Entrevista | 03-03-2019 07:00

“Abrantes precisa de um centro cultural para reunir todas as artes”

“Abrantes precisa de um centro cultural para reunir todas as artes”
Helena Bandos é uma apaixonada por teatro e por Abrantes

Helena Bandos é encenadora e dirigente do Grupo de Teatro Palha de Abrantes.

O Grupo de Teatro Palha de Abrantes celebrou, em 2018, duas décadas de actividade cultural. Nesta entrevista, Helena Bandos, presidente e encenadora, conta que o grupo vai mudar da cidade para Alferrarede e que esta mudança pode ser positiva para dinamizar a cultura em Alferrarede. Para isso, pretendem já em Março retomar a actividade e criar espectáculos que atraiam o público. Diz que em Abrantes falta um centro cultural onde todas as artes possam conviver. A professora de história confessa que, se mandasse, a sua prioridade para o concelho de Abrantes seria a cultura e lamenta a falta de dinamismo de alguns grupos de teatro do Médio Tejo.

Helena Bandos nasceu em Cabinda, província de Angola, há 79 anos. Veio para Portugal com 13 anos para estudar. Foi viver para Gândara (distrito do Porto) em casa de familiares. Estudou em Guimarães, Braga, e licenciou-se em História na Universidade de Coimbra, onde conheceu o marido, natural de Envendos, concelho de Mação. Deu aulas em Moura e depois em Abrantes, onde ficou efectiva. O casal casou em 1977 e decidiu ficar a viver na cidade abrantina.

Helena Bandos inscreveu-se no Partido Socialista (PS) depois do 25 de Abril de 1974. Foi secretária da mesa da Assembleia Municipal de Abrantes durante dois mandatos. O seu marido, António Bandos, falecido em 1998, foi presidente da Assembleia Municipal de Abrantes durante 17 anos. Tem três filhos e três netos.

Nos tempos livres gosta de ler, cozinhar e ir ao cinema. Sempre que pode vai ao teatro a Lisboa. Os Artistas Unidos são a sua companhia de teatro preferida e o encenador e realizador Jorge Silva Melo é o seu ‘guru’. “Quando quero fazer uma peça de teatro peço-lhe opinião. Vejo também os livros que eles publicam e quando gosto compro. Também gostava muito do Teatro da Cornucópia e é uma pena que tenha acabado”, refere.

“Retrato de mulher árabe que olha o mar” é o título da peça de teatro que anda a ler, ainda não sabe se vai adaptá-la ao seu grupo de teatro. Gosta de discutir as ideias com os actores antes de avançar com a encenação da peça. Eunice Muñoz e João Meireles são dois dos actores que lhe enchem as medidas. “Mon Chéri”, de José Heleno, foi a peça de teatro que lhe deu mais gozo encenar.

Como começou a sua ligação ao teatro?

Quando vim dar aulas para Abrantes, na década de 60, tinha uma turma que queria fazer uma peça de teatro e convidaram-me para ajudá-los. Nunca tinha encenado, nem me passava pela cabeça fazê-lo, apesar de adorar teatro. O projecto correu muito bem e a partir daí fui sempre ajudando nos teatros das escolas. Quando o conselho directivo da escola, já nos anos 80, decidiu criar um grupo de teatro convidaram-me para encenar. Criámos um grupo de teatro na escola que durou 25 anos.

Como começou a sua relação com o Grupo de Teatro Palha de Abrantes?

Antes de me aposentar, sempre pensei que não queria ficar parada. Não tenho feitio para ficar em casa sem fazer nada. Fui desafiada pelo professor José Alves Jana, que tinha fundado a Associação Palha de Abrantes, a avançar com um grupo de teatro na cidade. Conversei com uma colega e decidimos avançar com o grupo. Apareceram 30 pessoas, desde os nove anos até adultos, trabalhámos durante um mês. Dos 30 iniciais ficaram apenas sete. Decidimos montar um espectáculo, “O Velho Ciumento”, de Cervantes. A partir daí começámos a trabalhar mais a sério e estreámo-nos como Grupo de Teatro Palha de Abrantes.

Como surgiu esta paixão pelo teatro?

Quando vim de África para estudar, o meu pai veio comigo e ele era um apaixonado por teatro. Quando chegámos levou-me ao Parque Mayer a ver teatro de revista e gostei muito. Mais tarde, no colégio, havia um grupo de teatro que estava a representar uma peça de Frei Luís de Sousa. Lembro-me de pensar que a minha grande paixão era a encenação, poder colocar pessoas a fazerem as peças de teatro.

Diz que não gosta de representar. Porquê?

A primeira vez que representei foi num curso de Verão e não gostei nada. Na experiência que tive até fiquei com febre antes da estreia. Ficava sempre muito nervosa. No final tremia muito e percebi que estar em cima do palco não é para mim.

O que é que faz falta em Abrantes?

Um centro cultural onde possam estar todas as artes desde a dança, música e teatro. É um espaço que Abrantes infelizmente não tem.

Se mandasse quais seriam as suas prioridades e o que mudava no concelho?

A cultura seria a minha prioridade. Quando aconteceu o 25 de Abril, o concelho de Abrantes não tinha nada, nem água nem luz. Tiveram que se fazer opções e criar todas essas infra-estruturas. Agora que tudo isso está criado, é altura de apostar mais na cultura. Esperemos que o museu que vai ser criado neste local seja de facto um grande centro de cultura que atraia pessoas.

De Abrantes chega-se ao mundo ou os muros estão altos demais para quem vive no Médio Tejo?

