Entrevista | 14-01-2016 10:40

A solidariedade não é um sentimento em vias de extinção

A solidariedade não é um sentimento em vias de extinção

Os rotários de Vila Franca de Xira escolheram uma mulher para ser a presidente do núcleo durante o próximo ano. É uma pessoa que lida mal com as injustiças e que divide o seu tempo entre dois empregos e cinco filhos. Diz que a plataforma logística da Castanheira foi um fracasso e que é triste ver a sede do concelho “morta”. Defende que se a sociedade fosse menos egoísta toda a gente sairia a ganhar e diz que a solidariedade é fundamental nos tempos que correm. Elogia o papel de cooperação que a câmara mantém com o núcleo, mas lamenta que o mesmo não aconteça com a Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira.

A solidariedade não é um sentimento em vias de extinção e cada vez mais existe a necessidade das pessoas serem solidárias umas com as outras. Se todos fossem menos egoístas e pensassem por um momento mais nos outros do que neles próprios, todos sairiam a ganhar. A certeza é de Maria do Céu Oliveira, 48 anos, a nova presidente dos rotários de Vila Franca de Xira.“Nota-se que está a começar a haver muito mais entreajuda e somos mais solidários na adversidade do que no quotidiano”, revela a mulher que, no final do último ano, foi eleita pelos seus pares para ser a nova presidente daquela associação. É mãe de cinco filhos e tem dois empregos: trabalha na Associação de Promoção Social da Castanheira do Ribatejo a lidar com crianças e é também empresária no ramo da restauração, explorando uma pastelaria e padaria na mesma vila. “Não sou viciada em trabalho mas sou incapaz de estar quieta. Tenho dois empregos sobretudo pela necessidade financeira e para poder dar alguma estabilidade aos meus filhos quando forem para a faculdade. Não fico feliz com um país que nos obriga a ter dois empregos para ter uma vida digna e tenho muito medo do futuro dos meus filhos. Não vejo estabilidade para eles, a mesma estabilidade que nós tivemos quando arranjámos emprego no nosso tempo”, lamenta a O MIRANTE. Maria Oliveira confessa que ter cinco filhos é “uma aventura”. O número gordo nasceu do facto de duas das três gravidezes terem resultado no nascimento de gémeos. “A crise ainda não passou. As pessoas ou não compram por não terem dinheiro ou então estão muito receosas com o futuro. Não abdico da humildade e da vontade de pensar nos outros em primeiro lugar. Hoje em dia isso faz muita falta na sociedade. Ainda somos um pouco egoístas, se fossemos menos egoístas a sociedade seria muito melhor”, conta.Maria Oliveira foi convidada para integrar o Rotary Club de Vila Franca de Xira em 2012, aquando da reactivação do núcleo de Vila Franca de Xira. “Se era para ajudar o próximo aceitei. Sempre gostei de fazer o bem”, conta. Maria foi a responsável por uma ideia pioneira que está entretanto a espalhar-se por outros clubes rotários do país: ir ao serviço de pediatria do Hospital de Vila Franca de Xira todos os anos, na manhã do dia de Natal e da Páscoa, entregar presentes às crianças internadas e dar um bocadinho de calor humano a quem não pode estar em casa. Um evento que o hospital acolheu de braços abertos e que, no último Natal, se voltou a realizar. “Tive essa ideia porque é um dia que marca a família e no próprio dia pouca gente lá vai ao hospital fazer visitas, vão nos dias anteriores. Quando lá vamos estamos a partilhar com eles aquele momento de felicidade. E isso dá-me um imenso prazer”, confessa.Um clube sem segredosOs rotários de Vila Franca de Xira têm desenvolvido ao longo dos anos um conjunto de actividades de apoio à comunidade onde se incluem jantares-palestra, atribuição de bolsas de estudo e distribuição de arroz às redes sociais dos quatro municípios onde estão envolvidos - Vila Franca de Xira, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Benavente. Nos últimos dois anos entregaram mais de 17 toneladas de arroz nos quatro concelhos. Isto além do papel mundial que têm assumido na luta pela vacinação contra a poliomielite.Por se tratar de um grupo reservado e cuja