Entrevista | 26-08-2009 12:56

O Homem da Rádio que lançou as emissoras piratas

O Homem da Rádio que lançou as emissoras piratas

José Guilherme Paradiz passou a vida a desafiar as autoridades porque não se conformava com os monopólios. Fez emissões piratas de televisão e de rádio. Teve processos em tribunal. Mas nunca desistiu. Agora está reformado mas continua a acompanhar a rádio que fundou em 1980. E ainda lhe apetece às vezes transgredir em relação às directivas da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Nesta entrevista conta as peripécias por que passou na vida, o tempo que passou na guerra e os sonhos que ainda tem porque o bichinho da electrónica está vivo e bem vivo.

A rádio tem sido a sua paixão, mas também aquela que lhe trouxe grandes problemas com as autoridades. Muitos.

Não estou arrependido de os ter criado. Houve problemas com dimensão muito grande quando fazia emissões piratas de discos pedidos em Pernes. Era uma rádio itinerante. Um dia emitia de um café, outro de minha casa, outro de casa de um amigo… Um dia bateram-nos à porta. Era a PIDE (polícia do antigo regime). Andei fugido e dormia nuns palheiros de um casal dos meus avós na zona das Comeiras. Para me livrar de ser preso ofereci-me como voluntário para a tropa, para os pára-quedistas.

Onde é que aprendeu a fazer emissores?
Comecei a trabalhar com 14 anos em Santarém na Electrodinâmica, na área da electrónica, na reparação de televisões e rádios. Mas já tinha o bichinho da rádio desde miúdo. Depois comecei a colaborar na parte técnica na antiga Rádio Ribatejo e como era contra os monopólios, e ainda sou, questionava-me porque é que não podia haver mais rádios e comecei a fazer emissões piratas.

A guerra em Angola acabou por lhe permitir conhecer alguns dos grandes nomes da rádio. Quando passei à disponibilidade da tropa fui trabalhar para a emissora católica em Luanda. Onde trabalhavam a Alice Cruz, Rui Romano, Emídio Rangel, Jorge Perestrelo…

Não se sentia limitado por não ser um católico praticante?
As únicas restrições que tínhamos era a censura, que também existia em Portugal. Até havia uma situação caricata. Emitíamos os “Parodiantes de Lisboa” que iam daqui já censurados e quando chegavam a Luanda eram sujeitos a mais cortes da censura. Também havia músicas proibidas. Recebíamos discos de várias editoras. Os que iam de Portugal não representavam grandes problemas, mas os que recebíamos de editoras italianas eram altamente controlados. Havia uma lista do que não podíamos passar e para não haver tentações os membros da censura inutilizavam as faixas dos discos com uma chave de fendas.

E nunca passou nenhuma música proibida?
Uma vez recebi uns discos da RCA italiana e entre eles estava um do Zeca Afonso, “Os Vampiros”. Na altura os locutores só papagueavam. E quem metia a música eram os técnicos como eu. Sem traquejo nenhum de vida, a não ser de guerra, sem perceber de política, meti a tocar o Zeca Afonso. O que deu logo confusão.

Foi preso?
Não. Mas fui chamado oito vezes à PIDE. Antes de ser atendido faziam-me esperar cinco, seis horas. Psicologicamente foi mau, mas não posso dizer que alguma vez me tivessem tratado mal. Perguntavam-se se sabia o que queria dizer a música e eu respondia que não. E sinceramente não sabia. Mais tarde é que comecei a analisar a música e percebi que havia uma mensagem política.

Após a revolução do 25 de Abril de 1974 continuou a fazer rádio?
Cheguei a Portugal no dia 12 de Julho de 1974. Tinha intenções de regressar, mas como as coisas se complicaram fiquei por aqui. Fui trabalhar para a Rádio Renascença.

Ainda apanhou o ataque bombista ao emissor dessa rádio… Nesse dia era para estar nesse centro emissor. Foram os testes psicotécnicos que me safaram. A Renascença queria correr com uma série de gente que lá trabalhava e para isso arranjaram uns testes psicotécnicos. Para disfarçar propuseram-me que fizesse também os testes e prometeram-me que seria colocado no centro emissor na Buraca. Recusei-me a fazer os testes e fiquei nos estúdios. Foi a minha sorte.

Afastou-se da rádio nessa altura… A rádio esteve inoperativa durante nove meses. Como não tinha trabalho dediquei-me a vender electrodomésticos em Pernes. Chamaram-me novamente para a Renascença, mas como estava a vender muito não larguei a actividade, até porque na rádio nunca se ganhou muito. Acabei por sair da rádio e dedicar-me em exclusivo aos electrodomésticos.

Foi nessa altura que se começou a falar no início da televisão a cores. Mas faltava-me alguma coisa. O bichinho da rádio estava a morder-me.

O que fez então?
Na altura só havia dois canais da RTP e comecei a pensar porque é que não havia de haver um canal independente. Fiz um emissor de televisão a cores quando a RTP ainda emitia a preto e branco. Na altura já se vendiam televisões a cores. Cheguei a transmitir desafios de futebol em directo, a animação do Festival Nacional de Gastronomia. Tinha funcionários da RTP que colaboravam nas minhas emissões, como o realizador Fernando Amaro. Os jornais nacionais fizeram notícia disto dizendo que já existia o terceiro canal e que a RTP tinha perdido o monopólio.

