Água: a infraestrutura que não vemos e que nos sustenta
Garantir água de qualidade é uma das formas mais diretas e eficazes de cuidar da saúde das pessoas.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 80% das doenças infecciosas a nível mundial têm origem na água contaminada ou na ausência de saneamento adequado. Não é uma estatística retórica: é o ponto de partida para perceber que a qualidade da água fornecida às populações não é uma questão técnica menor. É saúde pública, é economia e é justiça social.
A hidratação adequada é muitas vezes apresentada como conselho de bem-estar. Mas a ciência vai mais longe: estudos publicados no European Journal of Nutrition mostram que mesmo uma desidratação ligeira, de apenas 1 a 2% do peso corporal, compromete funções cognitivas, aumenta a fadiga e reduz a capacidade de concentração. Em crianças e idosos, os efeitos são ainda mais pronunciados. A água não é um suplemento: é a base bioquímica sobre a qual todo o organismo funciona.
Para além do consumo directo, a dimensão colectiva é igualmente decisiva. A ligação entre saneamento e saúde pública não é nova. Hoje, a ciência avançou, mas o princípio mantém-se: sistemas de abastecimento e saneamento eficientes são o investimento em saúde com maior retorno comprovado, estimado pela OMS em cerca de quatro dólares de benefício económico por cada dólar investido.
É neste enquadramento que a Águas de Santarém opera. E é com esta consciência que medimos o nosso desempenho. Nos últimos anos reduzimos as perdas de água na rede para cerca de 18%, um valor significativamente abaixo da média nacional, que ainda ultrapassa os 30% segundo os dados mais recentes da ERSAR. Esta eficiência não é apenas operacional: cada litro de água não perdido é energia poupada, tratamento químico evitado e pressão retirada sobre aquíferos e captações. É sustentabilidade com expressão concreta.
A transformação digital tem sido outro vector de melhoria. Não porque a tecnologia seja um fim em si mesmo, mas porque a sensorização da rede, a leitura remota de contadores e as plataformas de gestão de ocorrências nos permitem detectar anomalias mais cedo, intervir com mais precisão e responder melhor aos utilizadores. No sector das infraestruturas hídricas, a inovação silenciosa é quase sempre a mais eficaz.
Há, porém, uma dimensão que nenhum sistema automatizado substitui: a literacia hídrica. Em Portugal, o consumo doméstico médio ronda os 140 litros por pessoa por dia, um valor que esconde assimetrias consideráveis entre regiões e hábitos. Cidadãos que entendem de onde vem a água, que custos ambientais e operacionais envolve o seu tratamento, e que implicações tem o desperdício, tendem a consumir de forma mais racional. A sensibilização não é moralismo, é gestão de um recurso escasso que, com as alterações climáticas, será ainda mais pressionado.
Portugal é dos países europeus mais expostos ao risco de escassez hídrica: o IPCC classifica a Península Ibérica como um dos “hotspots” de vulnerabilidade climática, com projecções que apontam para reduções de 20 a 40% na disponibilidade de água até ao final do século. No Ribatejo esta pressão já se faz sentir de forma mensurável. É por isso que a modernização das infraestruturas e o reforço da resiliência dos sistemas de abastecimento não são opções estratégicas mas obrigações de quem governa com horizonte temporal adequado.
Quando a torneira abre e sai água limpa, potável e segura, parece simples. Não é. Por detrás desse gesto quotidiano existe uma cadeia extensa de investimento, controlo analítico, gestão de rede e responsabilidade técnica. É esse trabalho que em Santarém continuamos a fazer com rigor, sem exagero e com a convicção de que garantir água de qualidade é uma das formas mais directas e eficazes de cuidar da saúde das pessoas.
* Ramiro Matos, presidente do conselho de administração da Águas de Santarém


