Especiais | 05-03-2026 16:00

União Desportiva de Santarém é um caso raro de um clube sem dívidas no mundo do futebol

União Desportiva de Santarém é um caso raro de um clube sem dívidas no mundo do futebol
ESPECIAL RETROSPECTIVA
Pedro Patrício lidera a União de Santarém desde 2017, período em que o clube eliminou dívidas e consolidou presença na Liga 3

À frente da União Desportiva de Santarém, Pedro Patrício tem sido o rosto de um projecto que devolveu ambição, estabilidade e identidade ao emblema escalabitano. Entre a consolidação na Liga 3, o crescimento sustentado da formação, a criação do futebol feminino, a ausência total de dívidas e o sonho assumido de chegar às ligas profissionais, Pedro Patrício fala de liderança, sacrifício, decisões difíceis e da necessidade de mobilizar toda a região do Ribatejo.

Como recebeu a distinção de Personalidade do Ano atribuída por O MIRANTE?
Com grande orgulho, naturalmente, mas sobretudo com ainda mais responsabilidade. Este prémio não reconhece apenas o cargo que ocupo, reconhece um percurso. Reconhece o trabalho de muita gente ao longo destes anos e obriga-nos a continuar a fazer melhor.
Sente que simboliza uma viragem no clube?
Sim. Não apenas pelo prémio, mas pelo momento que o clube vive. Nos últimos três anos crescemos muito, estruturalmente, desportivamente e socialmente. Há três anos ninguém levava a União muito a sério. Hoje já levam.
Em que medida o crescimento foi estrutural?
Foi no aumento do número de sócios, na reorganização interna, na criação da SAD, na estabilidade da equipa técnica, na profissionalização da formação e na consolidação financeira. Houve um trabalho silencioso, mas consistente.
A União vive um momento especial do ponto de vista desportivo?
Objectivamente, sim. Estamos a disputar a subida à Liga 2 com clubes históricos como o Belenenses, a Académica de Coimbra, o Mafra e o Varzim. Só o facto de estarmos nesta discussão já demonstra crescimento.
É um objectivo assumido chegar à Liga 2?
É. Acredito que nos próximos três anos podemos lá chegar. Não é fácil, com o orçamento que temos, mas é um objectivo claro.
Santarém tem dimensão para isso?
Tem todas as condições. Somos a capital de distrito, estamos numa localização estratégica entre Lisboa e Porto. Santarém é uma espécie de rotunda do país: passam por aqui as principais vias rodoviárias e ferroviárias. Mesmo o futuro aeroporto ficará relativamente próximo. Uma equipa nas ligas profissionais traz retorno económico significativo para hotelaria, restauração e comércio.

“Competimos com o orçamento mais baixo da Liga 3”

Falou no orçamento. Qual é a realidade financeira da União?
Trabalhamos com um orçamento entre 500 e 600 mil euros por ano. É o mais baixo ou um dos mais baixos da Liga 3. Não temos praticamente direitos televisivos.
Como se mantém a competitividade assim?
Com critério. Costumamos dizer que “pescamos à linha”: identificamos um jogador específico e vamos buscá-lo. Outros clubes lançam a rede e depois escolhem. Temos de ser cirúrgicos.
E a situação financeira do clube?
Desde 2017 não temos uma única dívida. Não devemos um euro à Segurança Social, às Finanças, a jogadores, treinadores ou staff. É um motivo de orgulho enorme.
O clube tem património próprio?
Tem muito pouco. As infraestruturas desportivas são municipais, com boa manutenção. Mas precisamos urgentemente da requalificação da Ribeira de Santarém. Conseguimos um direito de superfície de 50 anos junto ao Chã das Padeiras para construir residências, que serão importantes para o futuro do clube. Sem património é difícil consolidar um projecto.
A formação é um dos pilares do projecto?
Sem dúvida. Crescemos quase 100 atletas nos últimos anos e já ultrapassamos os 350, entre futebol masculino e feminino.
Criaram o futebol feminino. Era uma lacuna?
Era. Este ano já temos duas equipas femininas. Era algo que fazia falta e que reforça a nossa identidade inclusiva.
O que distingue a vossa formação?
Tem dois pilares: compromisso com os pais e ambição competitiva. Queremos formar atletas, mas também formar seres humanos com carácter e compromisso escolar. Quando um miúdo me diz que ganhou o jogo e teve boa nota a matemática, isso para mim é vitória.
Que desafios enfrentam?
Infraestruturas e competitividade. A Ribeira não tem condições adequadas. E precisamos colocar equipas nos campeonatos nacionais para reduzir o fosso entre o distrital e a Liga 3. Criámos uma equipa B para melhorar a transição, mas é um processo gradual.
Quem sustenta a formação no dia-a-dia?
Os pais. São o verdadeiro motor. Acompanham, ajudam, organizam torneios. Têm um papel fundamental.

