Especiais | 04-03-2026 13:00

CRIB é um centro de felicidade e um exemplo de gestão sem empréstimos nem dívidas

CRIB é um centro de felicidade e um exemplo de gestão sem empréstimos nem dívidas
ESPECIAL RETROSPECTIVA
Presidente da direcção do CRIB, Catarina Vale, acompanhada por utentes da instituição, que se afirma como exemplo de inclusão e gestão sustentável

O Centro de Recuperação Infantil de Benavente celebra quase cinco décadas ao serviço da inclusão, com uma missão centrada no bem-estar, segurança e felicidade dos utentes dos concelhos de Benavente e Salvaterra de Magos. Catarina Pinheiro Vale, presidente da direcção, aponta os principais desafios e defende o reforço das respostas sociais. A instituição quer alargar a capacidade de resposta do lar residencial através de uma candidatura a fundos comunitários.

Como surgiu a ligação ao CRIB?
Tinha oito anos quando a minha mãe começou a trabalhar na instituição e, a partir daí, passei a ter uma ligação muito forte, de amizade, com todos. Mais tarde, fui convidada pelo antigo presidente da Câmara de Benavente, António José Ganhão. Pensei bastante, mas acabei por aceitar o convite. Estou na instituição desde Janeiro de 2015. Vou completar 12 anos de mandato, três mandatos consecutivos. Em Dezembro de 2026 terminarei as minhas funções como presidente da direcção.
Como é que o centro se relaciona com a comunidade?
O CRIB passou a ter uma verdadeira visão de comunidade e uma relação de proximidade com as autarquias e com o tecido empresarial, por exemplo, que visita a nossa escola e adopta espaços com o seu nome. Temos o caso da sala de estimulação cognitiva, da ludoteca e do ginásio, que foi pago e equipado pelo jogador do nosso concelho, Gonçalo Guedes, entre outros intervenientes. Isto é para nós um enorme motivo de orgulho. As pessoas que visitam a instituição percebem que aqui há vida, alegria e um forte espírito de missão, centrado em fazer os nossos utentes felizes. Quem passa na estrada não consegue ter noção desta dimensão.
Qual é a principal missão do CRIB?
A principal missão é garantir a segurança dos nossos utentes, mas sobretudo o seu bem-estar e felicidade. Sentimos que, quando vêm à instituição, saem daqui pessoas diferentes. Aqui têm oportunidade de realizar um conjunto alargado de actividades que, possivelmente, não fariam noutros contextos. Dispomos de áreas como psicologia, fisioterapia, psicomotricidade, adaptação ao meio aquático e actividades em piscina, bócia, andebol adaptado, padel adaptado e equitação terapêutica adaptada. Proporcionamos diariamente inúmeras actividades, bem como outras, de forma pontual, ao longo do ano. Recordo, por exemplo, a recente ida a um jogo de andebol ao pavilhão do Sporting Clube de Portugal, que foi um momento de grande emoção.
Quantos utentes frequentam cada valência?
Na intervenção precoce, destinada a crianças dos 0 aos 6 anos, não existe um número fixo. Actualmente situamo-nos entre os 70 e os 90 utentes, sinalizados pelas escolas ou por médicos. A resposta sócio-educativa conta, neste momento, com sete alunos, embora exista necessidade de ampliar esta oferta. O Centro de Actividades Funcionais tem 66 utentes, com capacidade para chegar aos 71.
Com a falta de resposta a nível nacional, a lista de espera é muito grande?
É, sim. Vamos gerindo as listas de espera, que não funcionam por ordem de inscrição, mas sim em função das prioridades e das necessidades. Quando surge uma vaga, todos os processos são reavaliados e entra quem apresenta maior grau de necessidade. Temos de encontrar solução para quem mais precisa. A valência sócio-educativa é aquela em que existe maior procura, tal como o lar residencial, pelo que é urgente ampliar estas respostas.
O CRIB tem projectos para aumentar a capacidade de resposta?
Infelizmente, ainda não conseguimos obter financiamento para a ampliação do lar residencial. Já nos candidatámos ao PRR, mas este não contemplou verbas para este modelo, apenas para residências autónomas. O Portugal 2030 também não dispõe de financiamento e aguardamos agora pelo programa Pares 4.0, para perceber se será possível enquadrar verbas para este objectivo. O projecto está elaborado, mas falta dotação orçamental.
Já existe terreno?
Sim, situa-se exactamente ao lado do actual lar. As direcções anteriores criaram uma resposta com capacidade para 24 utentes. Actualmente são 30 e, a médio prazo, pretendemos abrir mais seis vagas no lar existente e avançar para uma nova unidade com capacidade para 30 utentes. Temos muitos utentes que, no futuro, irão necessitar deste apoio, uma vez que os pais já não têm condições ou se encontram envelhecidos, necessitando muito da nossa ajuda.
Também acompanham as famílias dos utentes?
Fazemos esse acompanhamento, embora considere que ainda poderia ser diferente. O acordo existente não prevê vagas para acolhimento temporário, por exemplo, em fins-de-semana ou em situações de hospitalização dos pais. Quando possível, e com base nas vagas disponíveis, facilitamos que alguns utentes permaneçam na instituição. No entanto, considero que esta deveria ser uma resposta regulamentada pela Segurança Social, permitindo algum descanso ao cuidador informal.
Qual é o valor do orçamento?
O orçamento anual é de cerca de 1,5 milhões de euros, concretamente 1.498.000 euros para 2026. O centro tem contado, ao longo de quase 50 anos, com pessoas que fizeram uma gestão responsável da instituição, a quem deixo o meu agradecimento. A instituição apresenta uma boa saúde financeira, o que permitiu, por exemplo durante a pandemia, pagar a totalidade dos salários, incluindo o subsídio de alimentação, sem nunca comprometer os direitos dos trabalhadores. Não temos qualquer empréstimo bancário nem dívidas.
Quantos trabalhadores têm actualmente?
Contamos com 57 trabalhadores afectos às diferentes respostas sociais. A direcção é composta por cinco elementos, a Assembleia Geral por três e o Conselho Fiscal por outros três.
Conseguem colmatar todas as necessidades?
Neste momento, sim, mas é cada vez mais difícil contratar profissionais, sobretudo para o lar residencial, devido ao regime de turnos. Muitos dos trabalhadores desta resposta são estrangeiros, sendo já em número superior ao de portugueses. Os salários são baixos, como acontece na generalidade das IPSS, o que cria grandes dificuldades de recrutamento e deveria ser revisto com urgência.
Que outros desafios enfrenta a instituição?
Os apoios da Segurança Social são limitados. Com o aumento dos salários, dos bens alimentares e dos custos com electricidade, gás e água, tivemos de gerir com grande rigor para evitar o colapso. Tivemos alguns anos com resultados negativos, mas actualmente a situação encontra-se estabilizada.
Há famílias com dificuldades em pagar as mensalidades?
Algumas, sim, mas conseguimos ajustar as comparticipações de acordo com o rendimento real de cada agregado.
Os utentes apresentam doenças cada vez mais raras?
Existem algumas situações de doenças raras, mas, na generalidade, falamos de multideficiência. Um dos desafios prende--se com a ausência de respostas adequadas para pessoas com doença psiquiátrica, que tentamos não integrar, uma vez que se trata de realidades muito distintas. Existem dois ou três casos antigos, bem adaptados, mas continuamos a defender que estas situações devem ter respostas próprias.
Como imagina o CRIB daqui a uma década?
Gostaria que fosse cada vez mais encarado pela comunidade como uma pertença colectiva. Gostaria de ver concretizada a construção do novo lar e, daqui a dez anos, entrar na instituição e encontrar os mesmos sorrisos que vejo hoje.

