Entrevista | 10-08-2019 18:00

João Moura diz que o distrito de Santarém é demasiado socialista

João Moura diz que o distrito de Santarém é demasiado socialista
ENTREVISTA COMPLETA

O líder da distrital do PSD de Santarém foi preterido como cabeça-de-lista às legislativas e aceitou descer a número dois, dando o lugar a Isaura Morais.

Mas fez uma batalha para defender o advogado de Santarém, Ramiro Matos, para evitar a entrada na lista de Duarte Marques, por quem não tem grande admiração política pelo facto de não gostar do estilo dele, de falar de tudo e ser popular. João Moura será certamente eleito deputado e vai defender na Assembleia da República um aeroporto em Tancos, uma estratégia turística na região que aproveite Fátima e sobretudo uma reorganização administrativa, que junte Lezíria, Médio Tejo e Oeste. Nesta entrevista diz que a Comunidade Intermunicipal não funciona e que um dos problemas do distrito de Santarém é ter demasiado socialismo.

O seu currículo diz que é administrador de empresas. O que é que faz exactamente?

Tenho uma empresa de engenharia, uma sociedade familiar que tem dez técnicos, entre engenheiros, arquitectos e financeiros.

Sabe-se pouco do que o João Moura faz. É uma estratégia?

Parte da minha vida é ocupada por actividades não remuneradas. Isso é possível porque tenho uma estrutura montada. Tenho as minhas funções na minha empresa e a minha mulher é o braçodireito, o braço esquerdo e é a alma da empresa.

Então e o que é que já fez na vida para além de administrar?

A minha actividade profissional começou em Coimbra, fui técnico agrário do Baixo Mondego. Fui administrador de um grupo empresarial. Mas o maior percurso da minha vida foi na área da docência. Dei aulas em quase todos os estabelecimentos de ensino de Ourém. Fui vereador, depois fui deputado e chefe de gabinete do presidente de Câmara de Ourém. Depois fundei a minha empresa, que tem uma sucursal em Moçambique.

Não convém fazer contratos com o Estado…

Não faço e é muito raro haver contratos com o Estado. Sou sócio-gerente da minha empresa, mas suspenderei essa função com alguma facilidade no momento em que assumir as minhas funções como deputado, às quais me dedicarei em exclusividade.

Como é que vê o facto de familiares de governantes terem negócios com o Estado?

O meu pai foi vereador e nunca tive qualquer tipo de benefício na minha carreira. Haver familiares, parentes próximos, que ocupam os lugares porque são familiares, ou que têm um ajuste directo porque têm uma proximidade a um elemento do partido é vergonhoso. Isso é gozar com os cidadãos e com aqueles que trabalham. Eu se tivesse uma empresa na área dos brindes publicitários ou nos têxteis ficaria chocado ao ver que outros concorrentes estão a entrar no meu mercado só porque têm uma via verde especial.

Há uma ideia sobre si de que se tenta esconder.

Toda a gente tem direito ao seu ninho, ao seu cantinho familiar. Mas a minha família até me acompanha em momentos públicos. Mas não escondo que, por exemplo, sou da mesa administrativa da Misericórdia de Leiria. Faço parte da direcção nacional das assembleias municipais que me vai ocupando muito tempo. Depois tenho umas paixões privadas, como os cavalos.

Reconhece que não é muito bem visto por alguns colegas do seu partido?

Sou uma pessoa que consigo transmitir alguns extremos. Há uns que gostam muito e uns que não gostam nada, mas isso se calhar vai da forma de ser, de romper com algumas práticas e dizer aquilo que penso.

“GOSTAVA DE SER PRESIDENTE DE CÂMARA”

Está a preparar-se para tentar ser presidente da Câmara de Ourém?

Um dia gostava de ser presidente da câmara. Tenho um largo percurso autárquico em Ourém. É a segunda vez que venço a assembleia municipal. A primeira foi pervertida e foi a pior sessão política que tive na minha vida, porque fui presidente por poucos minutos. Tinha ganho as eleições, mas depois como a maioria dos presidentes das juntas de freguesia, que têm assento por inerência do cargo, não eram do PSD, perverteram o resultado e elegeram outro presidente.

Sentiu-se frustrado?

