Especiais | 05-03-2026 19:00

“De nada vale uma associação crescer muito se não for financeiramente sustentável”

“De nada vale uma associação crescer muito se não for financeiramente sustentável”
ESPECIAL RETROSPECTIVA
Os membros da direcção José Guido, Sílvia Figueiredo, João Saloca e Gabriel Costa defendem uma associação viva, mas equilibrada financeiramente

A Associação Cultural e Recreativa da Linhaceira foi fundada a 25 de Dezembro de 1974 e desde então tem assumido um papel central na dinamização da vida cultural e desportiva da aldeia do concelho de Tomar. Alguns eventos são já referências a nível regional e até nacional, como o seu popular desfile de Carnaval, as provas desportivas, como os Trilhos do Nabão e a Corrida das Bruxas. Nesta conversa com O MIRANTE participam os membros da direcção José Guido, Sílvia Figueiredo, João Saloca e Gabriel Costa.

A maior parte das associações lamenta não existir uma renovação dos dirigentes. Como está a vossa associação a este respeito?
Não é fácil cativar os jovens. Temos três ou quatro, os restantes já têm perto de 30 anos. Esperamos um dia poder vir a ter mais, mas é sobretudo um problema da terra. A Linhaceira é uma terra aguerrida e muito bairrista, mas já foi mais no passado. Os jovens não têm muitas oportunidades de emprego e acabam por ir para outros locais à procura de trabalho. A nossa zona carece muito de indústria. Tomar tem algumas pequenas indústrias, mas precisávamos de muito mais. Esse é um papel importante que a associação tem, manter os jovens da terra ligados à comunidade. Enquanto a associação for viva, o espírito vai-se mantendo.
Quantas pessoas envolve a associação?
Semanalmente, estão envolvidas umas 150 pessoas nas actividades da associação. Muitos dos actuais dirigentes estão aqui há 16 anos seguidos (risos). As pessoas não estão tão disponíveis como no passado e depois a questão da dívida do pavilhão afasta alguns potenciais interessados, por ser uma responsabilidade grande. Já havia dificuldades no passado, com isso pior. Apesar disso, temos um grande número de voluntários e pessoas amigas que ajudam sempre que podem.
Como está a situação financeira da associação?
Estamos bem, mas não podemos fazer grandes extravagâncias. Faz agora dez anos que construímos o pavilhão, foi um investimento grande, mas significa que todos os anos temos perto de 140 mil euros de custos. Todos os meses pagamos 950 euros para as obras de construção do pavilhão. Não é um valor baixo, somando à água e energia, entre outros custos. Muitos dos nossos eventos servem para angariar as receitas que precisamos para manter a associação de portas abertas. Infelizmente este ano com o mau tempo perdemos a nossa tenda onde guardávamos as coisas do carnaval e estamos a falar de um prejuízo a rondar os 20 mil euros. Acabámos por decidir cancelar o desfile de Carnaval em solidariedade com as pessoas do concelho que estão em dificuldades. Mesmo se o fizéssemos, acreditamos que o espírito e a parte sentimental das pessoas não está boa.
Os dirigentes deviam ser remunerados?
Depende do tipo de associação. É verdade que em alguns momentos os dirigentes passam bastante tempo nas associações, mais ainda do que em casa, e nem sempre será justo fazer isso apenas pelo voluntariado. Aqui, por exemplo, não temos capacidade financeira para poder tomar uma decisão desse tipo. E temos orgulho de que toda a gente que temos connosco, incluindo no desfile de carnaval que é um dos nossos orgulhos anuais, é voluntária e faz isto por amor à camisola, por amor à Linhaceira e à comunidade.
Vários eventos são já referências nacionais, o que é que exige a sua organização?
Muitos dos eventos que realizamos requerem uma logística grande, como na Corrida das Bruxas ou nos Trilhos do Nabão, que chama muitos participantes de todo o país. Infelizmente, parece que a Associação de Atletismo de Santarém e a federação querem acabar com isso tudo. Estão a pedir que se pague uma taxa por cada atleta participante nessas provas, a rondar os dois euros cada um. Querem acabar com o atletismo. Não querem fomentar o desporto, querem tirar dividendos do desporto e isso não é correcto. E o que faz a associação à troca de se pagar essa taxa? Absolutamente nada. Zero. Limitam-se a meter a prova no calendário. Ainda não sabemos o que fazer, mas já ouvimos algumas vozes a sugerir que se abandone a Associação de Atletismo de Santarém.
O que é que a direcção ainda pretende realizar até ao final do mandato?
Estamos eleitos até ao final deste ano. Ainda não sabemos se nos vamos recandidatar. A curto prazo o nosso principal objectivo é recuperar a tenda do Carnaval que ficou destruída nas tempestades deste ano para armazenar os materiais e arrecadar os carros. Depois, se houver dinheiro, talvez consigamos acabar as obras no primeiro piso do pavilhão, que terá uma sala de reuniões ou gabinetes para o rancho, Carnaval e futsal. Também falta fazer pequenos arranjos no espaço. E continuar a amortizar a dívida da obra, claro.
Os dirigentes não devem dar passos maiores que a perna ou por vezes isso é necessário para criar as condições necessárias?
Têm de ser moderados. E tentar que as finanças não descambem. É verdade, se não gastarem o dinheiro, as coisas não se fazem e não podemos ter actividades. É uma pescadinha de rabo na boca. Temos de ir contando com a comunidade e a câmara para esse activismo. Mas, no geral, temos de ser muito objectivos e ponderados nas decisões que tomamos. Queremos evoluir e crescer, mas de forma sustentada. Não podemos deixar que estas casas deixem de existir. São a união da comunidade. Em muitas terras o único ponto de encontro da comunidade são as associações.
Quem é que faz com que a associação esteja viva e no patamar em que se encontra?
Esta casa é feita de muitas pessoas que nem sempre aparecem nas fotos, mas são fundamentais para a associação ser o que é. Se nas diferentes secções não houvesse voluntários, a associação não estaria no patamar em que está. Faça sol ou chuva, estão sempre presentes.

