Entrevista | 28-05-2019 18:00

“Não sou capaz de olhar para alguém que precise de ajuda e não fazer nada”

“Não sou capaz de olhar para alguém que precise de ajuda e não fazer nada”
TRÊS DIMENSÕES

Vítor Lourenço, 69 anos, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Azambuja.

Vítor Lourenço nasceu e vive em Azambuja. Depois do serviço militar, parte do qual passado em Moçambique, trabalhou nas Finanças. Foi chefe de finanças em Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço e Queluz e posteriormente trabalhou no gabinete de auditoria interna da antiga Direcção Geral dos Impostos. Todos os dias gosta de ler o Diário da República e confessa-se apaixonado pelo Direito Fiscal. É Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Azambuja desde Janeiro e diz-se um homem optimista e de fé.

Se não ler o Diário da República todos os dias sinto-me incompleto. Continuo a estudar e sou um apaixonado pelo Direito Fiscal e pela actividade profissional que exerci. Quando leio dou especial atenção ao mundo das finanças e agora por força destas funções também dou importância ao mundo do trabalho e ao sector social. Não me aborrece a reforma.

Uma licenciatura é importante para iniciar qualquer função. O que atingi ao longo de uma carreira podia ter atingido mais cedo se tivesse uma licenciatura. Acabei por fazer carreira dentro da autoridade tributária num espírito absoluto de auto-didactismo. Procuro encarar o futuro com optimismo e face aos problemas acredito que é possível encontrar soluções. Não sou um conformista.

Ser Provedor da Misericórdia é um desafio constante e estou consciente da responsabilidade do cargo. A Misericórdia acolhe 49 idosos e dá apoio domiciliário a 16 utentes. Também tem a seu cargo 340 crianças. Tem ainda uma valência de cantina social onde dá apoio a duas famílias e apoia outras 60 famílias que têm no total 147 membros. Ajudar os idosos e as crianças é extremamente gratificante.

Por vezes levo para casa alguns problemas que me tiram o sono. Lidar com 107 trabalhadores diariamente é um desafio grande mas também muito gratificante. Somos um país pequeno e um Estado que tem as suas limitações financeiras. E as instituições em boa hora nasceram para complementar a responsabilidade do Estado. Ele não tem capacidade para resolver tudo e nós temos esse papel de complementaridade. Um dos pilares destas instituições é o voluntariado. Se não fosse isso as coisas tornar-se-iam mais difíceis.

Não gosto de dar passos maiores que a perna. Estamos conscientes das nossas limitações e elas muitas vezes impedem-nos de ter uma visão mais virada para o futuro. A nossa preocupação fundamental é ajudar quem precisa. Estar na Misericórdia é servir com amor. Temos uma vertente canónica que nos impele para termos uma doutrina social cristã e é isso que nos move no sentido de compreender melhor a necessidade das pessoas e criar condições para ter uma resposta mais imediata à procura que temos.

Não sou capaz de olhar para alguém que precise de ajuda e não fazer nada. Ajudar quem precisa é uma forma de estar. Costumo assistir ao jantar dos idosos para eles me verem e sentirem que estou com eles. Sinto que lhes agrada saber que há alguém que compreende as suas dificuldades. E torna-me imensamente feliz saber que estou a ajudar.

Vivemos numa sociedade de risco. Colide comigo e os meus valores a falta de confiança entre as pessoas. A falta de ética e de compreensão. Sempre fui acusado de ser extremamente legalista mas para mim a lei é algo que se deve respeitar permanentemente. O carácter das pessoas é determinante para o bem estar da sociedade. Temos de transmitir confiança e credibilidade a todos os que nos rodeiam. Entristece-me profundamente quando esses valores são violados.

Sou do Sporting mas não sofro pelo futebol. Sempre que ele joga e ganha sinto-me satisfeito mas não tenho um ataque cardíaco se ele perde. Gosto muito de jogar à sueca e conviver com os meus amigos. Ainda não fiz a minha viagem de sonho mas um sítio onde gostava de voltar era a Moçambique, onde estive durante a guerra.

A última vez que fui ao cinema deve ter sido há dois anos. Gosto muito de cinema mas hoje a TV oferece-nos tanta coisa que o tempo não dá para tudo. Sou um pouco comodista e gosto muito da minha casa e do sofá.

Já me aconteceu pedirem-me ajuda num café. Muitas vezes sou confrontado com pessoas que me conhecem desde miúdo que me pedem ajuda para algumas situações. Nunca deixo de dar uma reposta às pessoas e transmitir uma palavra de confiança. Sou optimista por natureza. Acredito que os problemas têm sempre solução. Pode não ser imediata mas há sempre caminhos a tomar para que ela aconteça. Às vezes é um passo de fé, temos de acreditar e ter paciência que no passo seguinte a solução se concretiza.

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