Um negócio com identidade e projectado para o futuro que teve uma gaveta como inspiração
Francisco Margarido e Maria Ramos Margarido pegaram nas vinhas e na adega da família e transformaram uma pequena herança num negócio de vinho e enoturismo na Serra de Tomar. Começaram sem experiência, com uma marca desconhecida e tiveram de bater a muitas portas. Hoje recebem turistas estrangeiros, vendem para dezenas de restaurantes e preparam um hotel rural com restaurante e spa, entre vinhas.
Francisco Margarido tinha 23 anos quando decidiu transformar em negócio aquilo que até então fazia parte da vivência familiar. Maria Ramos Margarido juntou-se ao projecto e os dois foram construindo, a partir da Serra, em Tomar, uma empresa onde ele ficou mais ligado ao vinho e à produção e ela à organização, gestão e desenvolvimento do negócio. A Adega da Gaveta apareceu primeiro, em 2019, e a Margaval Vinhos seria formalizada em 2023. Pelo caminho cresceram as vinhas, aumentaram a produção, chegaram a dezenas de restaurantes e descobriram no enoturismo uma das principais forças da empresa.
Francisco nasceu e cresceu em Lisboa, mas passava fins-de-semana e férias na Serra, entre as vinhas e a adega do avô José Margarido, onde se preserva a mesa de madeira com uma gaveta onde o avô guardava queijo, chouriço e pão para acompanhar o vinho quando recebia amigos. Foi essa memória que inspirou, anos mais tarde, o nome Adega da Gaveta. Quando José faleceu, em 2015, a família ficou perante a possibilidade de ver desaparecer aquilo que ele tinha construído. Manter tudo apenas como passatempo exigia demasiado tempo e investimento, pelo que a solução passou por transformar a herança num negócio capaz de se sustentar.
O arranque esteve longe de ser fácil. Pegava nas garrafas e batia às portas dos restaurantes à procura de quem estivesse disposto a provar um vinho feito por um produtor desconhecido. A idade não ajudava e a ausência de um nome sonante da enologia nas garrafas levantava dúvidas. Houve portas que não se abriram e clientes que desconfiaram, mas o jovem licenciado em Engenharia Electrotécnica com pós-graduação em Enologia manteve uma persistência que acabaria por ser determinante para o crescimento da marca.
Num sector competitivo, onde muitos consumidores olham primeiro para o preço, os produtores do Tejo ainda lutam por maior reconhecimento. “Existem 14 regiões vitivinícolas em Portugal, mas, infelizmente, para o português existem duas que são o Douro e o Alentejo”, afirma o enólogo, considerando que o Tejo ainda está “subvalorizado”. Reconhece, contudo, que a região tem vindo a ganhar espaço, fruto do trabalho dos produtores e da Comissão Vitivinícola Regional do Tejo.
Francisco e Maria procuram fazer crescer esse legado sem o desligar das raízes. O próximo passo é um hotel rural, projectado a cerca de dois quilómetros da adega, que terá 12 unidades de alojamento, restaurante e spa e foi pensado para funcionar em ligação directa com as vinhas, o vinho e a paisagem. O projecto de arquitectura está aprovado e segue para a fase das especialidades. A intenção, destacam, é que quem visite a Serra possa prolongar a experiência e permanecer no território, dormir, comer e participar em experiências ligadas à região. Também este projecto, confessa Francisco Margarido a propósito do licenciamento de novos investimentos, “não foi nada fácil”. Ainda assim, o casal mantém a mesma atitude que marcou o arranque da Margaval: “é abraçar e avançar”, numa lógica de persistência perante os obstáculos.
Produção biológica e de mínima intervenção e um hotel entre vinhas
A pequena dimensão continua a fazer parte da identidade da Margaval, mas os números já estão longe dos primeiros tempos. Há dois anos a produção rondava as 10 mil garrafas e este ano deverão ser engarrafadas cerca de 13 mil, existindo vinho em adega com potencial para chegar às 16 mil ou 17 mil garrafas. A capacidade da adega está praticamente esgotada e na última vindima houve uva que ficou por colher por falta de espaço para a receber.
O crescimento tem andado de braço dado com a produção biológica pautada por uma filosofia de mínima intervenção. A vindima é manual, feita por pessoas da terra, permitindo seleccionar os cachos ainda na vinha, e as fermentações são espontâneas e tanto estas como o estágio são feitos exclusivamente em depósitos de inox. A Margaval trabalha, entre outras, as castas Fernão Pires, Arinto, Castelão, Aragonez, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional, e não procura produzir vinhos iguais de ano para ano, defendendo que cada colheita deve traduzir as características da uva, do território e das condições de cada época.
Nos primeiros tempos chegaram a ouvir que um dos brancos parecia estragado antes sequer de ser provado, apenas por apresentar uma cor mais amarela. Foi mais uma barreira num percurso feito, desde o início, de explicação, persistência e contacto directo com os compradores. Os empresários preferem consolidar a produção e garantir mercado na região. Mas os seus vinhos, que estão presentes em mais de 50 restaurantes e em cerca de uma dezena de garrafeiras, chegam a Lisboa e Porto através de representantes e a outros pontos do país, como a Comporta.
Cerca de 60% das vendas de vinho são realizadas na própria adega a visitantes que, depois da experiência, compram garrafas. O público estrangeiro tem um peso dominante. Cerca de 80% são norte-americanos. A procura tem aumentado sobretudo através de recomendações e pesquisas online. O número de visitas passou de aproximadamente uma de duas em duas semanas para quatro ou cinco por semana. O salto empresarial mais significativo deverá chegar com o hotel rural que deverá criar seis postos de trabalho fixos.