Uma associação que é o coração da aldeia

A Associação Cultural e Recreativa da Linhaceira (ACRL) foi fundada a 25 de Dezembro de 1974, assumindo desde então um papel central na dinamização da vida cultural, social e desportiva da Linhaceira, aldeia da freguesia de Asseiceira, no concelho de Tomar. Criada com a finalidade de agregar a comunidade e promover acções culturais, recreativas e desportivas para os seus associados e para a população em geral, a ACRL construiu, ao longo de décadas, um percurso sólido, sustentado pelo trabalho voluntário e pelo espírito de missão de várias gerações. O seu orçamento anual ronda os 230 mil euros e movimenta perto de 700 associados.
Paralelamente à sua actividade regular, a associação desenvolve valores fundamentais como o companheirismo, a amizade, o sentido de responsabilidade e o trabalho em equipa, pilares que fortalecem a coesão comunitária e reforçam o seu compromisso com o bem-estar colectivo. A sua missão passa por prestar serviços nas áreas social, educativa, cultural, desportiva e recreativa, promovendo a igualdade de oportunidades e contribuindo para o desenvolvimento harmonioso da comunidade. O seu pavilhão, por exemplo, é usado pelo centro escolar da terra. Mas é também usado para dinamizar outros projectos educativos dirigidos a crianças, jovens, adultos e seniores, incluindo a promoção de iniciativas culturais e recreativas e o incentivo à prática do desporto e da cultura.
No âmbito desportivo e ambiental, a ACRL promove, por exemplo, a prova Trilhos do Nabão, iniciativa que visa incentivar a prática desportiva, preservar a floresta e o meio ambiente e divulgar as paisagens da zona ribeirinha do rio Nabão, atraindo todos os anos centenas de atletas. Também promove a famosa corrida das bruxas, na noite de Halloween. A associação integra também o Rancho Folclórico de Linhaceira, fundado a 4 de Maio de 2002. Através de um rigoroso trabalho de recolha etnográfica, o rancho recria o modo de trajar, cantar e dançar dos camponeses locais nascidos entre 1880 e 1930. Possui uma “Escola de Brincadeiras Tradicionais Populares” e, no grupo, destacam-se instrumentos como violas de caixa, harmónicas, acordeões, realejo, castanholas, reco-reco, ferrinhos, pinhas e cântaros.
A associação é particularmente conhecida por promover o Carnaval da Linhaceira. Mais do que um desfile, é uma manifestação genuína e espontânea da comunidade. Não há artistas convidados nem corsos comerciais: ali os reis são os foliões da terra e a festa vive-se nos bailes e nas brincadeiras que saem à rua, envolvendo residentes e visitantes num espírito autêntico e colectivo. Também todos os carros alegóricos são feitos por gente da terra. Tem também actividades desportivas, como o karaté, yoga e o futsal.

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