O país precisa de fazer um grande debate sobre qual é o melhor modelo de organização
Pedro Duarte, bairrista, político com uma carreira profissional, considera que está na cadeira de sonho ao ser presidente da Câmara do Porto. Foi deputado quando estava a acabar o curso quase obrigado por ser presidente da JSD e teve uma passagem rápida pelo Governo, no primeiro mandato de Luís Montenegro, como ministro dos Assuntos Parlamentares, assumindo a responsabilidade das pastas do Desporto e da Comunicação Social. O que o move como autarca é o sentimento de realização de contribuir para melhorar a vida dos outros.
Nas recentes tempestades verificou-se a falta de uma estrutura regional de coordenação, que estava antigamente nos governos civis. Foi um erro acabar com esses organismos?
Não quero ser peremptório a dizer que foi um erro acabar com os governos civis. Mas parece-me claro que a experiência nos mostra que falta o nível intermédio de decisão, no modelo de desenvolvimento e de organização do país. No caso da protecção civil, talvez se note ainda mais. Há um nível local que responde de forma rápida, com grande proximidade, mas depois quando é necessária alguma coordenação entre os municípios temos de ir imediatamente para um nível central, muito distante da realidade. Para efeitos de reconstrução, o Governo decidiu criar uma estrutura de missão, precisamente para poder organizar e coordenar a nível mais regional.
Defende uma estrutura intermédia de administração do Estado. É um modelo diferente da regionalização?
O país precisa de fazer um grande debate sobre qual é o melhor modelo de organização. Não devemos partir já com ideias fechadas e tenho evitado dizer que defendo a regionalização, porque tenho obrigação também de estar de mente aberta neste processo. Posso ser convencido nessa reflexão de que há outros modelos melhores.
O modelo das comissões de coordenação e desenvolvimento regional, que tem assumido algumas áreas intermédias de gestão, não serve?
Não tem legitimidade política, nem autoridade política para coordenar aquilo que é a realidade das autarquias locais. O país não está preparado para amanhã tomar a decisão de instituir uma estrutura de gestão.
Esteve no Governo, não conseguiu convencer ninguém para avançar com esse debate?
É verdade que não consegui. Estive num Governo em circunstâncias muito excepcionais, altamente minoritário e com outro tipo de emergências. Mas esta não deve ser uma matéria de um Governo, tem de ser um tema nacional acima da vontade dos políticos que está em funções no governo.
Com o crescente escrutínio exacerbado, com as informações falsas que circulam e com a crítica desmesurada ainda dá gosto ser político neste país?
Do ponto de vista racional, não! Mas nós somos movidos por uma vontade de realizarmos, de concretizarmos iniciativas que achamos que têm um efeito impacto na vida das pessoas. Esse espírito de missão às vezes compensa aquilo que são as agruras das funções públicas, mesmo que isso traga prejuízos pessoais, familiares, materiais. O sentimento de realização de estarmos a contribuir para melhorar a vida dos outros, às vezes suplanta, tudo o resto.
O que é que o levou a candidatar-se à Câmara do Porto, podendo estar numa função provavelmente menos exigente em termos de disponibilidade e proximidade?
Ninguém me empurrou, até porque não teriam grande sucesso se o tentassem fazer. O que se verificou foi a conjugação de dois factores: a vontade de contribuir para o bem comum e poder ter um impacto positivo nas pessoas que me são próximas e, por outro lado, o gosto que tenho pela minha cidade. Sou muito bairrista e contribuir para a minha cidade ser melhor e para as pessoas viverem melhor é um factor altamente motivacional.
Começou muito cedo na JSD por influência familiar ou por acaso?
Há algumas razões que são um bocadinho inexplicáveis, porque eu não tenho ninguém na minha família que alguma vez tenha estado próximo da política. O meu pai foi militante, mas nunca teve nenhum cargo, nenhuma função, nenhuma actividade. Era um grande admirador de Sá Carneiro e inscreveu-se uma vez no PSD e acho que deve ter entrado na sede do partido uma ou duas vezes. Aliás, ele sempre me preveniu para os dissabores da vida política. Mas terá sido por ter pertencido a uma associação de estudantes no secundário e começar a perceber que de facto podia fazer-se alguma coisa diferente, entre reivindicações relacionadas com o tempo dos intervalos ou requerermos à junta de freguesia uma passadeira em frente à escola.
Quanto é que vale o cartão do partido na sua carreira?
