“Está a perder-se a tradição da figura do campino e isso é triste”
Francisco Honrado, 63 anos, é o campino homenageado este ano na festa do Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira. Um alentejano que encontrou em Santo Estêvão, Benavente, a ligação com o campo que sempre lhe pulsou nas veias. É um crítico da profissão e diz, sem meias palavras, que a este ritmo dentro de pouco tempo terão de ser os estrangeiros a vestir o colete vermelho por falta de aposta na profissão.
Se nada for feito nos próximos anos e as casas agrícolas não começarem a valorizar o saber e a importância de ter campinos no campo a guardar o gado, terão de ser imigrantes a vestir o colete por falta de gente. O aviso é deixado a O MIRANTE por Francisco Honrado, campino homenageado este ano na festa do Colete Encarnado em Vila Franca de Xira. “A maioria dos campinos, hoje, trabalha mais a fazer esperas de toiros nas festas anuais e nas corridas de toiros do que no campo a guardar gado. A maioria tem a farda pendurada e só a veste para as festas. O cavalo está quieto o ano todo e na véspera dos eventos vão buscá-lo, limpam-no e trazem-no para as ruas. Está a perder-se a tradição da figura do campino e isso é triste”, avisa.
A vida mudou e as casas agrícolas também já não são o que eram, lembra Francisco Honrado. “As casas agrícolas preferem ter um tractorista que trate dos toiros, gente que faça de tudo e depois campinos há cada vez menos. Há casas agrícolas que já têm estrangeiros a trabalhar, mas esses andam de mota e tractor. Se não tivermos cuidado, um dia terá de ser a malta de fora a vestir o colete e dar o exemplo”, diz. Para se ser campino é preciso gostar mas a maioria dos campinos, diz, só gosta das festas.
“Muita juventude vem fardada, faz uma prova, uma corrida de campinos ou um desfile, logo a seguir despe a farda e arruma o cavalo. Ficam incógnitos como qualquer outra pessoa, quando o público vem à festa para ver o campino. Temos essa responsabilidade. Eu nunca dispo a farda enquanto aqui ando. Mas muita gente não gosta do que faz, vestem a farda só para se mostrarem e acabou”, critica.
Francisco Honrado é um homem franco e terra a terra com as palavras, apaixonado por essa mesma terra que lhe deu a liberdade e o conforto da relação com os animais. Acredita que a figura do campino não deixará de aparecer nas festas mas que, profissionalmente nos campos, a situação vai mudar. “O gado bravo não dá lucro e o ganadero quanto menos gastos tiver melhor. Um estrangeiro ganha metade e governa-se com metade e ainda aceita tarefas a mais. Muitos ganaderos já não querem saber do nome da casa, do orgulho do nome dos seus avós. Hoje, os netos dos ganaderos querem saber é da economia”, lamenta.
Da Amareleja para Benavente
Francisco Honrado foi escolhido pelos seus pares para ser o campino homenageado no Colete Encarnado deste ano em VFX. Nasceu na Amareleja e cresceu no Alentejo. O pai era maioral de vacas e aos 12 anos começou a ajudar o pai no campo. Aos 17 já era maioral de vacas. Passou depois para a zona de Montemor, onde se tornou campino na casa António José Teixeira aos 26 anos. Ainda passou pela ganadaria Pinto Barreiros e pela ganadaria Vinhas. Chegou a ter 700 cabeças de gado à sua responsabilidade, mas agora, em Santo Estêvão, é responsável por 200 vacas mansas que, garante, conhece uma por uma. “Faço parte da tribo que ainda anda a cavalo pelo campo. Isso de usar motos ou tractor passa-me ao lado. Ando sempre a cavalo. Ainda hoje cavalguei três horas. Não uso o cavalo só para a festa como muitos fazem”, conta.
A O MIRANTE brinca dizendo que tem no corpo queimado pelo sol “mais horas a cavalo do que a pé”. É casado, tem dois filhos e quatro netos. O filho também foi campino e tornou-se maioral de vacas e bandarilheiro. “Muita gente pode ter uma vida melhor mas apenas no fim do mês, no resto do tempo as pessoas andam aborrecidas, enquanto nós fazemos o que gostamos, que é andar no campo com os animais. Se me dessem um trabalho num escritório ou dentro de um tractor não queria. O gado nunca é igual e os animais ensinam-nos muita humanidade, que é o que esta nova geração precisa de aprender”, defende.
Para o campino homenageado este ano em VFX, a cidade ribatejana é especial por ter uma grande ligação à sua vida. “Venho a VFX há mais de trinta anos. Tenho muito orgulho na minha farda”, conclui, confirmando que quase todos os anos em VFX vários estrangeiros lhe pedem para tirar fotografias consigo. “Faço-o sempre com gosto”, conclui.
Um pampilho com nome especial
Francisco Honrado vai receber na homenagem ao campino, o momento alto da festa do Colete Encarnado, o pampilho de honra com nome atribuído a título póstumo a Joaquim Carlos dos Santos, campino de Samora Correia e maioral da Ganadaria Palha, falecido aos 72 anos em Março de 2025. “Conhecia-o muito bem, tinha uma grande amizade com ele, vai ser um privilégio. Passámos muitas horas juntos em corridas”, confessou, emocionado, Francisco Honrado. A homenagem ao campino, ponto alto do Colete Encarnado, está agendada para sábado, 4 de Julho, às 16h00, no largo do município.


