José Pacheco Pereira: “Se o Diabo publicar panfletos, nós vamos ao inferno buscá-los”
José Pacheco Pereira é professor, historiador, político, cronista, comentador e é também reconhecido pela sua inquebrantável e activa defesa dos valores da liberdade, da democracia, da língua portuguesa e da nossa memória colectiva. Tem como uma das suas principais realizações a Ephemera, o maior arquivo privado português e provavelmente da Europa, com sede na Vila da Marmeleira, concelho de Rio Maior, exemplo de uma dedicação absoluta à recolha e preservação documental. Descendente de uma família mais antiga que a nacionalidade, diz que ninguém consegue escrever a sua biografia.
Como é que a Vila da Marmeleira entrou na sua vida?
Por mero acaso. Sempre tive um problema de espaço, como devem imaginar. Vivia no Porto, depois passei a viver entre o Porto e Lisboa, mas as coisas já não cabiam em lado nenhum. Por isso andei à procura de uma casa para pôr os livros, os arquivos, os papéis. A casa da Marmeleira foi a primeira que encontrei com boas condições. Era uma casa que mantinha a traça original do século XVIII. Não é uma casa nobre nem nada que se pareça, é uma casa comum, de lavoura, com alterações. Depois comprei mais coisas à volta, comprei a antiga escola em hasta pública – custou-me caro –, mas gasto dinheiro com a Ephemera com imenso gosto.
Que relação mantém com a localidade e com a população?
Tenho uma boa relação. A sede do arquivo é na Marmeleira. Mas as terras pequenas por vezes são complicadas. Há sempre dois grupos, um contra o outro. No entanto, tenho muito boas relações com as pessoas de lá. Ainda recentemente o arquivo contribuiu para se fazer uma exposição sobre a história da própria vila, com fotografias antigas, organizámos visitas guiadas a exposições. As pessoas queixam-se que não apareço muito, mas tenho muito pouco tempo para lá ir. E quando lá vou tenho muito trabalho para fazer.
A preservação da memória é, para si, uma questão essencial nos tempos que vivemos?
Sim. No Barreiro há uma grande arte de rua com a frase do George Orwell que diz: quem controla o passado, controla o presente; e quem controla o presente, controla o futuro. O papel político, no bom sentido, da memória é muito relevante. É a falta de memória que leva as pessoas a dizer coisas impossíveis.
Com tanto material espalhado pelo país fora, consegue ter a noção do que tem em cada sítio?
Consigo. Aliás, ganho muitas apostas quando as pessoas vão à Marmeleira e perguntam se sei onde estão as coisas todas. Já devo ter comprado à volta de 100 mil livros.
E desses 100 mil livros tem uma ideia de quantos já leu?
Escrevi um artigo sobre isso, sobre quantos livros as pessoas podem ler numa vida. Um grande leitor não lê mais de quatro mil livros na sua vida. Eu leio muito. Tenho uma lista dos livros que li. A casa dos meus pais era, em grande parte, a biblioteca da família. Esse fundo antigo, à volta de 25 mil livros, tem imensas preciosidades.
Tem noção da fortuna que já gastou a comprar livros, espólios e outras coisas?
Quase todo o meu dinheiro (risos). Compro muito em leilões, nomeadamente originais, manuscritos, fotografias antigas, espólios, e não só em Portugal. Por exemplo, nessa exposição sobre Sá Carneiro, que está na Mitra e que é do melhor que já fizemos, há uma parte sobre uma matéria que ninguém sabia que tinha existido, que era o serviço secreto do PPD em 1975. Teoricamente, o responsável por esse serviço tinha queimado tudo. Mas não. Sobrou uma parte, não muito grande, e eu comprei-a ao particular que tinha aquilo.
E sobra-lhe dinheiro e tempo para outras coisas na vida?
Sobra pouco, mas tenho pouca vida social. Penso que tenho os prazeres da vida que quase toda a gente tem, e sobre os quais não falo, mas, acima de tudo, nesta missão da Ephemera não há monotonia, estamos sempre a aprender. Nos arquivos dos cozinheiros sabemos coisas sobre a vida dos portugueses comuns que ninguém sabe. Outro exemplo: como era um rapaz solteiro viver numa pensão nos anos 30? Como é que sabemos isso? Através da correspondência amorosa entre um empregado de escritório e uma costureira que estava destinada a ir para o lixo.