Tive mais votos que o próprio Paulo Fonseca para a câmara. As pessoas votaram para que a assembleia fosse do PSD e a câmara do PS. Foi frustrante porque na rua, as pessoas diziam não ter percebido como é que tinha ganho o lugar e não era presidente.

O PSD reconquistou a câmara. Tem um presidente de câmara forte para evitar uma vitória do PS?

Ele está a fazer um excelente trabalho. Confesso que superou as expectativas das pessoas que o conheciam.

O PSD ganhou num cenário em que o presidente Paulo Fonseca foi impedido de se candidatar por estar insolvente. Como é que viu essas eleições?

Foi um processo com várias novelas, mas estou convencido que, independentemente disso, o PSD estava determinado e com condições. Mas quando o adversário está mais fragilizado as coisas tornam-se mais fáceis.

Cabeça-de-lista ou número dois, quem vale mais votos?

Não conseguiu evitar que Duarte Marques ficasse fora da lista por Santarém. O João Moura tem pouco poder no partido?

A ideia não era evitar que alguém fosse, era quais seriam os melhores para ocupar os lugares. A lista tem nove elementos, só um é que não foi escolhido por mim, pela minha comissão política distrital.

Mas também não foi aceite como cabeça-de-lista pela nacional do partido.

Achei em termos eleitorais que eu era o melhor para o partido. Mas respeito a escolha de Isaura Morais. Estamos a falar de uma presidente de câmara que representa quatro mil votos ou um presidente da assembleia municipal que representa doze mil.

E acha que o Ramiro Matos representava mais votos que o Duarte Marques?

O Ramiro Matos ia surpreender muita gente pela positiva, é uma pessoa com grande capacidade. O partido e o país perderam um excelente parlamentar, mas há outras oportunidades.

Porque é que não gosta do Duarte Marques?

Estamos a falar de questões políticas. O Duarte Marques tem um enorme potencial, mas acho que lhe falta muita experiência de vida, do que é a vida profissional. Duarte Marques tirou o seu curso com mérito, foi um aluno brilhante. Falta-lhe um bocadinho de experiência no privado, no mundo empresarial.

O FENÓMENO AGUINCHA

Concorda que Isilda Aguincha tenha abandonado a lista por causa da interferência da nacional?

Possivelmente foi mais um fenómeno do Entroncamento que não consigo justificar. Até ao último momento de validação das listas estava tudo sereno. Até que sou abordado pela comunicação social, não foi sequer pela própria, que me disse que havia um elemento da lista de Santarém que queria sair.

Isto é uma atitude que prejudica a imagem da distrital?

As pessoas são livres de entrar e sair. Pelos vistos aquela pessoa, vim a saber depois, tentou que no momento da última reunião alguém puxasse por ela para a subir na lista. Não conseguiu. Respeito e seja feita a sua vontade, por isso temos suplentes.

Em termos de visibilidade política tem condições para ombrear com Duarte Marques no Parlamento?

Não tenho de ombrear com ninguém. O Duarte Marques tem claramente uma boa comunicação social. A nossa maior diferença é que eu não falo de tudo e mais de um par de botas e principalmente de coisas que não sei.

Uma nova reorganização do distrito e o Eco Parque do Relvão

O que é que gostava de ver decidido para benefício da região?

Uma reorganização administrativa. Este distrito terá que reorganizar-se de uma forma diferente. Já fiz uma reunião com o PS e a ideia é criar uma NUT2, uma nova comissão de coordenação e desenvolvimento regional com três comunidades intermunicipais: a da Lezíria, a do Médio Tejo e a do Oeste.

E qual é a vantagem?

Não termos de andar a sentir que somos o quintal de Lisboa, o jardim que os Lisboetas gostam de ir passear ao fim-de-semana. Não termos de andar dependentes do Alentejo e do Centro para termos fundos comunitários.

E a falta de acessibilidades ao Eco Parque do Relvão na Chamusca?

É das maiores injustiças de Portugal. Construíram um parque de resíduos de toda a natureza, perigosos, contaminantes, hospitalares, tudo. Isso está também a ter consequências em termos ambientais. Já viu a quantidade de moscas diferentes na Chamusca? Isto é assustador.

Acredita que seja feita nos próximos anos uma ponte na Chamusca e o IC3 para servir o parque?

Estou crente que não, porque quando falo com as pessoas vejo-as muito impávidas e serenas. Eu se morasse na Chamusca já tinha feito uma manifestação. Se morasse na Chamusca já tinha saído à rua há muito tempo.

