Viver melhor não se decreta; constrói-se
O que temos feito em Santarém, o que ainda falta fazer e os desafios a vencer.
Saúde e bem-estar não se esgotam na ausência de doença. Dependem também da forma como as pessoas vivem o seu dia a dia. Se têm rotinas, se mantêm relações, se se sentem parte da comunidade onde vivem. É nesta ligação, muitas vezes invisível, mas determinante, que assenta o trabalho que a Viver Santarém tem procurado fazer no nosso concelho.
Dados recentes do Eurobarómetro revelam que mais de 70% dos portugueses não praticam actividade física de forma formal. É um dado que contextualiza bem o problema, mas que por si só diz pouco. O que nos preocupa, no trabalho concreto, é o que está por trás desse número: pessoas que não praticam, não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade, de proximidade ou de um primeiro ponto de entrada.
É precisamente aí que o papel do município de Santarém, e de uma empresa como a Viver Santarém, ganha sentido. O trabalho que temos desenvolvido ao longo dos últimos anos parte de uma ideia simples: criar oportunidades para que mais pessoas possam ser activas, em diferentes fases da vida. Simples na ideia, exigente na prática.
Esse trabalho começa cedo. Na Escola de Actividades Aquáticas de Santarém, mais de 2.500 alunos têm hoje um contacto regular com a natação, para muitos, foi ali o primeiro mergulho, no sentido mais literal. O projecto Toca a Nadar alargou esse acesso às escolas do primeiro ciclo, chegando a praticamente todas as crianças do concelho.
À medida que a idade avança, o desafio muda, mas não desaparece. O programa Viva Mais, dirigido à população sénior, passou em poucos anos de cerca de 200 para mais de 950 participantes, com presença em todas as freguesias. Quem acompanha estas aulas de perto sabe que o exercício é apenas uma parte do que ali acontece. O que muitos participantes valorizam é a regularidade, o grupo, o facto de terem um motivo para sair de casa. Num tempo em que o isolamento é um problema de saúde pública tanto quanto a inactividade, isso não é pouco. As caminhadas pelas freguesias têm funcionado de forma semelhante: simples, regulares, abertas a todos. Juntam centenas de pessoas que, na maior parte dos casos, não estavam ligadas a qualquer prática desportiva. Caminham, falam, conhecem-se. É, na sua aparente modéstia, uma das iniciativas com impacto mais directo na vida das pessoas.
Importa também falar dos clubes e associações do concelho. São eles que formam atletas, que acompanham jovens ao longo de anos, que fazem o trabalho de base com uma dedicação que merece reconhecimento. A nossa função tem sido complementar esse trabalho, chegar a quem ainda não pratica, criar uma primeira experiência, baixar as barreiras de entrada. Nos mais jovens, esse ponto de entrada importa cada vez mais. A prática desportiva desenvolve disciplina, espírito de equipa e resiliência. Mas hoje há outra dimensão que não podemos ignorar: o equilíbrio emocional. Muitos jovens lidam com níveis de ansiedade e pressão que nos devem preocupar, e o desporto, com as suas rotinas, os seus vínculos, a sua forma de ensinar a lidar com o erro, pode ser um ponto de estabilidade real.
Para que tudo isto seja possível, há uma base que exige atenção constante: as infraestruturas. Piscinas, pavilhões, campos e espaços ao ar livre são o suporte físico de tudo o resto. A sua manutenção, num contexto de utilização intensiva e custos crescentes, é um desafio permanente para a Viver Santarém e para o município.
Temos ainda caminho pela frente. Os níveis de participação cresceram muito, aproximamo--nos, em algumas situações, da capacidade instalada. Isso obriga-nos a ser mais rigorosos na gestão da oferta e a garantir que o crescimento não deixa ninguém de fora, especialmente nas freguesias mais afastadas e nas populações com menos acesso. Este é também um trabalho que só faz sentido em articulação estreita com o município. Sem uma visão comum e sem continuidade, os resultados diluem-se. Se conseguirmos que mais pessoas se mexam, convivam e se sintam melhor, então estaremos no caminho certo.
O objectivo é claro: que mais pessoas em Santarém tenham condições para viver melhor, com saúde, com rotinas, com ligação à comunidade. Não é um objectivo que se alcança de uma vez. Constrói-se no terreno, programa a programa, freguesia a freguesia. E constrói-se com as escolhas de cada um. A Viver Santarém continua, assim, a cumprir a sua missão: despertar Santarém para o desporto, garantindo que o bem-estar não seja um privilégio, mas uma possibilidade real para todos em Santarém.
* Carlos Pinhão Coutinho, presidente do conselho de administração da Viver Santarém, licenciado em Ciências da Educação Física, Saúde e Desporto


