Especiais | 19-10-2026 15:00

Quando dois rivais europeus se juntam para transformar uma fábrica num caso de sucesso

Quando dois rivais europeus se juntam para transformar uma fábrica num caso de sucesso
ESPECIAL GALARDÃO EMPRESA DO ANO
Mauro Cardoso, director-geral da Monliz - foto O MIRANTE

A empresa de vegetais ultracongelados que deve o nome à conjugação dos rios Mondego e Lis encontrou na Lezíria o terreno fértil para se tornar uma marca de mudança na agricultura da região e na filosofia fabril. Detida por dois gigantes belgas que decidiram cooperar apesar de serem concorrentes, a Monliz fixou-se em Alpiarça e consolidou-se como uma das maiores empresas agroindustriais do país, apoiada por 150 agricultores, e como um exemplo europeu de produtividade e segurança.

Detida em partes iguais pelos colossos belgas Ardo e Crop’s, rivais directos no mercado de vegetais congelados, a Monliz é um caso único de cooperação industrial. A partir da zona mais fértil de Portugal, a empresa de Alpiarça é um exemplo nos índices europeus de produtividade e segurança. Esta invulgar “joint-venture” remonta ao ano 2000, quando as multinacionais compraram a empresa que adoptou o nome em homenagem aos rios Mondego e Lis, fundada em 1980 por accionistas locais na Figueira da Foz. Bastou pouco tempo para a nova administração perceber que a antiga fábrica em Leiria estava geograficamente isolada da principal zona de produção de regadio do país. A decisão estratégica foi mudar a operação para perto dos agricultores, para Alpiarça, onde se ergueu uma moderna unidade industrial em 2005, encerrando definitivamente a actividade em Leiria em 2007.
A escolha da localização teve em conta a riqueza do solo, a competência dos agricultores e a expectativa da construção da auto-estrada A13. Embora a infraestrutura rodoviária continue por concluir duas décadas depois, obrigando centenas de camiões a circular pelas estradas nacionais, a Monliz consolidou-se como um motor económico com pronúncia regional, mas voz internacional. Mas também se destaca pela forma como gere a relação com a produção. A empresa adquire as sementes e, em seguida, contrata viveiros para produzir as plantas e orienta-os a entregarem essas plantas aos agricultores em dias específicos, permitindo assim o controle do ciclo da planta. Nesse processo, a empresa não trabalha com organismos geneticamente modificados (transgénicos). O desenvolvimento e a inovação das variedades são feitos exclusivamente por meio de reprodução e escolha (selecção natural).
Em 2011 a empresa deparava-se com o desafio de crescer, de duplicar a produção. Iniciou um investimento de cerca de 20 milhões de euros, instalando uma segunda linha e uma nova câmara frigorífica, que arrancou no Verão de 2012. Hoje, a Monliz processa anualmente cerca de 60 mil toneladas de vegetais, adquiridos directamente a uma rede de 150 agricultores parceiros com quem a empresa faz um trabalho de proximidade. Do volume total de negócios de 82 milhões de euros, a esmagadora maioria destina-se ao mercado externo: cerca de 66 milhões de euros são enviados directamente para as duas “casas-mãe” na Bélgica, que posteriormente assumem a responsabilidade de os distribuir. A responsabilidade directa de vendas da Monliz termina na fronteira com Espanha.
Os produtos-estrela da companhia são os pimentos e os brócolos, que representam dois terços da produção, mas o catálogo estende-se a outros produtos como ervilhas, favas, cenouras, curgetes e batatas. Com uma equipa de agrónomos que apoia os agricultores, a empresa foi pioneira mundial no desenvolvimento de maquinaria para a colheita mecanizada do pimento.
O crescimento da Monliz reflecte-se também no seu impacto social e laboral. Nos últimos 15 anos, a empresa aumentou o seu quadro de pessoal fixo de 80 para 230 trabalhadores. Durante o período de campanhas agrícolas, de Abril a Fevereiro, o número total de trabalhadores sobe para 340 pessoas. A fábrica tornou-se a grande referência de segurança do grupo, liderando o menor índice de sinistralidade entre mais de 20 fábricas espalhadas pela Europa.

O engenheiro químico que percebeu a dificuldade de gerir nas bancas do mercado

O percurso de Mauro Cardoso, director-geral da Monliz desde 2011, é marcado pela resiliência e pela capacidade de adaptação. Natural de uma família com origens em São João da Pesqueira (Douro) que rumou a Lisboa para ganhar a vida, Mauro Cardoso teve a sua primeira “escola” no Mercado de Odivelas, onde desde miúdo ajudava a gerir as oito bancas de peixe, marisco e fruta da família.
Licenciado em engenharia química, iniciou a sua carreira profissional na Diviril, uma empresa familiar de refrigerantes no Carregado, que já não existe. Ao longo de 14 anos subiu a pulso, desde estagiário no controlo de qualidade até assumir a direcção industrial. Foi aí que conseguiu atrair negócios de relevo, como o embalamento da marca Joy para a Central de Cervejas. Com a crise instalada na empresa e com 10 salários em atraso, viu-se na contingência de procurar um novo rumo, apesar de ter um carinho especial pela empresa.
Respondeu a um anúncio de emprego que, após várias fases de selecção, o levou para a Monliz. Na altura, revela agora, Alpiarça e a agroindústria estavam completamente fora do seu mapa e horizontes e ele não percebia nada de agricultura. Passou por um processo longo de entrevistas, incluindo uma entrevista final com os proprietários da Crop´s, Michel Delbaere, e da Ardo, Bernard Haspeslagh. Ao assumir a liderança da fábrica de Alpiarça, num período em que a empresa estava a duplicar a sua capacidade de produção, Mauro Cardoso deparou-se com um processo que o marcaria profundamente, decorrente de um acidente de trabalho mortal em 2010, que vitimou um electricista da manutenção antes da sua chegada.
Habituado a um registo de baixíssima sinistralidade nos seus 14 anos na indústria de refrigerantes, o novo director-geral fez da segurança das pessoas a prioridade absoluta da empresa. A Monliz iniciou então uma profunda transformação na filosofia da fábrica que acolhia muitos trabalhadores vindos directamente do campo, sem hábitos de prevenção ou uso de equipamentos de protecção, tendo implementado uma cultura rigorosa de procedimentos e inspecção. E hoje é a referência absoluta de segurança dentro dos grupos Ardo e Crops.

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