Têm feito um esforço por partilhar o trabalho da Ephemera e toda essa informação acumulada?
Só no ano de 2024 falei 150 vezes. Significa que quando acordava não sabia onde estava. Fazemos muita coisa, exposições, publicações, mas a nossa principal prioridade é salvar. O que está cá dentro está melhor do que lá fora. Fazemos imensa pedagogia da memória e chega-nos muito material atirado para o lixo. Se o Diabo publica panfletos, a gente vai ao inferno buscá-los.
É um combatente contra a cultura da boçalidade. Onde é que essa cultura é mais evidente, na grande cidade ou numa vila ou aldeia?
Hoje é na grande cidade. Há uma nova forma de ignorância. Nos livros do Camilo apareciam reflexões sobre porque era importante aprender e porque é que era perigoso aprender. Num livro, por exemplo, Camilo conta a história de um lavrador que não quer colocar os filhos na escola, porque acha que eles depois vão deixar de cuidar das terras. A ideia de que saber era relevante era muito forte mesmo em quem não sabia. Hoje não, como se pode constatar nas redes sociais. Hoje há uma forma de ignorância arrogante, que é muito má para a democracia. A facilidade da manipulação é hoje muito maior.
Qual é a sua relação com a Inteligência Artificial (IA)?
Uso tudo! Comecei na Internet ainda antes do www. Criei um blogue que foi dos primeiros e que teve um enorme impacto. Escrevi o primeiro artigo em Portugal sobre o ChatGPT, por mero acaso, porque estive num jantar onde estava um homem que me falou daquilo e mandou-me dados. Acompanho isso com atenção e, como todas as coisas, a IA é boa ou má conforme quem manda nela. Na Ephemera estamos a usar a IA no reconhecimento de texto manuscrito, o que nos poupa imenso tempo.
Como encara o futuro do jornalismo?
Leio no online e no papel. Mas nós somos analógicos e folhear o papel não é a mesma coisa que ler no ecrã. O jornal em papel tem que ser diferente do jornal online. A rapidez do online é relevante, com a necessária verificação. Os factos têm que conhecer uma edição.
Acha que as pessoas ainda ligam muito a essas questões, quando acreditam em coisas completamente estúpidas que são publicadas nas redes sociais?
Aí é um problema que está fora do jornalismo, é a escola. A escola hoje é completamente desadaptada e não é com tutores de IA que se dá a volta. É ensinando a ler bem, a escrever bem, a perceber que uma câmara televisiva mostra uma determinada realidade. Costumava dizer na brincadeira, quando estava no Parlamento e estas coisas já existiam, que se eu tropeçasse à entrada e as câmaras estivessem ligadas passava de certeza nas notícias. Enquanto um raciocínio lógico não passa porque tem que ter pelo menos três frases. Mas uma frase assassina já passa.
Continua a ser um espírito livre e sem amarras. Foi por isso que deixou de ter cargos na política?
Deixei de ter cargos electivos, mas faço imensa política, transmito a minha opinião, falo…
Sentia-se bem em voltar ao Parlamento Europeu?
Não, porque aquilo está muito degradado na composição. E agora, com a entrada do Chega, ainda mais ficou. Pegamos naquilo e não se vê praticamente um grande discurso, nem há figuras. As pessoas fazem carreira dentro do partido, nem profissão verdadeiramente têm ou tiveram. A sua principal preocupação é manterem os lugares através do controlo que têm dentro do partido.
Que ideia tem da imprensa regional?
Quando era professor do secundário, comecei a escrever de novo, depois de um interregno, no jornal A Defesa de Espinho, no Notícias de Paços de Brandão, e tenho muito gosto que tenha sido assim. Há muito pouca atenção sobre a imprensa regional, que tem casos que são nacionais. O MIRANTE é um bom exemplo, tal como a Gazeta das Caldas e outros. Publicam casos relevantes a nível nacional. Portugal é uma sociedade muito estratificada e os que pensam que estão em cima fazem gala de dar cabo dos que estão em baixo.
