Especiais | 26-04-2026 16:00

O peso da culpa: como ser pai ou mãe sem carregar o mundo

O peso da culpa: como ser pai ou mãe sem carregar o mundo
ESPECIAL REVISTA SAÚDE E BEM-ESTAR
Raquel Jerónimo

Foque-se na qualidade em vez da quantidade: vinte minutos de atenção plena, significam mais do que três horas de presença física com a cabeça noutro lugar.

Na minha prática clínica, oiço frequentemente um lamento: “sei que devia fazer melhor pelo meu filho, mas não sou capaz”. Como mãe, identifico-me instantaneamente com aquela pessoa. A culpa é uma bagagem que muitos pais e mães carregam. Seja por chegarmos cansados do trabalho e sem disponibilidade para ouvir as crianças, seja por termos tarefas inadiáveis pendentes, ou ainda por cedermos aos ecrãs para conseguirmos algum silêncio.
Parece que não há nada de positivo neste cenário, mas, paradoxalmente, a ciência indica que a culpa é um sinal de que nos importamos e queremos melhorar. O que acontece, muitas vezes, é que este alerta se transforma apenas numa voz punitiva que condiciona a nossa parentalidade. Em vez de actuarmos de acordo com o que acreditamos ser o melhor para o nosso filho, agimos de forma a suavizar a nossa angústia, cedendo nos limites e compensando com presentes.
A solução não passa por eliminar a culpa, mas por identificá-la e geri-la. O pediatra e psicanalista Donald Winnicott introduziu o conceito libertador de “mãe suficientemente boa”, defendendo que as crianças não precisam de pais perfeitos, mas de pais reais. Pais que podem errar, reconhecer, pedir desculpa e reparar a relação.
No mesmo sentido, a psicoterapeuta Philippa Perry procurou, mais recentemente, mostrar que a ruptura, como gritar ou perder a paciência, é inevitável. O segredo é a reparação dessa falha, para a construção de uma relação forte e segura. Não perfeita.
Mas como encontrar esse caminho? Pratique a autocompaixão, falando consigo mesmo com a mesma gentileza com que falaria com um amigo exausto. E foque-se na qualidade em vez da quantidade: vinte minutos de atenção plena, significam mais do que três horas de presença física com a cabeça noutro lugar.
Ser pai ou mãe é uma aprendizagem contínua. A cada dia terá uma nova oportunidade de fazer diferente. Perdoe-se e troque a ilusão da perfeição pela leveza do real.

* Raquel Jerónimo, psicóloga nos hospitais CUF Santarém e CUF Torres Vedras

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