Especiais | 17-10-2026 08:00

A antiga taberna que se tornou uma marca na gastronomia ribatejana sem perder identidade nem sabor

A antiga taberna que se tornou uma marca na gastronomia ribatejana sem perder identidade nem sabor
ESPECIAL GALARDÃO EMPRESA DO ANO
Fernando Batista lidera a Taberna do Quinzena que já é uma referência da região - foto O MIRANTE

A Taberna do Quinzena soube crescer sem deixar para trás a identidade de uma casa profundamente ligada a Santarém e à gastronomia ribatejana. A empresa é a história de um negócio familiar que transformou uma velha taberna de copos de vinho e petiscos num grupo de restauração com vários espaços, cerca de uma centena de trabalhadores e presença regular em eventos dentro e fora da região. O crescimento tem sido cozinhado com os pés assentes na terra e sem perder a identidade e o sabor que faz do Quinzena uma referência.

Muito antes de se transformar numa das marcas mais conhecidas da restauração de Santarém, a Taberna do Quinzena já fazia parte da vida da cidade e de sucessivas gerações de clientes. A própria casa apresenta-se como a “Catedral” da comida tipicamente ribatejana, numa história com cerca de 150 anos onde a gastronomia, as tradições e a identidade da região sempre se sentaram à mesa. Foi entre copos de vinho, petiscos e conversas ao balcão que Fernando Batista cresceu, numa altura em que vivia com os pais num pequeno anexo da taberna. Estudou enquanto ajudava no negócio e acabou por sair para ganhar experiência profissional, primeiro numa empresa de restauração colectiva e depois num negócio próprio de distribuição de frutas para hospitais e instituições.
A vida parecia encaminhada longe da casa da família quando, em 1995, a morte inesperada do pai, de quem também herdou o nome, obrigou-o a decidir o que fazer à Taberna do Quinzena. Não houve passagem de testemunho preparada nem tempo para aprender tudo aquilo que ainda faltava com quem tinha conduzido o negócio antes dele. “Sinceramente, não. Não estava preparado”, reconhece, recordando que o peso daqueles primeiros tempos não estava apenas na responsabilidade de assegurar o futuro da taberna, mas também na ausência do pai, com quem costumava conversar quando as portas fechavam ao final da noite. Durante algum tempo manteve a empresa de frutas que fundou e o negócio familiar, até se dedicar em exclusivo à Taberna do Quinzena.
Recomeçou ao lado da mãe, que preparava os petiscos enquanto ele atendia ao balcão, numa altura em que não faltou quem duvidasse da continuidade da casa. Fernando Batista admite que cometeu erros e teve de aprender com eles, mas também reconhece que ouvir dizer que o Quinzena não iria para a frente lhe deu força para provar o contrário. A grande mudança começou a ganhar forma em 1998, quando Carlos Abreu, então presidente da Região de Turismo do Ribatejo, o desafiou a participar no Festival Nacional de Gastronomia. A experiência abriu caminho para que muitos dos petiscos que já saíam da cozinha ganhassem estatuto de pratos de uma restauração mais estruturada, sem abandonar sabores como os molhinhos com feijão branco, os pezinhos, as iscas ou o pato assado no forno.
O crescimento fez-se com novos espaços, investimentos e decisões tomadas muitas vezes em períodos pouco favoráveis à restauração. Em 2014, em plena ressaca da crise económica, abriu três espaços e mais recentemente avançou para uma profunda remodelação da Taberna do Quinzena Mercado, que esteve 545 dias fechada e regressou com capacidade próxima dos 300 lugares. Fernando Batista nunca teve medo de arriscar, reconhecendo que nem todos os projectos resultaram e que um empresário tem de saber quando é altura de parar ou seguir em frente sem se deixar dominar pelo medo.
A casa original na Rua Pedro de Santarém continua a ser a base de referência do grupo, onde se encontram clientes que frequentam o Quinzena há mais de 40 anos e jovens universitários, numa mistura de gerações que Fernando Batista considera parte da identidade do espaço. “É uma casa que abraça toda a gente”, diz o empresário. A história continua a ser escrita com a entrada de uma nova geração. O filho de Fernando Batista, que durante anos não mostrou vontade de seguir o negócio familiar, trabalha agora ao lado do pai. Fernando não esconde que gostaria de ver o Quinzena continuar nas mãos da família e crescer.

Levar Santarém, os sabores e a identidade ribatejana além-fronteiras

A Taberna do Quinzena deixou há muito de caber apenas entre as paredes dos seus restaurantes. O grupo emprega actualmente cerca de uma centena de trabalhadores e tem uma estrutura que se estende pelos restaurantes tradicionais, cafetarias e self-service, além da exploração de toda a área de restauração do Hotel Verdi Santarém, onde assegura pequenos-almoços, almoços, bares, restaurante e serviços de eventos. Só em Santarém funcionam a casa-mãe e o Quinzena do Mercado, e mais três unidades ligadas às áreas de cafetaria e self-service, a que se junta o espaço no Cartaxo, com restaurante e bar.
O grupo factura, em média, cerca de seis milhões de euros. Uma estrutura que obriga a delegar responsabilidades. Apesar de ser empresário ainda serve à mesa e contacta com os clientes. Afinal, é para eles que trabalha. Há funcionários com 20 e 30 anos de casa e cozinheiros que o acompanham há mais de uma década, alguns deles fundamentais para garantir que os sabores se mantêm quando a cozinha sai de Santarém e é montada noutro ponto do país.
A marca participa regularmente em feiras e certames como a BTL, em Lisboa, a Feira de São Marcos, em Alter do Chão, a Praia da Vitória, nos Açores, a Agroglobal e a Feira Nacional de Agricultura. Na Agrival, em Penafiel, marca presença há 23 anos consecutivos, com excepção do período da pandemia, e já atravessou a fronteira para participar em certames em Ourense, Espanha. Nesses eventos servem-se pratos que identificam a cozinha da casa, do magusto com bacalhau assado ao naco de novilho bravo avinhado, passando pela queixada de porco com arroz de feijoca e pelo torricado de bacalhau ou, ainda, as famosas febras can can, que nasceram por mero acaso, depois de um pedido tardio de um cliente. Hoje, embora não integrem a ementa, o passa a palavra continua a render fama às febras mergulhadas num molho especial, servidas numa frigideira.
Fernando Batista vê nesses eventos uma forma de despertar curiosidade pela região. Há clientes que conhecem o Quinzena no Norte do país e que depois procuram a casa quando passam por Santarém. É uma promoção à cidade e à região feita à mesa, onde a gastronomia funciona como cartão-de-visita de uma cidade e de um Ribatejo que o Quinzena continua a abraçar e a levar consigo.

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