Feira Nacional de Agricultura continua a ser um dos eventos mais importantes do sector em Portugal
A Agro Ribatejo é o expositor mais antigo do certame, com presença ininterrupta desde 1954, o que representa um enorme orgulho, mas também uma grande responsabilidade.
Que importância atribui à Feira Nacional de Agricultura para a promoção do sector agrícola a nível regional e nacional?
A Feira Nacional de Agricultura continua a ser um dos eventos mais importantes do sector em Portugal. É um ponto de encontro privilegiado entre agricultores, empresas, fabricantes, instituições e decisores, permitindo divulgar inovação, promover negócios e reforçar a importância estratégica da agricultura para a economia nacional.
Para as empresas da região, é também uma excelente oportunidade para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido ao longo do ano e para estreitar relações com clientes e parceiros.
No caso da Agro Ribatejo, esta feira tem um significado muito especial. Somos o expositor mais antigo do certame, com presença ininterrupta desde 1954, o que representa um enorme orgulho, mas também uma grande responsabilidade. Por estarmos “a jogar em casa”, sentimos um dever acrescido de bem receber todos aqueles que nos visitam. Procuramos que o nosso espaço seja um ponto de encontro para clientes, amigos e parceiros de Norte a Sul do país, demonstrando não só os equipamentos e soluções que representamos, mas também a proximidade e confiança que construímos ao longo de várias gerações.
Considera que a forma como a feira é organizada responde às necessidades actuais das empresas e dos profissionais do sector?
De uma forma geral, sim. A organização tem procurado acompanhar a evolução do sector, promovendo áreas ligadas à inovação, sustentabilidade e tecnologia. Claro que existe sempre margem para reforçar a componente profissional e empresarial, através de mais demonstrações técnicas e de um contacto ainda mais próximo entre fornecedores, produtores e investidores.
Mas também é importante dizer que uma feira não depende apenas da organização. Cabe aos expositores criar valor acrescentado e aproveitar as excelentes condições que o CNEMA disponibiliza para contribuir para uma feira cada vez melhor. Todos temos responsabilidades nesse processo.
Hoje, quem visita a Feira Nacional de Agricultura encontra uma vertente técnica muito forte, onde pode conhecer as novidades do sector, mas também uma componente lúdica e cultural que faz parte da identidade do evento e da própria evolução do CNEMA.
É verdade que uma feira exclusivamente técnica e profissional poderia realizar-se
em três dias. Mas a Feira Nacional de Agricultura há muito que ultrapassou esse conceito. Hoje é um grande evento agrícola, económico, social e cultural, pensado para decorrer ao longo de nove dias e para aproximar o sector da sociedade. Essa capacidade de unir negócio, tradição, conhecimento e entretenimento é precisamente uma das razões do seu sucesso e longevidade.
Como avalia o contributo da feira para a economia local, nomeadamente no comércio, hotelaria, restauração e serviços?
O impacto é muito significativo. Durante os dias da feira, verifica-se um aumento evidente da actividade económica em Santarém e nos concelhos vizinhos. Hotéis, restaurantes, comércio local e empresas de serviços beneficiam directamente da presença de milhares de visitantes e profissionais que se deslocam à região.
Cabe também aos empresários ligados ao comercio e indústria hoteleira prepararem o terreno para estes dias.
O que é que mais pode contribuir para a visibilidade e valorização das empresas da região de Santarém?
A valorização das empresas passa pela aposta contínua na inovação, na internacionalização e na criação de parcerias estratégicas. É igualmente importante promover o que de melhor se faz na região, reforçando a ligação entre empresas, associações empresariais, autarquias e instituições de ensino.
O Ribatejo tem empresas competitivas, empreendedoras e capazes de competir em qualquer mercado, mas nem sempre conseguimos comunicar essa realidade para fora da região. Por isso, a promoção do território é fundamental para atrair investimento, talento e novas oportunidades de negócio.
Nesse contexto, o município de Santarém tem desempenhado um papel relevante. Tem sabido valorizar a identidade da região e promover as suas potencialidades económicas, agrícolas, empresariais e turísticas. Essa capacidade de afirmação do território beneficia não apenas o concelho, mas todo o tecido empresarial da região.
Penso que o caminho passa por continuar a trabalhar em conjunto. Quando empresas, autarquias, associações e instituições de ensino actuam de forma articulada, a região ganha mais visibilidade, torna-se mais atractiva para investir e cria melhores condições para que as empresas possam crescer e gerar riqueza.
Que desafios considera mais urgentes para o sector agrícola e como é que as pessoas podem contribuir?
Os principais desafios da agricultura são transversais a quase todos os sectores de actividade. A falta de mão-de-obra qualificada, o aumento dos custos de produção, a gestão da água e a adaptação às alterações climáticas.