Tenho tentação para dizer que são valores negativos. Mas desde muito jovem nunca quis ser político. Gostava de fazer política, mas sempre assumi que não queria ter uma vida na política. Fui para o Parlamento, ainda estava a acabar o curso, porque era presidente da JSD, e havia a premissa de o presidente da estrutura estar na Assembleia da República para defender as causas da juventude. Depois fui ficando porque em todos os momentos insistiram para continuar. Nunca fiz força para ser candidato a deputado. Houve um momento em que disse que queria sair porque me estava a tornar um político profissional e comuniquei ao líder do partido que não queria continuar como deputado. Fui trabalhar para o privado e fiz a carreira fora da política e só recentemente integrei o primeiro Governo de Luís Montenegro, porque achei que ele merecia que eu o apoiasse. Agora sou autarca.
Quem é a sua figura, a sua inspiração dentro do partido?
Tenho uma referência que é o Sá Carneiro pelo que me dizia o meu pai. Não tenho propriamente uma figura, nunca tive. Aprendo muito com muita gente e bebo de muitos exemplos e, se calhar, aprendi mais com aqueles que vi fazerem asneiras, coisas erradas.
Entre deputado, governante e agora autarca onde é que fica a sua experiência profissional?
A minha experiência profissional tem-me ajudado muito, porque alarga horizontes, abre perspectivas diferentes. Nesta altura beneficio muito de ter sido deputado, beneficio mais ainda de ter sido governante porque conheço o que é estar do lado de lá quando tenho que interagir com o poder central, e beneficio muito daquilo que foi o privilégio que tive de trabalhar em muitos locais. Mas particularmente de ter estado na Microsoft por ter práticas de gestão das mais avançadas.
O que é que Lisboa tem a aprender com o norte?
Nunca vivi exactamente em Lisboa, porque nunca deixei de vir ao fim-de-semana para o Porto. Temos sempre uma relação com a nossa terra, com a nossa casa e não somos neutrais quando comparamos com outras cidades. Mas o Porto tem a vantagem de ser uma grande cidade que em certo sentido ainda funciona com um espírito muito de aldeia. No Porto temos a sensação que nos conhecemos todos uns aos outros e isso perdeu-se em Lisboa. O Porto tem um lado mais emocional, mais caloroso nas relações humanas.
O que é que até hoje lhe deu mais dores de cabeça na política?
Talvez determinado tipo de ataques pessoais e ofensivos que são feitos a alguns amigos e companheiros das lutas políticas, que vi passarem por circunstâncias complicadas com danos pessoais e familiares inadmissíveis.
Ser presidente de câmara da câmara do Porto é o caminho para ser primeiro-ministro?
Disse antes da campanha eleitoral que esta é a minha cadeira de sonho e realizo-me nesta função de autarca. Não tenho mais nenhuma ambição que não seja esta. Podem pensar que isto é o politicamente correcto, o que todos diriam, mas se olharem bem para o meu percurso percebem que se eu tivesse uma missão dessa natureza se calhar não tinha saído do Governo para vir para o Porto.
Quando esteve no Governo teve a pasta da comunicação social e começou a tentar valorizar o sector, mas o processo ficou pendente.
O que posso dizer é que nestes governos de Luís Montenegro o que se fez foi incomensuravelmente mais do que os governos anteriores fizeram durante muito mais tempo. A comunicação social tem de ter uma atenção específica porque é um sector nevrálgico para a nossa democracia. Fizemos um plano de acção objectivo para todo o sector, não tenho dúvidas que o ministro Leitão Amaro tem mais capacidade do que eu para executá-lo, como a reestruturação da RTP e da agência Lusa. Se não queríamos matar a comunicação social local e regional, tínhamos de assumir que há um serviço público desempenhado por estes órgãos. O Estado tem a obrigação de apoiar, não de condicionar.
O que é que mais o surpreendeu desde que ganhou a câmara?
Tenho tido surpresas essencialmente positivas, como a capacidade e a equipa que a câmara tem que me permite ter impacto directo na vida das pessoas. Do lado negativo, o que mais me surpreendeu é de facto a dificuldade burocrática, o tempo que se demora nos processos com o Estado. Queremos fazer as coisas, as pessoas pedem que façamos as coisas, mas estamos dependentes de vários organismos.
O Porto não merecia já ter ministérios deslocados de Lisboa?
