Susana Feitor: “O meu partido é o desporto”
Cinco Olimpíadas, várias medalhas, uma atleta e pessoa eternamente insatisfeita. Susana Feitor, antiga marchadora formada no Clube de Natação de Rio Maior, continua a dar a sua energia pelo desporto como presidente da Fundação do Desporto. Aos 51 anos, Susana Feitor não esquece as origens, fala do vazio após o alto rendimento, das marcas que o corpo guarda, da gratidão que hoje sente e de como tenta fazer a diferença na liderança da fundação.
Há 20 anos foi distinguida com o Prémio Personalidade do Ano Desporto. Desde então o que mudou na sua vida?
Nessa altura ainda sonhava pelos melhores resultados nos Jogos Olímpicos, tinha a ambição de terminar a minha carreira com um lugar na história olímpica como medalhada. Por duas edições fui candidata, mas não se verificou e ficou essa pequena frustração de nunca ter conseguido concretizar o potencial que me traçavam. Mas ter sido olímpica cinco vezes é fantástico. Tive depois a oportunidade de ser formadora para o Comité Olímpico Internacional na área da transição de carreira, usando a minha experiência para ajudar outros atletas. Hoje sinto gratidão e vontade de devolver à sociedade, promovendo a actividade física e estilos de vida saudáveis.
A palavra “excelência” é uma meta ou uma exigência permanente?
É uma exigência permanente. Tenho essa ideia de querer sempre fazer melhor hoje do que ontem. Quando ia treinar, mesmo num treino de recuperação, ia pensar em fazer melhor do que na semana passada. Isso constrói-se, mas também vai da personalidade. Recordo--me que quando fui campeã do mundo júnior com 15 anos, aos 16 tinha o campeonato da Europa. Na minha cabeça a matemática era simples: a Europa é mais pequena que o mundo, logo, tenho a obrigação de ser campeã. Fui segunda e foi maior a mágoa do que a felicidade de ter ganho uma medalha. Mais tarde, com maior maturidade, entendi que estava a ser tonta, porque nós temos de fazer o melhor que está ao nosso alcance.
Como é a vida depois do alto rendimento?
Tenho saudades daquele ambiente e do modo de vida muito focado para um objectivo. Quando nos falta esse objectivo sentimos um vazio. Houve uma fase em que esse vazio foi muito evidente e ainda hoje procuro a mesma paixão que vivi durante 30 anos. Sinto uma calma a que não estava muito habituada, porque eu gosto do ritmo e as pessoas ao meu lado às vezes aborrecem--se comigo porque quero sempre andar muito rápido.
Disse um dia que “o pódio vicia”. Como é que isso se trata?
Tento colocar esse sentimento nas conquistas do dia-a-dia. Na Fundação do Desporto, tentamos angariar apoios para projectos desportivos com impacto na comunidade. Quando concretizamos uma nova parceria ou vemos a consequência de um workshop, são coisas pequeninas, mas que têm impacto e entusiasmam o coração das pessoas. Tenho a sensação de pódio quando vejo pessoas com uma vida exigente a organizarem-se para ir treinar. O desporto tem uma capacidade transformadora e, quando a mensagem tem impacto, dá-me satisfação.
O que é que o corpo e a mente cobram depois de tantos anos desta exigência?
A dificuldade foi encarar uma identidade nova com a qual não me estava a identificar. A minha pele sofreu muito porque, no princípio, não me preocupava em usar protector solar e hoje tenho manchas nos braços e até na cara por causa desse descuido. Tenho algumas dores de postura, mas se tivesse tido uma vida à frente do computador talvez fosse pior. Não tenho filhos, que é uma das coisas que me custa imenso. Com a informação de hoje, provavelmente teria congelado os meus óvulos. Tenho noção de que o meu envelhecimento é um pouco consequência da carreira desportiva, que não é bom nem mau, é o que é.
Como se mantém hoje em forma?