Existe também uma crescente preocupação com as exigências regulamentares impostas aos produtores europeus, muitas vezes mais rigorosas do que as aplicadas a produtos importados. Isso acaba por aumentar os custos de produção e reduzir a competitividade da agricultura nacional.
O aumento do preço dos combustíveis tem igualmente um impacto significativo nos agricultores e proprietários de maquinaria agrícola e industrial, agravando os custos de operação e dificultando novos investimentos.
A sociedade pode contribuir valorizando mais a agricultura, reconhecendo a sua importância estratégica e privilegiando, sempre que possível, a produção nacional.
A mão‑de‑obra agrícola continua a ser um desafio. Que soluções considera mais eficazes para garantir trabalhadores qualificados e estáveis?
Continua a ser um dos maiores desafios do sector. É fundamental investir mais na formação profissional, valorizar as carreiras ligadas à agricultura e criar condições que permitam atrair e fixar trabalhadores qualificados.
No entanto, temos de reconhecer que a realidade mudou. Hoje, muitas casas agrícolas dependem de mão-de-obra estrangeira para garantir a sua actividade, pelo que é importante criar condições de integração e estabilidade para esses trabalhadores.
Paralelamente, a mecanização, a automação e a inovação tecnológica terão um papel cada vez mais importante. Não substituem totalmente as pessoas, mas ajudam a aumentar a produtividade e a reduzir a dependência de mão-de-obra num sector onde a sua escassez é cada vez mais evidente.
As alterações climáticas já têm impacto no seu negócio? Que medidas considera essenciais para mitigar esses efeitos na agricultura ribatejana?
Sem dúvida. As alterações climáticas já têm impacto directo no nosso negócio e, sobretudo, na actividade dos nossos clientes. Muitas vezes fala-se apenas da seca, mas este ano tivemos o exemplo contrário. As chuvas intensas dos primeiros meses do ano deixaram muitos campos alagados, impedindo a realização de trabalhos agrícolas e industriais durante várias semanas.
Sentimos isso de forma muito clara. Muitos dos nossos clientes viram a sua actividade praticamente paralisada e, em alguns casos, só conseguiram retomar os trabalhos durante o mês de Abril. Esta instabilidade dificulta o planeamento dos trabalhos, atrasa investimentos e aumenta os custos de produção.
Perante esta realidade, é fundamental investir numa gestão mais eficiente da água, melhorar as infraestruturas de drenagem e rega, aumentar a capacidade de armazenamento e apostar em tecnologias que permitam aos agricultores adaptar-se melhor às condições climáticas cada vez mais imprevisíveis.
A água é um recurso crítico. Como vê a gestão hídrica na região e que mudanças considera necessárias para garantir sustentabilidade?
A água será um dos temas mais importantes para a agricultura nas próximas décadas. Felizmente, o Ribatejo dispõe de condições privilegiadas quando comparado com outras regiões do país, mas isso não significa que possamos ignorar os desafios que temos pela frente.
É fundamental continuar a investir na modernização das infraestruturas, reduzir perdas nas redes de distribuição, aumentar a capacidade de armazenamento e promover uma utilização cada vez mais eficiente deste recurso. Tão importante como captar água é saber geri-la de forma inteligente, e penso que é precisamente isso que tem vindo a acontecer na nossa região.
Que papel devem ter as escolas profissionais e o ensino superior na formação de técnicos e gestores agrícolas, bem como de outros sectores, para o Ribatejo?
Devem ter um papel cada vez mais próximo das empresas. A formação deve responder às necessidades reais do mercado, combinando conhecimento técnico com experiência prática e contacto directo com a realidade empresarial.
Na Agro Ribatejo acreditamos muito na formação em contexto de trabalho, mas também acreditamos que ela deve ser encarada com compromisso por ambas as partes. Um estagiário não é apenas mais uma pessoa dentro da empresa. Receber e formar um jovem exige tempo, dedicação e o envolvimento dos colaboradores mais experientes.
Ao longo da nossa história tivemos excelentes exemplos de colaboradores oriundos do ensino técnico e profissional. Recordo o Sr. José Marques, durante décadas contabilista da empresa, e o Sr. Emílio Cardoso, que assumiu muito jovem a chefia do balcão de peças sempre reconhecido como um técnico de excelência.
Estes exemplos demonstram que, quando existe vocação, formação de qualidade e ligação às empresas, é possível criar carreiras sólidas e profissionais de enorme valor para o Ribatejo e para o país.
A logística e as infraestruturas de transporte influenciam o sector. Que melhorias considera prioritárias para apoiar a agricultura regional?
A melhoria das acessibilidades, a manutenção das vias de transporte e o reforço das ligações ferroviárias e logísticas são fundamentais. Uma região produtiva como o Ribatejo precisa de infraestruturas eficientes para escoar a produção e reduzir custos operacionais.