Preferia que dentro de uma lógica de pensarmos no modelo de organização do país, também pensássemos a localização dos ministérios. Porque se for só a localização, isso não resolve o problema de fundo. Já experimentámos com vários organismos, já houve essa experiência com secretarias de Estado, mas na prática tudo funcionava na mesma em Lisboa. Areia para os olhos eu dispenso.
O poder económico em Portugal tem mais poder que o poder político?
Não sinto isso, mas isso não quer dizer que não perceba que há ameaças. Que há riscos. O que posso garantir é que na Câmara do Porto não acontece e não acontecerá. Estamos num Estado de direito e o poder económico tem que seguir as regras que são estabelecidas pelo poder político. Não é o contrário. Isso para mim é claro.
Quando diz em uníssono com o presidente de Gaia para terem cuidado com o Porto, quer dizer que esta região vai competir em termos de liderança e importância institucional?
Uma competição saudável é boa. Beneficia ambos os lados. Não alinho de uma lógica de o Porto ganhar contra Lisboa, mas se o Porto for mais forte Lisboa também ganhará com isso. É importante haver outras vozes, outros tipos de lideranças. Ter lideranças no norte é bom para todo o território. O país não pode ser Lisboa e o resto paisagem. Esse não é o melhor modelo de desenvolvimento.
Pedro Duarte: um pragmático que não tem na carreira política um objectivo de vida
Pedro Duarte é uma das figuras mais marcantes da nova geração de autarcas portugueses, mas o seu percurso político tem sido tudo menos linear. Licenciado em Economia e com uma carreira sólida no sector empresarial, regressou à vida pública depois de anos afastado, num momento que ele próprio descreve como uma decisão profundamente pessoal. Diz mesmo que a decisão mais solitária que tomou foi aceitar ser ministro do Governo de Luís Montenegro, até porque durante a conversa não telefonou a ninguém para pedir opinião. Conta que entrou na reunião com o também líder do PSD decidido a recusar qualquer convite e saiu de lá ministro. O caminho ficou aberto para novos desafios e acabou por ser determinante para a sua candidatura à Câmara do Porto, considerando que está na cadeira de sonho.
No município, Pedro Duarte, nascido no Porto a 12 de Julho de 1973, encontrou um exercício político muito diferente daquele que conheceu no Governo. A proximidade com os cidadãos é, para si, a marca essencial da função: “Hoje em dia, se for tomar um café ali em frente ou for almoçar ao restaurante aqui mais próximo, sou confrontado com os problemas e com a realidade naquele momento”, realça. Essa relação directa com a cidade tem-lhe alimentado o entusiasmo — confessa que muitas ideias lhe tiram o sono, mas “pelas boas razões”.
Defensor de uma liderança assente na confiança, descentralizou competências pelos vereadores. Trabalhar em equipa, diz, é condição para governar bem. O seu estilo político combina pragmatismo, capacidade de decisão e uma visão estratégica que procura equilibrar ambição com realismo. Prefere compromissos passo a passo, evitando projectar-se para além do mandato em curso, embora não esconda que o Porto exige continuidade e estabilidade.
Entrou para a política com 14 anos na Juventude Social Democrata, da qual foi líder nacional. Foi por causa da presidência dessa estrutura que teve de aceitar ser deputado porque era importante defender os ideais da JSD no Parlamento. Estava ainda a acabar o curso. A carreira política nunca foi um objectivo e por isso esteve a trabalhar no departamento de Corporate, External & Legal Affairs e a equipa de European Government Affairs Team na Microsoft. A vida familiar é o seu porto seguro.
No exercício autárquico, afirma sentir-se realizado e motivado, encarando o futuro com a mesma determinação que marcou o seu regresso à vida pública. Pedro Duarte é hoje um autarca que procura unir visão, proximidade e sentido de serviço, num momento em que o Porto enfrenta desafios decisivos para a década que se aproxima. É doutorado em Estudos de Desenvolvimento, com Mestrado em Economia Internacional e Estudos Europeus, Licenciatura em Direito e MBA.
Em Março de 2023 tornou-se vice-presidente executivo da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), organização em que também desempenhou, desde 2018, as funções de presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital. Foi membro eleito do Parlamento Português (1999-2011), membro da Assembleia Parlamentar da NATO e Secretário de Estado da Juventude no XVI Governo Constitucional. Foi director nacional da primeira Campanha Presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa (2016).