Voltou a ter problemas com as autoridades… Um dia estava a transmitir a festa de final de ano lectivo na Escola C+S de Pernes e entram uma série de agentes da Polícia Judiciária, com um enorme aparato, para me apreenderem o equipamento. Eles foram impecáveis. Acharam tanta piada que me deixaram transmitir o resto e depois levaram-me os equipamentos todos excepto um vídeo. O processo andou seis anos no tribunal e estava sujeito na altura a uma coima de 50 mil contos (250 mil euros) e cinco anos de cadeia. Os indivíduos da Judiciária e dos TLP (Telefones de Lisboa e Porto) acabaram por testemunhar a meu favor e o caso foi arquivado. Fui notificado para levantar os equipamentos apreendidos mas os TLP pediram-me se os cedia para o museu deles e aceitei.

É uma pessoa que gosta de transgredir. Tenho um bocado esse vício. Ainda agora me apetece às vezes transgredir em relação às directivas da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Há directivas sem nexo.

Depois das emissões piratas de televisão ainda se meteu em mais aventuras. Passados uns meses, como não me sentia bem sem fazer qualquer coisa na área, comecei a retransmitir os canais espanhóis por causa das corridas de toiros. Não havia satélites na altura. O Carlos Cruz na altura apresentava o concurso “Um, dois, três” e queria ver o concurso espanhol. Montei-lhe umas antenas no prédio em Lisboa para ele ver como é que os espanhóis faziam. Entretanto acabei com as retransmissões porque a GNR me ameaçou.

Como é que eles chegaram a si?
Os guardas também viam as corridas espanholas no posto…

É depois disto que avança para uma rádio pirata, a Rádio Pernes?
Não me sentia realizado só a vender electrodomésticos e a arranjar rádios e televisões. Fiz então um emissor de FM (frequência modulada). Fui o pioneiro das emissões piratas em FM, depois é que apareceram a Rádio Antena Livre de Abrantes e mais uma série delas. A primeira transmissão em directo foi no dia 1 de Maio de 1980 no Largo do Rossio, em Pernes, de um conjunto musical que estava a actuar no local. A partir daí nunca mais parei até finais de 1988, retomando no início de 1989. Tive que parar uns meses nessa altura pois era a condição para poder obter o alvará.

“A rádio é um vício”

Apesar de estar reformado ainda repara os equipamentos da rádio que criou?
Muitas reparações ainda sou eu que faço, sobretudo em emissores. Tenho um faro especial porque foram muitos anos a trabalhar com emissores de áudio. Isto é um vício. Tal como a insonorização, à que já não me dedico porque hoje é tudo feito em computador e não sou grande especialista em informática.

O mercado aguenta tanta rádio local?
Isto não está fácil para ninguém, mas lá vamos andando.

Perdeu-se o espírito de aventura da rádio?
Sim. O tempo da pirataria era extraordinário. Passava madrugadas acordado de volta dos equipamentos. Queria atingir a perfeição. Era uma carolice. A rádio agora está desumanizada, é feita por máquinas. Quando apareceram os computadores disse logo que não mexia neles.

Trabalhava muitas horas?
Nunca liguei a horas, a feriados, a fins-de-semana. Nunca tive horários e tenho consciência que muitas vezes era um exagero o tempo que passava só com a rádio. Levanto-me todos os dias às 05h30. Tinha um programa às 06h00 nos estúdios em Pernes que são por baixo da minha casa. Ia fazer emissão às vezes em pijama.

Nunca lhe apeteceu ligar o microfone e dizer tudo o que lhe ia na cabeça?
Teria que dizer muitos disparates e é melhor estar calado.

Sente pressões por parte dos políticos?
É cíclico de quatro em quatro anos. Cara a cara não, mas nas entrelinhas isso sente-se.

Teve problemas com o ex-presidente da Câmara de Santarém que veio acabar com o protocolo que a Rádio Pernes tinha com a autarquia.

Sim, mas nunca lhe tirei a crónica que ele tinha na rádio.
Ficou magoado com essa situação? Há coisas que não se esquecem, mas as coisas estão ultrapassadas. Por exemplo quando vi na imprensa que existiam protocolos secretos. Nunca fiz qualquer protocolo secreto, ele foi assinado no salão nobre da câmara e estavam várias pessoas presentes. Nunca avancei para tribunal porque de guerras fiquei eu farto durante os quatro anos que estive em África.

O que lhe dava gozo fazer agora nesta fase da vida?
Gostava que fosse possível criar uma parceria com empresas de comunicação e outras entidades públicas e privadas para se fazer um canal de televisão regional.

Como vê o surgimento das televisões na internet?
Se forem bem feitas são capaz de ter alguma rentabilidade, mas continuo a achar que era melhor ter um canal em sinal aberto ou por cabo. Até porque ainda há muita gente que não tem acesso à internet.

As rádios têm sido bem tratadas?
Normalmente a rádio é o parente pobre. Com este Governo a rádio sofreu graves consequências. Criaram a entidade reguladora a quem temos que pagar uma taxa para o seu funcionamento. O preço para a renovação dos alvarás aumentou. A publicidade institucional só vai para as grandes rádios.

Isso funciona como censura?
É uma forma de censurar. De atrofiar, de cortar as pernas às pessoas.

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