Liderança: proximidade e maturidade

É um presidente presente no balneário?
Sou muito presente. Acredito que as lideranças se fazem junto das pessoas, não em gabinetes. Estou com os jogadores, falo com eles, acompanho.
Alguma decisão que considere especialmente importante?
A estabilidade da equipa técnica. Tivemos uma fase menos boa, mas mantivemos confiança. Era fácil despedir.
Hoje somos das equipas técnicas mais estáveis da Liga 3.
E momentos difíceis?
Muitos. Um dos mais duros foi perder na Covilhã quando dependíamos apenas de nós. A viagem de regresso foi muito difícil. O futebol tem destas coisas.
O que mudou em si enquanto dirigente?
Mais ponderação. Aprendi que nem sempre reagir é a melhor solução. Às vezes uma não-decisão é a decisão certa.
O associativismo vive tempos difíceis?
Sim. Falta massa humana, falta união entre clubes. Esperava maior proximidade regional.
Defende dirigentes remunerados?
Acho que deve ser uma opção. Eu pessoalmente não seria remunerado, mas compreendo que possa fazer sentido. É uma função que consome muito tempo. Há dias em que trabalho 14 horas para a União. Muitas vezes quase não vejo as minhas filhas, mesmo vivendo na mesma casa. É um consumo brutal de tempo.
Sem apoio familiar seria impossível?
Impossível. A família é o grande suporte.
Porque decidiu recandidatar-se à presidência da União de Santarém?
Porque acredito que o trabalho iniciado deve continuar. Estamos a construir algo sólido e sustentável.
Qual é a mensagem final aos adeptos?
Que nos apoiem, que encham o Chã das Padeiras, que acompanhem a formação, que acreditem. O clube não é apenas uma equipa sénior. É um projecto para Santarém e para o Ribatejo. Sozinhos não conseguimos. Juntos, podemos chegar muito mais longe.

União de Santarém: um projecto com contas certas e olhos na Liga 2

Fundada em 1968, a União Desportiva de Santarém atravessa um dos períodos mais estruturados da sua história recente. O clube consolidou a presença na Liga 3 pelo terceiro ano consecutivo, garantindo estabilidade competitiva num contexto exigente e altamente profissionalizado. Esse crescimento tem sido acompanhado por um reforço significativo da base social: de cerca de 450 sócios há três anos, passou para aproximadamente 1.200, num processo de rejuvenescimento e diversificação que trouxe mais mulheres e mais jovens para a vida associativa. No plano financeiro, a União apresenta uma realidade pouco comum no futebol português: desde 2017 não regista dívidas à Autoridade Tributária, à Segurança Social, a jogadores, treinadores ou fornecedores. Com um orçamento anual situado entre os 500 e os 600 mil euros, um dos mais baixos da Liga 3, o clube sustenta a sua actividade através de patrocínios, investidores e apoios institucionais, mantendo uma gestão prudente e equilibrada.
A formação é outro dos pilares estratégicos. O número de atletas ultrapassa já os 350, entre futebol masculino e feminino. A profissionalização da estrutura técnica e a aposta na transição para o futebol sénior, incluindo a criação de uma equipa B, reflectem uma visão de longo prazo que procura reduzir o fosso entre os campeonatos distritais e as competições nacionais.
No plano das infraestruturas, o clube utiliza equipamentos municipais, nomeadamente o Campo Chã das Padeiras, e aguarda a requalificação da Ribeira de Santarém. Paralelamente, assegurou um direito de superfície de 50 anos para desenvolver um projecto de residências junto ao estádio.
À frente deste processo está Pedro Patrício, presidente da direcção e da SAD. Natural de Santarém, tem sido destacado publicamente pelo perfil de gestor e pela proximidade à equipa. Com carreira na área da gestão hospitalar na Luz Saúde, ligada ao Hospital da Luz Ribatejo e à clínica de Vila Franca de Xira, assume a liderança do clube como um compromisso com a cidade e a região. Defensor da estabilidade técnica, da disciplina financeira e da formação como eixo central do projecto, tem reiterado a ambição de colocar a União nas ligas profissionais nos próximos anos. Mais do que um ciclo de resultados, a União de Santarém vive hoje um ciclo de consolidação, assente em contas equilibradas, aumento da massa associativa, aposta na juventude e ambição competitiva sustentada.

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