Através de Abrantes pode chegar-se ao mundo, porque para chegar a um local não tem que ser apenas fisicamente, podemos voar, a nossa imaginação chega onde quisermos. Os muros podem estar altos mas hão-de ser derrubados sempre. Todas as terras têm caminhos a trilhar e deste modo as perspectivas vão-se abrindo e vai-se ganhando calo. E com calo conseguimos fazer sempre mais.

Empresas podiam

apoiar mais

É fácil recrutar pessoas para o teatro amador?

Já foi mais fácil. Talvez hoje haja mais oferta, mais distracções, sobretudo para os mais jovens. Costumamos fazer workshops todos os anos e não temos dificuldade em trazer as pessoas a experimentar teatro, incluindo os mais novos. Eles gostam de participar e divertem-se mas depois quando é para assumir o compromisso de ensaiar todas as semanas retraem-se. Os adultos também vêm mas alguns desistem porque a vida é agitada e nem sempre sobra tempo para fazer teatro. É preciso gostar muito disto.

Recebem subsídio por parte da câmara municipal?

Sim. Apresentamos o orçamento e recebemos o valor. Se gastarmos menos do valor que apresentamos em orçamento devolvemos o que sobra.

O subsídio da câmara é suficiente?

Até agora tem sido. A bilheteira também ajuda a pagar os espectáculos. Mas tivemos sempre o apoio da câmara municipal.

Os actores podem ganhar algum dinheiro ou é sempre tudo à borla?

Não, coitadinhos (risos). São mesmo amadores, representam mesmo por amor ao teatro.

Já pensou em criar uma companhia profissional de teatro?

Para isso teríamos que ser um grupo residente e nunca surgiu essa possibilidade porque andamos sempre de um lado para o outro. Para sermos grupo profissional teríamos que ter outras condições e outro estatuto, que não temos.

Quem depende dos subsídios estatais tem que ser subserviente a quem dá esses apoios?

Quando nos subsidiam é porque merecemos e o Estado não faz mais do que a sua obrigação senão apoiar a cultura. Há um problema na região de Abrantes que é o facto das nossas empresas ainda não terem percebido que ao apoiarem a cultura estão a beneficiar a sua zona.

O facto da vossa nova casa ser em Alferrarede vai prejudicar-vos?

O centro de Abrantes já tem pouca gente, o grosso da população está nos arredores da cidade, por isso acho que Alferrarede não nos vai prejudicar. Acredito que vai ser uma mudança positiva.

A vossa programação para o primeiro trimestre de 2019 teve que ser cancelada por causa da mudança de espaço. O vosso trabalho fica comprometido?

As peças que temos em andamento vão continuar. Março é o mês do teatro e essa vai ser uma oportunidade para fazermos pelo menos dois ou três espectáculos no nosso novo espaço. Convidar alguns grupos amigos a trabalharem connosco. Temos que criar um chamariz que atraia os espectadores a virem ao teatro.

As pessoas ainda se interessam pelo movimento associativo?

O concelho de Abrantes tem muitas associações, mais de uma centena, e as pessoas interessam-se e gostam de participar. O movimento associativo em Abrantes continua vivo.

“Há falta de dinamismo no teatro amador do Médio Tejo”

Helena Bandos gostava de trabalhar com mais grupos da região para reforçar o papel cultural das companhias de teatro.

O Grupo de Teatro Palha de Abrantes organizou no ano passado o primeiro Fórum de Teatro Amador do Médio Tejo com o objectivo de reflectir sobre a realidade regional dos grupos de teatro amador. A presidente e encenadora do Grupo de Teatro Palha de Abrantes (GTPA), Helena Bandos, conta a O MIRANTE que convidaram cerca de 30 grupos de teatro para participarem, sendo que apenas oito responderam ao convite e quatro marcaram presença.
“Isto explica bem que nem todos os grupos têm o mesmo dinamismo. Alguns só funcionam quando a sua câmara municipal lhes pede uma peça. Existem grupos na zona do Médio Tejo que trabalham muito bem e têm muita actividade mas a maioria não é assim. Falta dinamismo e isso depende das pessoas que estão à frente das associações e colectividades”, lamenta. A encenadora deixou o repto de se organizar um grande festival de teatro do Médio Tejo, que só será possível se houver interesse por parte de todos.
O GTPA, que celebrou duas décadas de actividade em 2018, anda com a ‘casa às costas’ porque vai ter que sair da actual sede, um espaço contíguo ao Edifício Carneiro, junto ao Castelo de Abrantes, uma vez que vai ser transformado no Museu de Arte Contemporânea Charters d’Almeida. A nova sede do GTPA vai ser na antiga escola primária de Alferrarede.
A dirigente encara esta mudança, ao fim de cinco anos no mesmo espaço, como uma oportunidade de dinamizar a zona de Alferrarede que, diz, não tem qualquer actividade cultural. “A câmara municipal deu-nos dois espaços para escolher mas achamos que este seria o mais apropriado e com melhores condições. Esta mudança também é transitória mas se correr bem pode tornar-se definitiva”, diz.
A programação cultural teve que ser interrompida durante o primeiro trimestre deste ano devido à mudança de instalações mas o GTPA pretende retomar, já no início de Março, as três peças que tinham em cena: “O Aniversário”, de Spiro Scimone; “A Partilha”, de Miguel Falabella; e o monólogo “A Voz Humana”, de Jean Cocteau.
“Tenho uma peça em mente que vamos começar a trabalhar nela assim que estejamos instalados no novo espaço. Além disso, também temos um projecto de teatro de fantoches para os mais jovens”, conta. O grupo conta actualmente com cerca de duas dezenas de elementos, entre os dez e os 45 anos.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1341
    19-09-2019
    Capa Vale Tejo
    Edição nº 1341
    19-09-2019
    Capa Médio Tejo