admissão apenas se processa por convite, há quem associe os rotários a uma qualquer sociedade secreta. O facto de um dos fundadores do Rotary, Paul Harris, ter sido maçon, associado aos costumes empregados pelos membros (uso de colares, um sino e um martelo nos jantares dos rotários), têm ajudado à especulação. Mas Maria Oliveira garante que não há nada de secreto nem misterioso naquela associação. “Algumas pessoas vêem os rotários como um grupo de jantaristas. A nossa informação é toda pública e está online no nosso site. Somos um milhão e 200 mil membros em todo o mundo e a única organização não governamental com assento directo e permanente nas Nações Unidas. Quando o Rotary foi fundado a tentativa foi criar um lobby de negócio, onde aquilo que pedimos é bom coração para ajudar o próximo e tempo para dar aos outros”, explica. Maria Oliveira considera que o município de Vila Franca de Xira tem feito um bom trabalho no capítulo social e no apoio aos mais desfavorecidos. Elogia a boa cooperação existente com as câmaras municipais mas lamenta que com a Junta de Vila Franca de Xira, gerida pelo comunista Mário Calado, não haja “assim tanta” cooperação. “Temos mandado algumas notas mas não temos tido grande feedback”, lamenta. Durante este ano os rotários do concelho querem continuar a apoiar socialmente a comunidade e ao mesmo tempo desenvolver várias iniciativas, sendo uma das próximas um conjunto de palestras alusivas a Fernando Pessoa e à portugalidade.Desonestidade e mentira tiram-na do sérioMaria do Céu Oliveira é uma mulher que detesta a desonestidade e a mentira. Nasceu em Lisboa mas veio para o concelho muito nova com os pais, que eram alentejanos mas trabalhavam no concelho de Vila Franca de Xira. Teve ao longo da vida vários negócios de restauração. O seu músico favorito é Tony Carreira, gosta do Sporting e fez no último ano a sua viagem de sonho, à Madeira. Agora quer visitar os Açores. A sua cor favorita é o roxo e à mesa de cabeceira tem uma Bíblia que lê com frequência. “Se tiver algum problema e se abrir em qualquer página reparará que qualquer coisa se adapta a si e ajuda sempre a resolver os problemas”, garante. Vai a pé para casa mas também usa automóvel quando necessário. Costuma comprar tudo o que precisa na Castanheira e o seu maior medo são as guerras. Se tivesse apenas um desejo para usar numa lâmpada mágica escolheria felicidade para os filhos e mais 10 anos de vida saudável para os criar.Plataforma logística foi “um fracasso” Maria Oliveira tem o seu negócio montado em Castanheira do Ribatejo e conhece a dura realidade de uma terra que tem perdido muitos empregos nos últimos anos. Dos despedimentos na Ferro até à Conforlimpa, passando pela promessa nunca concretizada de se criarem mais de 3 mil empregos na plataforma logística. “Os despedimentos quebraram os negócios. Já tivemos muita indústria na Castanheira mas hoje já não é a mesma coisa, notou-se muito os impactos quando algumas fábricas fecharam, houve uma quebra muito grande”, confessa. A responsável não hesita em classificar a plataforma logística como “um fracasso” que não resultou por culpa de mudanças políticas. “Teria sido uma grande mais-valia mas nunca iria funcionar na Castanheira, era grande demais. Esta mudança de políticas fez com que aquilo também não abrisse. E a estação de comboios que ali existe é um perigo, de noite está completamente abandonada”, lamenta. Diz que a Castanheira, terra onde vive actualmente, precisa de um lar de idosos e de melhorar as suas zonas verdes, criando ao mesmo tempo zonas e ocupações para os jovens brincarem. A nova presidente dos rotários diz que Vila Franca de Xira está “morta” e que só é ocupada por lojas dos chineses. “Isso é super desagradável e muito triste, especialmente para alguém como eu, que passou a minha infância lá”, conta. Diz não compreender como se deixou morrer a cidade e confessa que uma forma de dar outro dinamismo era concentrar todos os serviços públicos no Vila Franca Centro, incluindo serviços municipais, tribunal e finanças. 

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