Especiais | 27-08-2026 18:00

Nasceu uma Universidade no Ribatejo

Nasceu uma Universidade no Ribatejo
ESPECIAL FRIMOR - OPINIÃO
João Moutão - foto DR

A mudança agora operada reflete um caminho que tem sido trilhado e representa uma nova era de afirmação do ensino superior no Ribatejo.

É a primeira vez que me dirijo aos leitores de O MIRANTE na qualidade de Reitor da Universidade Politécnica de Santarém. Desde 1 de agosto, a instituição a que tantos continuam a chamar «o Politécnico» tem novo estatuto e novo nome — e é natural que levem o seu tempo a tornar-se familiares. A mudança agora operada, porém, vai muito além do nome: reflete um caminho que tem sido trilhado e representa uma nova era de afirmação do ensino superior no Ribatejo.
Tenho dito, dentro e fora de portas, que esta transformação não nos foi oferecida — foi construída. Hoje faz-se aqui mais e melhor ciência: os nossos docentes e investigadores integram unidades de investigação acreditadas da própria universidade e trabalham sobre problemas reais da região e do país, muitas vezes com estudantes de licenciatura nas equipas. Renovámos a oferta formativa com cursos em áreas emergentes — a Fisioterapia, aberta este ano, entrou com a nota mais alta da instituição neste concurso — e preparamos os primeiros doutoramentos. E, a partir de Santarém, ajudamos a construir o futuro do ensino superior europeu através da ACE²-EU, a Universidade Europeia que coordenamos e que reúne instituições de nove países.
Nada disto se fez de costas para o território — fez-se com ele. Somos, por vocação e por escolha, a universidade do Ribatejo: trabalhamos todos os dias com as autarquias, as empresas e as instituições económicas, sociais e culturais da região, do agroalimentar à saúde, da educação ao desporto. E a nossa presença não se esgota em Santarém e em Rio Maior: através dos cursos técnicos superiores profissionais, estamos também em Abrantes, Alcobaça, Azambuja, Cartaxo, Mafra, Óbidos, Torres Vedras e Vila Franca de Xira. Poucas instituições de ensino superior conhecem tão bem, e servem tão de perto, o território onde estão.
Esta nova era faz-se também de investimento. Inaugurámos este ano o novo auditório e o Living Lab, estamos a renovar salas de aula, equipamentos e mobiliário nas nossas escolas, concluímos duas residências de estudantes — com uma terceira em construção e outras em reabilitação — e na Escola Superior Agrária avança o Santarém AgroHub, um centro de inovação agroalimentar de quase cinco milhões de euros, pensado com a região e para a região. Santarém afirma-se, passo a passo, como cidade universitária — e a própria cidade acompanha este movimento.
Há uma vantagem que durante anos foi lida ao contrário. Lisboa é uma cidade extraordinária, mas não está hoje vocacionada para ser cidade universitária — o alojamento e os transportes consomem a experiência académica e o orçamento das famílias. Santarém e Rio Maior oferecem o contrário: um ensino de proximidade, aplicado e moderno, em cidades onde se chega a pé às aulas, os professores conhecem os estudantes pelo nome e há acesso a residência universitária — com Lisboa a menos de uma hora de comboio de Santarém e a cerca de uma hora de Rio Maior, pela A15. O que era periferia é hoje uma nova centralidade: a mesma ligação à capital, sem os custos que a capital impõe.
A mudança de estatuto veio reforçar uma confiança que já existia — e os números mostram-no. Na 1.ª fase do concurso nacional de acesso, 700 jovens escolheram a Universidade Politécnica de Santarém: mais 249 do que no ano passado, um crescimento de 55% quando as colocações no país cresceram 14%. Nove dos nossos 23 cursos esgotaram. Estes estudantes serão, para sempre, a primeira geração da universidade — os candidatos e as famílias conhecem a qualidade do que aqui se faz e confiam.
Essa confiança responsabiliza-nos: por acolher bem quem chega, por acompanhar cada estudante e por manter um ambiente académico de liberdade, criatividade, conhecimento e cultura. E responsabiliza-nos pelo essencial: garantir que a passagem pela universidade é verdadeiramente transformadora — à aprendizagem soma-se o desenvolvimento pessoal, ético e cívico, que faz dos nossos diplomados profissionais competentes e cidadãos com espírito crítico, capazes de pensar e de inovar.
Termino com uma nota prática: a 2.ª fase do concurso nacional decorre até 20 de Setembro e ainda há vagas em áreas de que a região e o país precisam, onde faltam profissionais e sobram oportunidades — da agricultura e do alimentar ao ambiente, do desporto à gestão e às tecnologias, em Santarém e em Rio Maior. A nova era do ensino superior no Ribatejo já começou — e constrói-se, sobretudo, com quem nos escolhe.

João Moutão
Reitor da Universidade Politécnica de Santarém

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