente por mulheres

A Casa do Povo de Arcena foi fundada há 91 anos, numa época em que a ruralidade marcava o quotidiano. Arcena cresceu em torno da colectividade, que acompanhou os tempos, modernizando-se sem perder as suas tradições. Com uma direcção composta exclusivamente por mulheres, as portas estão sempre abertas a todos. O Museu Etnográfico faz sucesso junto de miúdos e graúdos, e eventos como a Noite de Fados, o aniversário ou o Festival de Folclore são amplamente participados e uma referência local. Modernizar espaços e alargar a oferta são alguns dos objectivos a curto prazo, mantendo sempre o rigor nas contas.

A Casa do Povo de Arcena nasceu em 1934, num tempo em que a localidade era marcadamente rural. A agricultura e o pastoreio dominavam o quotidiano da população, sendo o queijo fresco de Arcena uma das referências gastronómicas da terra. Foi nesse contexto que surgiu a necessidade de criar uma Casa do Povo, destinada a apoiar os trabalhadores e a organizar a vida comunitária. A primeira sede não corresponde ao edifício actual, mas foi um ponto de encontro essencial para a população e um exemplo disso foi que, em 1935, a Casa do Povo de Arcena foi o primeiro sitio a ter telefone público.
Em 1962, um habitante de Arcena doou o terreno onde ainda hoje funciona a colectividade. A sede foi inaugurada em 1967 e durante muitos anos acolheu também o centro de saúde, até ser construído o Centro de Saúde do Bom Sucesso.
Com cerca de 1.400 sócios, desde 2013 que a associação é dirigida por mulheres, assumindo os cargos principais: Carla Negrinho, presidente da direcção; Sandra Madeira, presidente da assembleia-geral; Isabel Candeias, presidente do conselho fiscal. No mandato 2025/2027 a estrutura dirigente é composta por 18 elementos, sendo 11 mulheres e sete homens.
Ao início a direcção feminina não foi bem aceite porque normalmente eram cargos onde estavam homens, mas rapidamente o paradigma mudou e hoje são respeitadas e reconhecidas pelo trabalho que desenvolvem.
Quando chegou há 25 anos à Casa do Povo de Arcena, Clara Negrinho, presidente da direcção desde 2013, encontrou uma instituição ligada à população, mas muito virada para dentro. Arcena cresceu em torno da Casa do Povo, sobretudo depois do 25 de Abril de 1974, e transformou-se numa zona dormitório com muitos residentes a sair de manhã e a regressar apenas ao final do dia. Perante este cenário, era preciso abrir as portas da colectividade à comunidade e modernizar a instituição.

Acervo da Casa do Povo atrai visitantes e escolas
O Rancho Folclórico, fundado em 1979, foi determinante na projecção da Casa do Povo dentro e fora do concelho, afirmando-se como uma referência cultural. No ano 2000, a antiga escola de música deu origem a um grupo musical que ainda hoje se mantém activo. Seguiram-se novas valências, como escola de concertina, acordeão e bateria.
Funcionou também uma secção de artes manuais, onde várias senhoras se reuniam semanalmente para conviver e combater o isolamento. Embora esteja actualmente suspensa, a direcção pretende reactivá-la, mantendo a preocupação social que sempre caracterizou a instituição.
A partir de 1999, com o falecimento de muitos habitantes mais antigos, começaram a ser doadas peças e objectos que deram origem a um núcleo museológico. Inicialmente instalado numa pequena sala, o espólio foi crescendo até atingir cerca de 3.000 peças. A antiga escola de Arcena acabou por acolher definitivamente o museu. Em 2020 foi celebrado um protocolo com a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, no âmbito dos serviços educativos, o que permite a visita regular de alunos das escolas do concelho. Neste âmbito realizam-se os workshops “Mão na Massa”, “Vindima” e “Semear” e visitas À exposição permanente. O projecto movimenta anualmente cerca de mil visitantes e é coordenado por três dirigentes da Casa do Povo e duas associadas. “Temos o museu sempre aberto para quem o quiser visitar. Acho que foi uma aposta ganha e tem sido muito valorizado o espaço”, sublinha Clara Negrinho.
A Casa do Povo gere ainda o pavilhão municipal, propriedade da autarquia, onde decorrem actividades como futsal, basquetebol, andebol, ginástica de manutenção, taekwondo, zumba, yoga e dança no bairro, esta última em parceria com a junta de freguesia.

Obras na sede e instalação do multibanco
Nos últimos anos foram realizadas obras significativas no edifício sede. O bar foi transferido para o rés-do-chão, criaram-se instalações sanitárias adaptadas e foi instalada uma plataforma elevatória, após um episódio que evidenciou a necessidade de melhorar as acessibilidades, sobretudo ao piso superior onde se realizam por exemplo os aniversários da colectividade com a demonstração das actividades das secções desportivas e culturais e as reuniões de câmara descentralizadas.
Outra conquista, que demorou dois anos, foi a instalação de um multibanco na colectividade, o único que existe em Arcena, evitando que a população se tenha de deslocar a Alverca.
O orçamento anual da Casa do Povo ronda os 60 mil euros, sustentado por apoios da câmara e da junta, receitas do bar, quotas, rifas e eventos. Entre as iniciativas mais emblemáticas destacam-se o cantar das Janeiras, a noite de fados, os bailes de Carnaval, o enterro do chouriço, o festival do caracol, o encontro do tocador tradicional, os festivais folclóricos e o Baile da Pinha. No Natal, a colectividade monta presépios e árvores com materiais reciclados, envolvendo as crianças da escola básica.
Apesar do dinamismo, a presidente admite uma preocupação comum ao associativismo: a dificuldade em renovar os corpos sociais. A média etária dos dirigentes é elevada e poucos querem assumir responsabilidades, num contexto em que as exigências administrativas e contabilísticas são cada vez maiores. “O associativismo não pode viver apenas do voluntariado, porque corre o risco de não ter continuidade. Não quer dizer que concorde, mas penso que irá passar por isso”, refere a responsável, acrescentando que pode ser uma preocupação a curto prazo.

