Entrevista | 17-03-2011 07:52

Vila Franca de Xira tem que romper com o estatuto de serventia de Lisboa

Vila Franca de Xira tem que romper com o estatuto de serventia de Lisboa
O director da Agência Nacional para a Qualificação, Luís Capucha, responsável pelas Novas Oportunidades, também foi trabalhador estudante. Descarregou peixe no cais de Vila Franca de Xira e atrasou a entrada para a universidade. Foi operário metalúrgico e já era encarregado do armazém do ferro, na extinta Mague, em Alverca, quando se licenciou em sociologia. É um investigador apaixonado, vila-franquense de corpo e alma, que ama as tradições da sua terra onde continua a residir. Foi menino em Vila Franca de Xira. Como foi a sua infância?A brincar na rua. O bairro do Casi onde vivia era um espaço de brincadeira, convívio e socialização. Fazíamos deambulações em Vila Franca e arredores. Chegámos a ir acampar para o Palácio do Farrobo e para o Monte Gordo. Depois tínhamos os bandos rivais que eram os miúdos do Alto do Mesquita, mais em cima, e o bairro dos varinos, por baixo. Como se comportava na escola o futuro investigador social?Era o menino bonito da professora na escola do bacalhau. Não era um aluno particularmente bem comportado. Fazia o mesmo que os outros. Ia para a escola a pé mas era bastante bom aluno. Os meninos dessa altura andavam descalços?Alguns meninos iam descalços mas já não eram muitos. Lembro-me do Júlio que vinha do Monte Gordo e que andava descalço e do Sancho que era muito pobre. Poucos prosseguiram estudos. Muitos não tiveram tempo para ser meninos. No tempo dos meus irmãos mais velhos a pobreza era extrema. Houve um período de desenvolvimento forte em Vila Franca nos anos 50 e 60 com a expansão industrial e criaram-se muitos empregos. Sou da fase dessa transição. As oportunidades de vida cresceram mas muitas crianças passavam directamente da escola para a responsabilidade de ter um trabalho. Lembro-me de ver colegas com feridas nas mãos andavam a aprender a ser cortadores de carne. No seu caso prosseguiu estudos.Fui estudar para o liceu Passos Manuel, em Lisboa, porque a minha mãe fez uma combinação com a professora Elsa para evitar que fizesse o exame de admissão à escola técnica onde andaram os meus irmãos mais velhos e os meus colegas que foram estudar. O meu pai não tinha dinheiro para me pôr no colégio Sousa Martins que já existia mas tinha uma bolsa de estudo que me permitia estudar. Aos 10 anos comecei a ir todos os dias para Lisboa de comboio. Lá estive até aos 15 anos até acabar o quinto ano de liceu. Tenho extraordinárias recordações. Pertenci às equipas de andebol. Fui internacional nas camadas jovens. A vida dá voltas. O colégio Sousa Martins foi adquirido pelo Estado e vim fazer o antigo 6º e 7º ano a Vila Franca de Xira. As questões políticas já o entusiasmavam?Tinha já alguma noção das coisas políticas até pela ligação dos meus irmãos com o padre Moniz e com uma série de gente que tinha actividade política. Eu próprio tinha desenvolvido algumas ideias de base anarquista. Deixei de poder jogar andebol e passei a jogar futebol. Terminei o liceu no ano do 25 de Abril em Vila Franca. Movimentava-me entre uma certa libertinagem juvenil. O meu irmão estava na secção cultural do União Desportiva Vilafranquense. Tive uma actividade política mais forte no MRPP. Na altura os jovens daqui ou eram do MRPP ou do PCP. Cheguei a ser membro do comité central mas fui expulso com 22 anos. Tive uma vida muito atribulada mas muito rica porque aprendíamos muita coisa. Fazíamo-nos adultos muito cedo. Foi trabalhar cedo...Sai de casa com 17 anos para ir trabalhar. O meu primeiro emprego foi como ajudante de servente na lota de Vila Franca de Xira a ajudar a carregar e descarregar peixe. Tinha média para entrar na universidade mas entrou o ano propedêutico. Tinha que fazer-se trabalho cívico e achei que se era para trabalhar ía trabalhar mais a sério. Primeiro nessa empresa depois, mais tarde, como operário metalúrgico na empresa que andou a montar o forno da cimentejo. Teve que aprender tudo?Tive que aprender tudo mas aprendia rápido. Essa é uma das vantagens de quem estuda. Adapta-se com mais facilidade a diversos contextos. Quando saí da tropa fui trabalhar para a Atral- Cipan como operário químico e rapidamente fazia trabalhos de pessoas que lá estavam há muito anos. Para mim era fácil ler as prescrições, as sínteses químicas e interpretar resultados. As outras pessoas não tinham feito essa ginástica na escola. A mesma coisa aconteceu quando fui trabalhar para a extinta Mague, nos armazéns do ferro. Quando o encarregado do armazém do ferro se reformou fui chamado para o seu lugar, o que quer dizer que com pouco mais de 20 anos era chefe de 40 homens, alguns com idade de ser meus pais, mas bastante menos qualificados. Fui de agente de produção a encarregado de armazém e acabei por ser encarregado de todos os armazéns. Trabalhei na Mague mais de seis anos. Enquanto lá estive fiz o 12º ano e voltei a estudar e fui para a universidade. Decidiu-se logo pela sociologia?Teria sido a primeira opção mas como não sabia que existia o curso de sociologia à noite inscrevi-me em direito. Fui só a algumas aulas. Não gostei. Por sorte encontrei um colega que estava em sociologia - queria mudar – e falou-me do curso. Trocámos. Ele foi para direito e hoje é advogado. Eu fui para sociologia e hoje sou sociólogo. Enrevista completa na edição em papel de O MIRANTE

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