Tento manter uma rotina mínima de actividade física porque o meu corpo e a minha cabeça pedem. Duas vezes por semana faço preparação física geral com exercícios colectivos com o Grupo Desportivo das Pedreiras (GDP). Fora isso, tento ir ao ginásio ou correr, que é uma das coisas que tenho prazer. Quando experimento marchar, para ensinar, por exemplo, algumas cicatrizes ainda fazem “campainha” e apitam. Por isso, já não olho para o relógio a ver o ritmo.
Qual foi o papel da família no seu percurso desportivo?
Venho de Alcobertas, de uma família essencialmente emigrante. O meu pai era emigrante em Angola. Nos anos 80 e 90, praticar desporto era uma coisa completamente fora da caixa para uma rapariga num contexto conservador. Imagine-se o que é o meu pai vir de férias e estar tudo normal e nas férias seguintes a filha de 12 anos anda a correr por aí. Senti sempre o apoio deles, os resultados também apareceram cedo. Estavam comigo nas pequenas coisas, para viajar, para me ver competir, ter sempre uma casa onde podia regressar e sentir-me em casa. Isso faz toda a diferença.
Rio Maior continua a ser uma referência nacional no alto rendimento?
Rio Maior e eu crescemos juntos. O complexo desportivo nasceu de um campo de futebol, eu comecei a treinar em terra batida e hoje temos condições perfeitas para competir, treinar e viver. As grandes diferenças hoje estão nas instalações, onde é possível praticar todas as modalidades, e nos recursos humanos com muito mais conhecimento. Há todo um ecossistema com as escolas. As famílias hoje estão mais disponíveis para que os filhos pratiquem desporto, às vezes em mais do que uma modalidade, o que é um exagero. Mas, no outro lado da moeda, corremos o risco de ter agendas e calendários tão ocupados que não conseguem encaixar a actividade desportiva. Hoje existe o programa das Unidades de Apoio ao Alto Rendimento na Escola, o que mostra uma diferença total na forma como se encara o estudo e o treino em simultâneo.
Como é estar num cargo de nomeação como o de presidente da Fundação do Desporto?
Sou licenciada em Gestão de Organizações Desportivas e aceitei o desafio, mas, na verdade, no que respeita à identificação política, o meu partido é o desporto. É um trabalho de equipa. Quero que os projectos tenham impacto real nas pessoas, mas muitas vezes as coisas não andam tão depressa como gostava. A minha competência maior é cativar o interesse, criar ligações e pontes. O desafio é angariar recursos financeiros, que é o mais difícil. As pessoas procuram-nos porque têm projectos muito interessantes em que o desporto é uma ferramenta na área da inclusão e do social, seja a nível de pessoas com deficiência, migrantes ou minorias em geral. Em Portugal tenta--se fazer acontecer, mas raramente se projecta a longo prazo. Isso é frustrante e prejudica a sustentabilidade. A sociedade ainda olha para o desporto como uma actividade secundária, e enquanto for assim, terá sempre dificuldades em se afirmar.
O que faz quando não está a trabalhar?
Gosto muito de ver séries e de ler livros técnicos ligados ao treino, porque não me quero desligar, quero continuar a sentir o cheiro da pista de atletismo. Gosto de jantar fora com amigos sem olhar para o relógio. De viajar. Gosto muito de animais, tenho três gatos, um cão e gosto das galinhas da minha mãe. Sou muito ligada à natureza e à terra. Vivo em Rio Maior, mas não há semana nenhuma em que não vá a Alcobertas, Sourões. É a minha ligação umbilical.
Se pudesse voltar aos Jogos Olímpicos sabendo o que sabe hoje, o que mudava?
Ter-me-ia protegido mais, estando em estágio mais tempo. Em Atenas 2004 fui vigésima e até a sapatilha se desatou logo na partida e perdi 500 metros, o que é incompreensível; hoje teria dado três nós em vez de um. Ficaram por cumprir questões do processo de controlo de treino, avaliação e trabalho de reforço muscular e recuperação mais cedo, coisas que não sabíamos na altura. Mas não choro muito pelo que podia ter feito e não fiz. Aprendi imenso com os dois treinadores com quem estive, o Jorge Miguel e o Stephan Platzer. Sou grata por todo este processo.