CRIB nasceu da luta de uma mãe com um filho com deficiência

O Centro de Recuperação Infantil de Benavente (CRIB) foi criado no dia 11 de Janeiro de 1977, por iniciativa de uma comissão de pais de crianças com deficiência, com o objectivo de criar uma escola que fosse simultaneamente um espaço de acompanhamento técnico e de desenvolvimento das suas capacidades. A comissão foi encabeçada por Maria Rosa França de Moura Silva, já falecida, cujo filho ainda hoje frequenta a instituição, sendo um dos utentes mais antigos.
O CRIB abriu portas no dia 1 de Outubro de 1980, já com quadro de pessoal seleccionado e professores destacados, para 26 alunos. No dia 21 de Fevereiro de 1981 foi eleita a primeira direcção, em Assembleia Geral Ordinária.
De 1 de Outubro de 1980 até 14 de Novembro de 1984, o CRIB funcionou nas instalações do antigo posto da GNR de Benavente, passando a funcionar, a partir de 15 de Novembro de 1984, no edifício do antigo Celeiro dos Arcos, adaptado para o efeito e cedido à instituição, por contrato de comodato, pela Companhia das Lezírias. Em 2004, o CRIB transitou para o edifício onde actualmente se encontra instalado.
Entre as respostas sociais existentes destaca-se a intervenção precoce, destinada a crianças dos 0 aos 6 anos que apresentam risco grave no seu desenvolvimento ou incapacidade estabelecida. Desde 1980, a valência educativa apoia crianças e jovens dos 6 aos 18 anos com necessidades educativas especiais de carácter permanente. Estes alunos provêm dos agrupamentos de escolas dos concelhos de Benavente e de Salvaterra de Magos.
O Centro de Actividades Ocupacionais iniciou funções a 1 de Setembro de 2003, encontrando-se em funcionamento todos os dias úteis, entre as 9h00 e as 17h00. Foi criado com o objectivo de proporcionar às pessoas portadoras de deficiência mental grave a profunda actividades que permitam desenvolver as suas potencialidades, promover a sua integração social e, em última análise, inseri-las em programas de inclusão socioprofissional.
O Lar Residencial tem capacidade aprovada para 24 utentes, em quartos duplos e individuais, em regime de alojamento permanente, funcionando durante todo o ano, vinte e quatro horas por dia. O objectivo é alargar esta resposta através de candidatura a financiamento comunitário.
O Centro de Recuperação Infantil de Benavente integra ainda a rede do Plano SALUTE, cuja principal finalidade é a promoção da saúde e a prevenção da doença, através do desenvolvimento de aptidões pessoais, sociais e adaptativas, contribuindo para a adopção de comportamentos e estilos de vida saudáveis e para o processo de integração escolar de crianças e jovens com necessidades de saúde e/ou educativas.

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