Não deixa de ser curiosa essa observação vinda de quem é oriundo de uma família aristocrática.
Ainda recentemente publiquei um artigo sobre o antepassado que matou Inês de Castro, o Diogo Lopes Pacheco. Foi o único que escapou, ainda por cima. É um personagem muito interessante. Conheço os meus avós todos até antes da nacionalidade. Poucas famílias têm essas características. Sou da família que tem mais gente nos Lusíadas depois da família real. Vivi sempre sob essa sombra. Um quadro que representa o Duarte Pacheco Pereira está em minha casa.
Tem convivido bem com o passar dos anos?
Magnificamente. Sou um trabalhador das oito da manhã até às quatro, mas durmo a sesta (risos)...
Escreveu uma biografia não autorizada de Álvaro Cunhal. Quem gostava que escrevesse a sua?
Ninguém consegue escrever a minha biografia. Verdadeiramente, não sabem o que eu fiz. Se não fosse autorizada não poderia evitar, mas duvido que fosse rigorosa do ponto de vista histórico. Eu não tenho biografia. Eu fiz a do Cunhal com muitos obstáculos, muitos boicotes e muitas histórias. Ainda me falta fazer o último volume, que tem trezentas páginas escritas, mas não tenho tido tempo para o acabar. O meu principal problema é a falta de tempo.
O espírito livre que é o guardião do maior arquivo
José Álvaro Machado Pacheco Pereira nasceu em 6 de Janeiro de 1949, no Porto, no seio de uma das mais antigas famílias. O seu avô paterno, que no dia de anos do neto contava-lhe histórias da família, costumava dizer que podia usar título nobiliárquico, mas nenhum Pacheco o fazia porque a família é anterior à existência de títulos. A história familiar está cheia de muitas curiosidades, como a do bisavô, fiador da Sociedade Palácio de Cristal, que faliu, e dono de muitas terras como a Quinta da Pacheca, que deu cabo de parte da fortuna em pouco tempo. Ou a de ter como antepassado Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de D. Inês de Castro. Iniciou a sua actividade política na juventude como militante da extrema-esquerda na oposição ao Estado Novo, tendo vivido na clandestinidade.
Na década de 80 do século XX cimentou a sua aproximação ao Partido Social Democrata, pelo qual foi deputado à Assembleia da República e deputado e vice-presidente do Parlamento Europeu. Diz que não voltaria ao parlamento porque este está degradado, sendo um espaço onde não há grandes discursos, nem grandes figuras, e onde estão pessoas sem profissão que têm como principal preocupação manterem os lugares através do controlo que têm dentro dos partidos.
Historiador, professor, comentador e antigo dirigente partidário, é uma referência no debate público nacional. Deixou de ter cargos políticos, mas diz que não deixou de fazer política. Formado em Filosofia pela Universidade do Porto, é dono de um espírito crítico, que recusa alinhamentos automáticos, mesmo dentro do partido onde sempre foi uma voz independente. Lecionou em várias instituições de ensino. Quando saiu da clandestinidade entrou para o grau mais baixo como professor provisório e foi colocado em Boticas.
A criação do Arquivo Ephemera reforçou a sua imagem de guardião da memória colectiva, reunindo milhares de documentos, objectos e registos históricos. Figura polémica para uns e admirada por outros, José Pacheco Pereira é reconhecido como um dos mais relevantes intelectuais portugueses contemporâneos, activista da defesa da liberdade, da democracia, da língua portuguesa e da cultura. Considerando que o seu maior problema é a falta de tempo, conhece como poucos a sociedade portuguesa e diz que se vivem tempos das aparências, ilusões e manipulações.
Foi um dos principais signatários do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico de 1990. Foi agraciado por dois presidentes da República. Por Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e por Marcelo Rebelo de Sousa com Grã-Cruz da Ordem de Camões. É autor de uma vasta bibliografia onde se contamx uma biografia de Álvaro Cunhal os livros «Diário dos dias da peste», «A vida contada nos papéis da memória», «Inteligência Artificial e Cultura» e «Personalia”, entre muitos outros, alguns deles esgotados no mercado.