Eventos exigem dedicação e horas de trabalho
Para 2026 os objectivos passam por levar a cabo o plano de actividades na sua totalidade e concluir a exposição do espólio de taças e troféus, que vai ficar no primeiro andar da sede, junto ao salão, uma vez que muitos objectos tiveram que ser arrumados em caixas por falta de espaço. Outro objectivo é requalificar a cave para criar um espaço polivalente destinado a actividades internas e aluguer do espaço para festas de aniversário de crianças ou outras, porque em Arcena não existe oferta deste âmbito. O espaço poderá também servir para a secção de Taekwondo poder fazer a vistoria aos atletas na altura das provas.
Está ainda em negociação a possibilidade de disponibilizar yoga para crianças, possivelmente a partir de Abril. “Ver a casa cheia e perceber que somos úteis é a maior recompensa”, afirma Clara Negrinho, convicta de que a colectividade continuará a afirmar-se como pilar da identidade local.
O facto de todas as secções desportivas e culturais estarem a funcionar em pleno faz com que os filhos tragam os pais, permitindo que pessoas que antes não frequentavam a Casa do Povo voltem a visitar o espaço. Ainda assim, a dirigente gostava que a colectividade fosse ainda mais frequentada diariamente pela população.
Organizar eventos exige dedicação e muitas horas de trabalho. Para organizar uma noite de fados, por exemplo, começa-se a trabalhar de manhã e só acaba na madrugada, para garantir que tudo decorre sem falhas. “É um evento que nos dá imenso trabalho. Começo às 9h00 e acabo no outro dia às 4h00 da manhã, porque a noite tem de ser acompanhada ao minuto. E quando as pessoas perguntam, então mas já acabou e perguntam quando é o próximo é muito gratificante, é sinal que gostaram”, explica.
Sem dívidas nem empréstimos bancários, a dirigente diz que os passos são dados aos poucos e de forma consciente na colectividade, sempre com rigor nas contas. “Todos os directores que por aqui passaram, pautaram-se sempre por fazer mais e melhor. A ideia que tenho é que nunca estiveram parados”.

Arcena, lugar de tradições

Fundada a 15 de Março de 1934, a Casa do Povo de Arcena (CPA), freguesia de Alverca do Ribatejo e Sobralinho, desempenhou desde a sua origem um papel fundamental no apoio ao trabalhador rural, profissão dominante à época. Para além do auxílio na saúde, em períodos de escassez de trabalho a instituição conseguia subsídios para a ocupação de trabalhadores na reparação de estradas e caminhos públicos, desempenhando assim um papel central na vida da comunidade.
A sede definitiva foi construída em 1967, mantendo-se até hoje como um espaço central da vida social, cultural e associativa da localidade. Com 91 anos de história a CPA tem assumido um papel determinante na preservação das tradições locais. Em 1999, com o espólio antigo das gentes de Arcena, entretanto doado à colectividade, foi criado um núcleo museológico. Em 2012 nasce o Museu Etnográfico de Arcena, instalado nas antigas dependências da escola primária, edifício propriedade da CPA. Este espaço reúne uma colecção que permite dar a conhecer ao público as vivências tradicionais da população de Arcena até meados do Século XX.
No final de 2020, foi assinado um protocolo de projecto educativo com os serviços da Câmara de Vila Franca de Xira, permitindo a visita regular de alunos das escolas do concelho.
Em 2024, e com o objectivo de melhorar a acessibilidade, foi deslocalizado o bar da colectividade do primeiro andar para o rés do chão, tendo sido requalificada toda a área mediante candidatura ao Orçamento Participativo da câmara.
Em 2022 a CPA iniciou contactos com o executivo da junta para a instalação de um ATM, uma vez que não existia multibanco em Arcena. A parceria foi concretizada em Março de 2024, com a colocação do equipamento na CPA. No final do ano 2025, foi instalada uma plataforma elevatória, garantindo o acesso universal ao salão, no primeiro andar, permitindo que todas as pessoas possam frequentar as actividades e eventos da associação.
A CPA dinamiza diversas secções culturais, desportivas e artríticas, nomeadamente o Rancho Folclórico, o Grupo Coral e Musical a Escola de Música, Escola de Concertina e Escola de Bateria.
Na área desportiva a colectividade gere o Pavilhão Municipal de Arcena desde a sua inauguração em 1999, disponibilizando modalidades com taekwondo, zumba, yoga, ginástica de manutenção e futsal.
Na área cultural destaque para o Cantar das Janeiras, noites de fado,bailes de Carnaval, baile da pinha, "Touro sai à rua", enterro do chouriço, festival do caracol, encontro do tocador tradicional, presépio vivo, festival de folclore infantil e adulto e comemorações do aniversário da colectividade.

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