Se tivesse de resumir a sua vida numa palavra, qual seria?
Gratidão. Tenho a consciência de que vivendo sozinha, não estou sozinha. Como é que fugimos das coisas más para só vivermos as boas? Essa é a resposta do milhão de dólares. Numa reflexão, frente ao mar a pensar, sinto que tudo isto podia ser tão pior, essa é a minha sensação.
O que diria à Susana Feitor de dez anos?
Quando eu tinha uns 11 anos, na altura das férias escolares, passei as fronteiras de Espanha e França, clandestinamente. O meu tio Manel, que era emigrante em França, perguntou, numa vinda a Portugal, se eu queria ir com ele – porque depois ele regressava de férias - e eu disse que sim. Mas nós nem sabíamos que era preciso uma autorização dos pais. Na fronteira em Vilar Formoso fomos mandados parar e disseram que eu tinha de voltar para trás. O meu tio disse aos outros para seguirem na carrinha e fomos os dois a pé por uns caminhos que ele conhecia. Ele disse-me: “Agarras bem a minha mão, aconteça o que acontecer não largas”. Passámos, e no lusco-fusco, entrámos na carrinha mais à frente e, para não passar pelo mesmo em França, puseram-me debaixo dos bancos, tapada com um cobertor. O que eu diria a essa Susana é: “Não te stresses, vais ter muitas oportunidades. Pensa nelas e agarra-as”. Foi isso que tentei fazer.
A menina de Alcobertas que marchou da terra batida à gestão do alto rendimento
Cresceu em Alcobertas, Rio Maior, numa família emigrante, num tempo em que correr de calções numa aldeia conservadora não era coisa de menina. O pai estava em Angola, a mãe estava em casa e o desporto parecia uma excentricidade. Tornou-se obsessão. Aos 15 anos já era campeã do mundo de juniores. Aos 17 estava nos Jogos Olímpicos. O pódio entrou cedo na vida e nunca mais saiu da cabeça. Viria a participar em cinco edições, tornando-se a atleta portuguesa com mais presenças olímpicas. Conquistou a medalha de prata na Universíada de Pequim, em 2001, e a medalha de bronze no Campeonato do Mundo de Helsínquia, em 2005.
Nos Jogos Olímpicos ficou à porta da medalha. Carregou a frustração como quem carrega uma sacola de treino. Sem dramatismo, mas com algum peso. Durante anos perseguiu um lugar na História Olímpica. Não o alcançou. O vazio que sentiu quando deixou o alto rendimento não a afastou do desporto.
A exigência que a fez treinar em terra batida, contar segundos, medir a passada e insistir quando o corpo pedia descanso é a mesma que hoje leva para a gestão.
Licenciada em Gestão das Organizações Desportivas, foi presidente e vice-presidente da Comissão de Atletas Olímpicos, integrou o Comité Olímpico de Portugal, passou pela direcção da Federação Portuguesa de Atletismo e foi chefe de missão em campeonatos do mundo universitários. Desde 2018 é treinadora de marcha-atlética e integra o Conselho Nacional do Desporto.
Hoje lidera a Fundação do Desporto, entidade que coordena a Rede Nacional de Centros de Alto Rendimento e promove projectos nas áreas da educação, saúde, inclusão e aumento da actividade física. Num cargo de nomeação política, repete uma ideia simples, a de que o seu partido é o desporto.
Hoje troca a adrenalina do pódio pela concretização de projectos. Continua a procurar impacto, ligação, transformação. Continua a querer fazer melhor hoje do que ontem. Só mudou o palco.
Entre a aldeia que a viu crescer e os cinco anéis olímpicos, Susana Feitor construiu uma carreira feita de disciplina e inconformismo. Entre a frustração e a gratidão, escolheu ficar com a segunda.


