A ginástica no distrito de Santarém tem sido uma incubadora de talentos
A Associação de Ginástica de Santarém tem, ao longo dos seus quase 44 anos de existência, fomentado a actividade desportiva, a formação de ginastas, treinadores e juízes, afirmando a região em Portugal e além fronteiras. União, competência e muito trabalho de clubes, atletas e dirigentes estão na base de resultados relevantes e de uma história de êxitos. A presidente da direcção, Ana Varejão, está ligada à modalidade desde os três anos de idade, chegou a competir grávida e até ganhou uma medalha.
Os trampolins têm grande peso nesta região que se tem traduzido em presenças em campeonatos do mundo e Jogos Olímpicos, casos de Ana Rente, Nuno Merino ou Diogo Ganchinho, por exemplo. Qual é o segredo para esse desempenho?
É trabalharmos todos para o mesmo objectivo, sermos muito unidos. É uma modalidade muito unida. Os treinadores dão-se todos muito bem e tentamos sempre trabalhar no mesmo sentido. Isso contribui para que os resultados apareçam. Os treinadores e ginastas, mesmo em competição, elogiam e incentivam os ginastas de outros clubes. O objectivo dos treinadores e dos ginastas é a auto-superação. É sempre procurar fazer melhor.
Nas outras disciplinas da ginástica os resultados não têm sido tão relevantes porquê?
Também têm tido alguma relevância. Na acrobática, já temos dois clubes com ginastas de elite, a Académica de Santarém e o Ginásio Clube de Tomar; e na artística tivemos um ginasta, o Joel Catarino, de Torres Novas, que durante algum tempo fez parte da selecção nacional.
É frequente ver jovens promissores chegarem à barreira dos 20 anos e deixarem a modalidade?
Sim, alguns. Entram para a faculdade e têm que optar. Mas há também quem concilie. Um dos nossos melhores ginastas de trampolins, o Francisco José, entrou na Escola Superior de Desporto de Rio Maior e o grande objectivo dele continua a ser a ginástica. É uma excepção.
Não fica uma certa frustração por se investir na formação de um atleta na infância e na adolescência e depois, de repente, tudo acabar?
Sim, às vezes acontece. Essa é uma das variáveis com que trabalhamos. Mas sabemos que há uma percentagem que, indo para fora estudar, acaba por deixar a modalidade. Além disso, a longevidade dos ginastas ronda os vinte e poucos anos, com algumas excepções.
É fácil cativar os jovens, sobretudo os rapazes, para a ginástica tendo a concorrência de muitos desportos colectivos, como o futebol, por exemplo?
Há realmente menos rapazes na ginástica, mas os que se mantêm são excelentes ginastas. Nos trampolins, estamos a nível mundial. E grande parte dos nossos melhores ginastas fica ligada à modalidade como dirigente, treinador ou juiz. Temos o Sérgio Lucas, da Chamusca, que durante vários anos foi treinador das selecções de trampolins do Egipto, da Austrália e da Suíça. Actualmente, o treinador nacional da Suíça é o Diogo Ganchinho. O treinador nacional dos Estados Unidos da América é o Nuno Merino. Vários antigos ginastas do distrito, que decidiram emigrar, ocupam lugares de destaque. Outro exemplo é o de Rui Vinagre, que foi ginasta em Torres Novas e é o director técnico dos trampolins da Federação Internacional de Ginástica. E o professor Luís Arrais é o presidente da Federação de Ginástica de Portugal. O distrito de Santarém tem sido uma incubadora de talentos nas mais diversas áreas, seja como atletas, juízes, treinadores ou dirigentes.
A ginástica artística é outra variante que tem tido sucesso nos últimos tempos.
Temos vários campeões nacionais nos diferentes escalões. Neste momento temos cinco clubes no distrito com ginástica artística e somos a associação distrital do país com mais clubes nessa disciplina. O centro de treino de Torres Novas, no ginásio municipal, tem sido uma âncora do desenvolvimento da disciplina. A maior parte dos treinadores saiu daí.
O apoio das autarquias é fundamental para os clubes poderem desenvolver a sua actividade?
Tem sido uma mais-valia. Sem o apoio das autarquias seria mais difícil desenvolver a ginástica ao nível do que tem sucedido. Nós achamos sempre que é possível um bocadinho mais, mas, se formos a ver, Santarém tem um espaço dedicado à ginástica; Torres Novas tem um espaço só para ginástica; o concelho de Benavente tem dois centros de treinos nacionais protocolados com a federação, um de trampolins e outro de teamgym e aeróbica. Em Tomar, o ginásio da Nabância, que pertence ao município, também está protocolado com o Ginásio Clube de Tomar. Há outros clubes que poderiam e deveriam ser mais apoiados, mas isto também tem a ver com as infraestruturas desportivas locais. O Ateneu Artístico Cartaxense tem das melhores pistas a nível nacional, adquirida pelo próprio clube.
Tem sido fácil a relação com os clubes?
Sim. A boa relação com os clubes é um factor crítico de sucesso. Isso também nos fideliza à causa. Se não houvesse esse bom ambiente, se calhar já tínhamos abandonado a ginástica. Essa longevidade traz-nos experiência e podemos aplicar o conhecimento acumulado em benefício da modalidade.
Qual é o grande objectivo para este mandato?
Continuar a crescer no número de ginastas, no número de clubes e ter alguns dos nossos melhores ginastas em grandes competições internacionais, como campeonatos da Europa e campeonatos do Mundo. Temos ginastas no distrito capazes de conquistar títulos a esse nível. Pretendemos também aumentar o número de juízes internacionais.
