Especiais | 13-07-2026 10:00

Cursos profissionais: harmonizar a rede sem desperdiçar o que já foi construído

Cursos profissionais: harmonizar a rede sem desperdiçar o que já foi construído
ESPECIAL ENSINO
Salomé Rafael - foto arquivo O MIRANTE

A Escola Profissional do Vale do Tejo defende que a nova organização da rede de cursos profissionais deve valorizar o investimento já feito pelas escolas da região, alertando que a falta de articulação pode dispersar alunos, duplicar ofertas e comprometer a rentabilização de Centros Tecnológicos Especializados como o CTE Digital da EPVT.

Enquanto presidente do Conselho de Administração da Escola Profissional do Vale do Tejo (EPVT), tenho acompanhado de perto o investimento realizado, nos últimos anos, por escolas profissionais da região, como a nossa, ou como a Escola Profissional de Salvaterra de Magos (EPSM), na criação de Centros Tecnológicos Especializados, com apoio de fundos comunitários, em áreas estratégicas para o território.
A EPVT tem hoje o único CTE Digital da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, com investimento superior a um milhão de euros — laboratórios e recursos tecnológicos de ponta, essenciais à nossa oferta de Técnico/a de Multimédia, Comunicação e Serviço Digital, Vendas e Comércio.
Este foi um processo moroso e burocrático, que implicou muito mais do que a aquisição de equipamento. Significou dar formação aos nossos docentes e formadores, consolidar parcerias com o tecido empresarial e um investimento de tempo que não se mede em anos letivos, mas na confiança conquistada junto das famílias e das entidades empregadoras. Este trabalho só produz resultados plenos quando sustentado, o que coloca à nossa escola, como a outras da região, um desafio adicional: justificar o retorno de um investimento pensado a médio e longo prazo, o que exige procura, alunos e turmas com dimensão suficiente para o rentabilizar.
É neste contexto que este ano letivo assistiu a uma alteração relevante na organização da rede de cursos profissionais: a decisão sobre a oferta formativa passou a estar, de forma mais direta, nas mãos das Comunidades Intermunicipais e das CCDR. Trata-se de uma mudança de paradigma face ao modelo anterior, e é natural que traga um período de adaptação. A aproximação da decisão ao território tem méritos evidentes: quem conhece de perto a realidade local está em melhor posição para orientar a oferta das escolas.
Importa que este novo modelo evolua acompanhando o esforço de quem já investiu. Quando a autorização de cursos não tem em conta escolas com CTE consolidados, como o nosso CTE Digital, e os resultados já alcançados, corre-se o risco de dispersar a procura por escolas de um mesmo território, com ofertas semelhantes a competir entre si. O investimento comunitário, nesses casos, não é plenamente rentabilizado, e o esforço de quem apostou cedo numa área de especialização pode não encontrar, na rede, o devido reconhecimento.
A própria regulamentação em vigor já contempla, entre os critérios de definição das redes, a especialização tecnológica e o historial de desempenho das escolas. Uma maior harmonização da rede, atenta a estes fatores, beneficiaria toda a região: evitaria sobreposições desnecessárias, valorizaria o investimento já realizado e reforçaria a coerência entre a oferta e as vocações de cada território. A Comunidade Intermunicipal da Lezíria e Vale do Tejo e a CCDR têm hoje um papel decisivo nesta matéria, e a EPVT reconhece o valor de uma articulação mais próxima com os municípios. Esperamos que este primeiro ciclo do novo modelo sirva de aprendizagem conjunta, para que a rede continue a crescer em coerência, aproveitando o que já foi construído nestes últimos anos.

Salomé Rafael
Presidente do Conselho de Administração da EPVT, da EPC e da EPHTL

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