Especiais | 11-10-2026 07:00

Um jornal que não tem um único dono nem um único berço

Um jornal que não tem um único dono nem um único berço
EDITORIAL - REVISTA 1000 MAIORES EMPRESAS
Joana Salgado Emídio*

Talvez seja bom recordar que O MIRANTE atravessa uma transformação que apetece classificar como renovadora. O MIRANTE é cada vez mais um jornal que não tem um único dono nem um único berço. E essa é a maior prova do alcance do nosso trabalho e da forma como assumimos o serviço público.

Há um ditado que diz que ninguém é profeta na sua terra. Regra geral serve para nos queixarmos de ingratidão quando achamos que somos injustiçados. Acho um exagero, e como não sou nem quero ser profeta, se tiver de me queixar da minha terra nunca será usando este ditado popular. Vem a propósito porque O MIRANTE, desde que foi fundado há quase 39 anos, que comemora em 16 de Novembro, tem vivido quase sempre em contraciclo, crescendo quando a generalidade da comunicação social passa dificuldades. A poucos dias de organizarmos a 26ª edição dos prémios Galardão Empresa do Ano, confirmo que esta revista é a mais conseguida de sempre, e que este ano de crise tem sido tão bem gerido ao nível das parcerias que não precisamos de roubar páginas ao jornal para diminuir custos. Pelo contrário: temos mantido o número de páginas e temos aumentado o número de publicação de notícias, algumas delas saindo apenas online porque não podemos passar das 64 páginas na edição impressa e das 200 gramas de peso para os CTT.
Se o Governo apoiar a comunicação social como está prometido, é muito provável até que alarguemos a nossa área de intervenção mas isso já é conversa a mais para este espaço.
O que quero deixar aqui escrito para memória futura é que O MIRANTE é desde há pelo menos três dezenas de anos o jornal de Alverca do Ribatejo, como é o jornal de Santarém, Abrantes, Tomar e Torres Novas, assim como de todas as aldeias da nossa região. Das cinco cidades onde somos mais lidos, Paris é uma delas, o que demonstra a importância da leitura de O MIRANTE junto dos cerca de meio milhão de emigrantes que vive na área metropolitana da cidade Luz. Com os 39 anos de publicação já acompanhámos o crescimento de tanta gente habituada a ver O MIRANTE em sua casa que não é de admirar que cada um se aproprie do jornal conforme o seu ponto de vista e a sua experiência enquanto leitor com o jornal em cima de um móvel da sala, ou da varanda, durante cerca de uma semana que é quanto dura a vida de uma edição de O MIRANTE antes de seguir para arquivo. Um dos casos mais interessantes que me contaram foi com uma leitora, que terá hoje 35 anos, que jurava a pés juntos que O MIRANTE tinha nascido no Cartaxo, por que quando era menina os pais liam-lhe o jornal em voz alta e a capa não deixava dúvidas que o jornal era o da sua terra.
As edições diferenciadas com três capas, uma para cada sub-região, onde já investimos há muitos anos, são uma boa razão para aproximar o jornal de cada concelho, de cada cidade e aldeia, para que cada leitor se aproprie e chame seu o jornal que publica as notícias da sua terra e da sua região. Sem querer fazer de juíza em causa própria, não conheço no país outro jornal regional que invista como nós na forma como chegamos ao mercado e como trabalhamos: equipas descentralizadas numa área que ultrapassa em muito o trabalho de um jornal local ou regional daqueles que conhecemos nos vários concelhos e nas capitais de distrito.
O facto de termos a sede da empresa e da redacção do jornal em Santarém, e Santarém ter um dos mirantes mais bonitos da região, talvez dê aos escalabitanos a propriedade do jornal. Mas é só uma ilusão. Porque o Arripiado, na Chamusca, tem um mirante sobre o Castelo de Almourol onde apetece ficar a ouvir os passarinhos e a perguntar se o silêncio também tem voz; as vistas sobre o Tejo e a Lezíria espalham-se
de Santarém até à Chamusca, Vila Franca de Xira e Abrantes. Há muitos miradouros no Médio Tejo que podiam ter inspirado este título que escolhemos para o nosso jornal em vez do nome da terra onde este pasquim nasceu, porque nós éramos de lá, e ainda somos, um pouco mas somos, até nos assaltarem a casa, sabe Deus a mando de quem. O problema de nos roubarem a terra, o ouro e a prata, e um bocadinho da nossa vida material e espiritual, só acontece a quem trabalha e faz pela vida. Entre ter coisas para roubar, ou não ter nada, preferimos a primeira situação. Nunca teremos de menos para partilhar e também nunca haveremos de ter demais para achar que somos donos de alguma coisa. De verdade, o que temos é tudo emprestado. Já nasceu, quem vai viver com aquilo que nós usamos de empréstimo e chamamos nosso.
De empresária para empresários quero deixar aqui em letra de forma um agradecimento a todas as empresas que aceitaram o desafio de serem parceiras dos nossos projectos editoriais. Esta Revista é a nossa cara, mas também o rosto de muita gente que merece o nosso reconhecimento e o dos leitores. O mesmo agradecimento igualmente reconhecido, em nome de toda a equipa, para os líderes das instituições que aceitaram e aceitam a parceria, independentes de as notícias serem mais ou menos favoráveis, já que vivemos tempos conturbados.
Uma coisa é certa: há 27 anos iniciei este trabalho com um mestrado em Engenharia que durou cinco anos numa universidade do Porto. Se soubesse o que sei hoje tinha feito tudo da mesma maneira. Comecei a trabalhar no jornal nas férias desde os 15 anos e quando entrei nesta máquina de fazer notícias já tinha um doutoramento que a minha antiga universidade nunca me poderia dar.
Talvez seja bom recordar aqui, neste momento especial, que O MIRANTE atravessa, nomeadamente ao nível geracional, a começar pela composição da sua redacção, uma transformação que apetece classificar como renovadora. O MIRANTE é cada vez mais um jornal que não tem um único dono nem um único berço. E essa é a maior prova do alcance do nosso trabalho e da forma como assumimos o serviço público que prestamos à nossa região e a todas as pessoas que aqui vivem ou sentem que fazem parte da nossa comunidade.
*Directora executiva

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