Ter como presidente da Federação de Ginástica de Portugal Luís Arrais, um amigo e antigo companheiro de lides em Santarém, facilita a sua missão como dirigente?
Claro que sim. Luís Arrais foi também dirigente da associação e meu treinador. E sendo também de Santarém acaba por facilitar um pouco, mas não traz nenhum benefício acrescido. É um amigo.
A actividade física entre as crianças e jovens é quase toda feita na escola e nos clubes, devidamente enquadrada. Não faz falta mais brincadeira de rua, informal, como acontecia antes?
Sim, mas os pais preferem hoje deixá-los
em locais onde são acompanhados. O tempo mudou e o ambiente supervisionado, seguro e fechado é o ambiente que os pais procuram.
Na ginástica desde os três anos
Como é que a ginástica entrou na sua vida?
A ginástica entrou na minha vida desde os três anos. Os meus pais inscreveram-me, comecei na Casa do Benfica em Santarém, depois deixaram de ter ginástica e fui para a Académica de Santarém, onde conheci o Vítor Varejão, que era meu treinador e colega ginasta. Começámos a namorar e estamos casados há 30 anos.
Está ligada à ginástica como dirigente e como juiz. Também foi praticante e treinadora. É mãe de duas antigas ginastas e de três juízes da modalidade. Já não há nada que lhe falte fazer na modalidade.
Penso que não, desde ginasta a treinadora e dirigente. Fui juiz internacional de parkour no último ciclo olímpico, agora continuo a ser juiz internacional de trampolins, já estive em campeonatos do mundo como juiz e fui chefe da delegação portuguesa que esteve nos Jogos Mundiais por Idades.
É difícil imaginar a sua vida sem a ginástica?
É muito difícil, sim. Não consigo imaginar. Faz parte do meu dia-a-dia. Sempre estive ligada à ginástica. Quando os meus filhos nasceram, o primeiro sítio a que foram foi ao pavilhão. Cheguei a competir quando estava grávida da minha filha mais velha. Ficámos em terceiro lugar num campeonato nacional, em trampolim sincronizado. Em vez de sermos duas, éramos três (risos)...
O que a tem motivado a estar estes anos todos dedicados à modalidade?
Além do gosto pela prática da modalidade, também foram os amigos e a família. Ainda participei em algumas provas internacionais e conquistei alguns títulos a nível nacional. Além da Casa do Benfica e da Académica de Santarém, competi também pela União de Santarém e pelo Gimno Clube de Santarém, sempre em trampolins..
Dois mil atletas e mais de vinte clubes ajudam a continuar uma história de sucesso
A Associação de Ginástica de Santarém tem-se afirmado como um pilar no fomento da modalidade no distrito, coordenando e organizando competições, em articulação com os clubes, em disciplinas gímnicas como a aeróbica, acrobática, rítmica, artística, teamgym (exercícios em grupo), trampolins, ginástica para todos e parkour. O meritório trabalho desenvolvido ao longo dos anos pelos clubes filiados e pelas selecções territoriais reflecte-se nos excelentes resultados e participações olímpicas conseguidos por diversos ginastas da região, nomeadamente na vertente de trampolins.
No Verão passado, o ginasta Lucas Santos, natural de Benavente e formado no Clube de Trampolins de Salvaterra de Magos, conquistou a medalha de ouro em trampolim sincronizado, nos Jogos Mundiais. Foi mais um nome da ginástica formado na região que alcançou resultados de nível internacional e que sucede a outras figuras da modalidade das últimas décadas, como Ana Rente, Nuno Merino, Diogo Ganchinho ou Bruno Nobre.
Fundada a 12 de Maio de 1982, a Associação de Ginástica de Santarém reúne mais de dois mil ginastas filiados em duas dúzias de clubes, números que têm vindo a crescer nos últimos anos. A sua acção consolidou a ginástica como uma das modalidades desportivas mais dinâmicas do Ribatejo, contribuindo para a formação de jovens talentos e para a afirmação da região no panorama nacional e internacional. Tem a sua sede no bairro de São Domingos, em Santarém, e promove anualmente uma gala que constitui também uma grande festa de família.
A associação dá muita atenção à formação técnica, organizando diversas acções para treinadores do distrito e apoiando-os nas despesas. Os juízes são também apoiados nas despesas com os cursos que frequentam. O distrito de Santarém tem diversos juízes internacionais na ginástica artística feminina, no parkour, em trampolins, na acrobática e no teamgym.
A nível de competições em que apoia a organização juntamente com os clubes, a Scalabiscup é uma competição internacional de referência na disciplina de trampolins que se realiza anualmente em Santarém. Mas também merecem destaque, entre outros, o torneio Toneca Cup de ginástica acrobática, que decorreu recentemente em Tomar e envolveu mais de mil ginastas, ou o torneio José Maria Gaspar, em Benavente, igualmente na ginástica acrobática.
Desde de Janeiro de 2025, a Associação de Ginástica de Santarém tem como presidente da direcção Ana Varejão, 52 anos, natural e residente em Santarém. Uma professora de Educação Física que, na ginástica, já esteve em praticamente todas as frentes: foi atleta e treinadora, é juiz internacional desde 2000 e dirigente associativa, além de ser mãe de duas antigas ginastas que agora são também juízes de provas, tal como é o filho. Em Novembro, Ana Varejão chefiou a selecção nacional de trampolins na competição mundial por grupos de idades. O marido, Vítor Varejão, é outra figura incontornável da ginástica na região, anterior presidente da AGS e actualmente secretário da direcção.


