Entre a tecnologia e o balcão é na proximidade às pessoas que está o centro do Grupo Varela
O Grupo Varela nasceu há 40 anos de uma decisão de José Varela e cresceu com a gestão do filho, João Varela, sem perder uma característica que ambos consideram essencial: conhecer as pessoas e estar próximo delas. Com oito farmácias nos concelhos de Alenquer e Vila Franca de Xira e cerca de uma centena de trabalhadores, o grupo quer continuar a crescer de forma sustentada, reforçando o papel da farmácia na prevenção, acompanhamento dos doentes e integração no sistema de saúde.
José Varela tinha 11 anos quando começou a trabalhar numa farmácia e uma vida inteira ligada ao balcão quando decidiu arriscar por conta própria. Quatro décadas depois, a empresa familiar que ajudou a construir transformou-se no Grupo Varela, com oito farmácias nos concelhos de Alenquer e Vila Franca de Xira e cerca de uma centena de trabalhadores. Uma dimensão que não retirou à família a convicção de que o maior património continua a ser a relação criada com quem entra numa farmácia.
João Varela assumiu há cerca de 26 anos responsabilidades na gestão e reconhece no pai o mentor de uma cultura empresarial que procurou organizar, profissionalizar e fazer crescer. José Varela trouxe a relação natural com as pessoas; o filho acrescentou ferramentas de gestão e uma aposta permanente na formação e qualificação das equipas. É dessa combinação que resulta aquilo a que João Varela chama o “ADN” do grupo: proximidade aos colaboradores e aos utentes, confiança e capacidade para acrescentar valor ao atendimento.
O crescimento acompanha uma profunda transformação da saúde no Ribatejo. Há 26 anos, recorda João Varela, a oferta era diferente e também eram diferentes as exigências da população. A entrada de novos investimentos públicos e privados trouxe cuidados diferenciados, profissionais e novas respostas, mas tornou igualmente mais evidente a importância da acessibilidade. Hoje, considera, as pessoas querem ter os cuidados de saúde perto de casa e essa proximidade passou a ser determinante.
É nesse ecossistema que o Grupo Varela pretende continuar a posicionar-se. Não existe uma estratégia de seguir automaticamente a abertura de hospitais privados com novas farmácias, mas João Varela admite que a proximidade a hospitais e unidades de saúde é um factor estratégico quando conjugada com densidade populacional, acessibilidade e procura. O princípio é crescer onde faça sentido e sem perder a capacidade de estar presente.
Para João Varela, a grande oportunidade das farmácias está na prevenção e no acompanhamento dos doentes. O diagnóstico pertence ao médico, sublinha, mas a farmácia pode assumir um papel mais relevante depois desse momento, acompanhando a adesão à terapêutica, a medicação crónica, eventuais efeitos secundários e a evolução do utente, em articulação com médicos, USF, ULS e hospitais. Essa visão exige profissionais preparados. O Grupo Varela investe regularmente parte do orçamento em formação interna, abrangendo farmacêuticos, técnicos e outros colaboradores. Para João Varela, quem está ao balcão tem de saber comunicar saúde, identificar os limites da sua intervenção e encaminhar o utente sempre que a situação exige avaliação médica. O objectivo é que cada atendimento acrescente alguma coisa à simples entrega de uma caixa de medicamentos.
A aposta nas pessoas é também uma opção de gestão. João Varela recusa olhar para os recursos humanos apenas através dos rácios tradicionais de uma empresa e afirma que prefere cortar noutras despesas antes de reduzir o investimento nas equipas. A retenção de profissionais, a progressão e a atribuição de responsabilidades dentro do próprio grupo fazem parte dessa estratégia.
Inteligência artificial sem substituir a relação humana
Aos 82 anos, José Varela olha para a revolução tecnológica sem receio. Considera-a parte da evolução a que assistiu ao longo da vida e acredita que a tecnologia pode ser extraordinária quando utilizada para o bem. João Varela partilha essa visão e garante que o grupo já utiliza inteligência artificial e promove formação interna e externa nessa área. A tecnologia, defende, deve servir para melhorar processos e libertar capacidade, não para substituir a componente humana que está no centro da actividade. O futuro passa igualmente por alargar o conceito de saúde para lá da farmácia. O Grupo Varela já tem em funcionamento um centro dedicado à estética e ao bem-estar, numa visão que associa saúde, longevidade e qualidade de vida e que poderá abrir caminho a outras áreas relacionadas com estilos de vida saudáveis.
Apesar da dimensão alcançada, pai e filho continuam a encontrar no balcão a expressão mais simples do negócio que construíram. João Varela diz que ambos são “animais de balcão”: gostam do contacto, da conversa e da possibilidade de resolver um problema a quem entra pela porta. É também essa cultura que procuram transmitir aos mais novos, ensinando-lhes que uma carreira numa farmácia não se constrói apenas com conhecimento técnico, mas com capacidade para criar uma relação de confiança com as pessoas. Quarenta anos depois, José Varela continua a ser a memória e a matriz de uma empresa que João Varela quer preparar para as próximas décadas. Entre a inteligência artificial, novos investimentos privados na saúde e uma população que vive mais anos e exige melhores cuidados, há uma ideia que os Varela não querem deixar envelhecer: uma farmácia pode modernizar-se, crescer e ganhar dimensão, mas só faz sentido enquanto continuar próxima das pessoas.


