Entrevista | 01-07-2015 13:23

Enfermarias das praças de toiros são uma zona cinzenta da festa

Luís Ramos foi um dos distinguidos na sessão solene do dia da cidade de Vila Franca de Xira como cidadão de mérito. Diz que sem equipas médicas remuneradas nas praças de toiros vai ser difícil encontrar cuidados clínicos de excelência. As praças de toiros em Portugal são obrigadas por lei a terem enfermarias mas a maioria não está em condições de proporcionar um bom socorro aos artistas da festa em caso de necessidade. E poucas estarão em condições de se adaptarem às exigências do regulamento taurino, cuja revisão foi aprovada em Agosto do ano passado. A opinião é de Luís Miguel Ramos, cirurgião do Hospital de Vila Franca de Xira que é também responsável pela enfermaria da praça de toiros Palha Blanco. O médico tem sido um dos defensores da criação de uma associação nacional de cirurgiões taurinos. O seu papel na comunidade e na festa brava mereceu-lhe a distinção de cidadão de mérito da cidade (ver caixa). “Da esmagadora maioria das praças que visitei, nunca desempenharia lá a minha função porque não têm condições. Estou a falar de praças no Ribatejo, Norte e Sul do país mas também em algumas praças consideradas de primeira linha, que me deixaram desolado. Fiquei a pensar como era possível dar um espectáculo naquelas condições. Há praças que não têm desfibrilhadores para casos de paragem respiratória ou cardíaca. Só com uma compressa e Betadine não se resolve nada”, lamenta a O MIRANTE.Luís está há 16 anos na enfermaria da praça de toiros Palha Blanco e tem sido um dos rostos na luta pela modernização da sala, que é hoje das mais completas do país. Graças também, ressalva, ao investimento e apoio dado pela Misericórdia, empresários da praça, câmara, grupo de forcados e ao Hospital de Vila Franca de Xira, quer durante a gestão pública quer durante a gestão da José de Mello Saúde na parceria público-privada.O cirurgião lamenta que 90 por cento das vítimas que entram na enfermaria da praça de Vila Franca de Xira sejam forcados. Nos últimos 16 anos mais de 200 feridos receberam na enfermaria os primeiros cuidados antes de irem para o hospital. O médico confessa que as enfermarias das praças de toiros ainda são consideradas uma “zona cinzenta da festa”, onde poucos gostam de ir. “Há muita superstição, há toureiros e forcados que acreditam que dá azar visitá-la” nota. No entender do cirurgião, se o novo regulamento taurino fosse levado a uma interpretação extrema, “nenhuma praça do país podia dar corridas de toiros, porque o patamar de exigência é muito alto”. Mas acredita que é o ponto de partida para que as coisas possam mudar com o tempo. Regista com tristeza que as enfermarias “não dão lucro” e que por isso é frequente não serem consideradas como pilares fundamentais das corridas de toiros.Médicos taurinos continuam sem ganhar A equipa médica que está nas enfermarias das praças não recebe um cêntimo. Uma situação que, admite o clínico, não tem contribuído para que as enfermarias nacionais funcionem melhor. “Vir dedicar tempo e trabalho, de alma e coração, a esta actividade profissional, sem qualquer remuneração, é muito difícil. Se o veterinário, o cornetim, o director da corrida, os forcados, os cavaleiros, todos ganham, porque é que os médicos e os auxiliares não ganham um cêntimo? Não haver remuneração na equipa médica tem sido o grande entrave para ter equipas competentes e de forma sistemática nas praças de toiros”, realça. Para Luís Ramos, os cirurgiões taurinos em Espanha têm outra relevância e não é possível comparar as enfermarias espanholas e portuguesas porque as corridas são diferentes. “Nós lidamos sobretudo com traumatismos, eles lidam com perfurações que exigem cirurgias”, nota o cirurgião, que é membro da sociedade espanhola de cirurgiões taurinos. Na enfermaria da Palha Blanco estão por norma três médicos (incluindo um ortopedista), três enfermeiros e três auxiliares. O espaço tem sido renovado ao longo dos anos e está climatizado, tem três macas - uma delas com carro médico - suporte avançado de vida com desfibrilhadores, sala de cirurgia com luz operatória e instrumentos cirúrgicos e até um conjunto de baterias que permitem salvaguardar energia caso haja um corte na corrente eléctrica.“A ideia é estabilizar e controlar os danos até o ferido ir para o hospital”, explica. Os feridos saem por uma porta lateral, não interferindo com o espectáculo. Em caso de acidente, são enfermarias como a de Vila Franca de Xira que podem salvar uma figura do toureio da morte certa, seja cavaleiro ou forcado. “Os primeiros minutos são fundamentais, sobretudo quando há uma paragem cardiorrespiratória”, explica.Um apaixonado por medicina homenageado pela cidadeO cirurgião do Hospital de Vila Franca de Xira, aficionado da tauromaquia e que dedica algum do seu tempo a trabalhar gratuitamente nas praças de toiros, foi galardoado na sessão solene do dia da cidade com a medalha de mérito de Vila Franca de Xira. Uma cerimónia realizada pela junta de freguesia. “Foi uma grande honra e surpresa, é o reconhecimento de uma vida passada a dar o melhor de mim”, confessa.Luís Miguel Ramos tem 43 anos, nasceu em Vila Franca de Xira e ainda hoje diz gostar de viver na cidade. É cirurgião geral e formou-se na faculdade de medicina de Lisboa. Luta, há décadas, pela criação de uma associação nacional de cirurgiões taurinos mas ainda não conseguiu concretizar esse sonho. Diz que a cidade está envelhecida e a precisar de mais vida. Defende que durante o Colete Encarnado as festas durem toda a noite. Nunca pensou abandonar a cidade mas confessa que se tivesse de convencer outra pessoa para morar em Vila Franca de Xira não teria muitos argumentos para usar. O médico elogia a melhoria nas infra-estruturas e vai de carro e de mota para o trabalho todos os dias. Gosta de ouvir música de todos os géneros, do Jazz ao Metal. Tem três filhos com os quais gosta de ir ao cinema. A sua viagem de sonho seria à Austrália e à Nova Zelândia. É uma pessoa que gosta de fazer as compras na cidade, seja no mercado ou nas drogarias. Quando precisa de algo que não há no centro vai comprar às grandes superfícies. “Não sou fundamentalista, é a lei da oferta e da procura, se precisar de algo específico tenho de ir a Lisboa. Mas isso é um privilégio, não devemos ver a proximidade com Lisboa como uma coisa má. Com isso conseguimos ter o melhor de dois mundos: uma boa cidade com a capital a 15 minutos”, refere.

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