E cortava a estrada?

Por exemplo. É inadmissível que se cruze numa ponte apertada um camião carregado de tomate, com um camião carregado de seringas.

Falta aproveitamento de Fátima e aeroporto em Tancos

A região tem tirado partido do potencial turístico de Fátima?

Fátima, com o apoio do município e da associação de comerciantes, organiza um dos melhores congressos de turismo de Portugal, destinado a compradores do mundo inteiro. O município da Guarda associou-se por causa do turismo religioso judaico. Temos o turismo templário em Tomar, mas nem a câmara nem a comunidade intermunicipal quiseram saber.

Há uma inabilidade dos políticos da região?

Há uma falta de estratégia de desenvolvimento regional. Tinha alguma esperança que a secretária de Estado Maria do Céu Albuquerque pudesse valorizar este processo, mas ainda não falou nele até hoje, que é a questão de Tancos.

Ficou praticamente sozinho numa conferência para defender o aeroporto de Tancos.

Não fiquei sozinho. Sei onde quer chegar e esses falharam e os principais agentes disto tudo. Vejo os autarcas de Leiria, de Pombal ou Coimbra a defenderem um aeroporto em Monte Real. E não vejo isso nos autarcas da minha região, sejam do PSD, mas principalmente do PS. Uma das principais lacunas do distrito de Santarém é ter demasiado socialismo.

Porque é que Tancos é assim tão importante?

Não sou nenhum especialista em aeronáutica, mas custa-me ver um Estado que tem os recursos e não os utiliza.

O seu presidente de câmara, Luís Albuquerque, também defende Monte Real.

Ele defendia uma coisa que era boa para o seu município, porque a pista de Monte Real está mais próxima de Fátima. Para as pretensões do meu município, Monte Real serve. Agora para a estratégia nacional e para o desenvolvimento da minha região é melhor Tancos.

Porque é que não conseguiu convencer outras figuras para esta causa?

Porque acho que nos falta aqui um bocadinho de visão regional, cada um puxa para o seu umbigo. Tancos pode ser um terminal aéreo de mercadorias, em conjugação com o terminal de Riachos, que é um dos principais terminais de contentores de Portugal. O distrito é forte nas agro-indústrias e os produtos frescos para serem exportados precisam de ir de avião.

Fátima só é conhecida pelo Santuário?

É um dos pólos dinâmicos empresariais em Portugal, da indústria de ferro e da indústria da extracção de matéria mineral. Tem das maiores pedreiras de extracção de inertes, do maciço calcário.

Quando chegar a deputado vai pôr Fátima na sua agenda.

A defesa do turismo religioso tem de ser feita porque é uma realidade e é uma estupidez se, por preconceito, o esquecermos.

Comunidade intermunicipal não funciona

Os políticos e as pessoas de Ourém têm mais ligação a Leiria. O que tem feito para reforçar a ligação a Santarém?

Ourém tem mais ligação a Leiria porque está a vinte quilómetros dessa cidade. Parte do concelho de Leira faz fronteira com parte do concelho de Ourém. Mas a grande proximidade que Ourém tem, em termos políticos e estratégicos, é com o Médio Tejo. Mas esta região tem de perceber isso também.

Ourém sente-se esquecido pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo?

Ourém é o segundo concelho mais populoso do distrito de Santarém. Há três anos, a então câmara socialista anunciou que os utentes de Ourém passariam a ser servidos pelo Hospital de Leiria. Entupiram os serviços, que já por si estavam entupidos. E o Médio Tejo foi apostar numa urgência no sítio mais longe de Ourém, em Abrantes, com a influência da então presidente da Câmara de Abrantes e da Comunidade Intermunicipal.

Maria do Céu Albuquerque não pensou nos interesses da região enquanto presidente da Comunidade Intermunicipal?

Falhou muito nessa perspectiva e eu disse-lhe isto nas assembleias intermunicipais. Exemplo disso foi o facto de ter motivado os municípios para um projecto intermunicipal de gestão do saneamento, água e recolha de resíduos e, quando tudo estava montado, saltou fora.

Ourém não conta para o Médio Tejo?

Fiz uma visita ao Politécnico de Tomar e disseram que a estratégia do instituto passava pelo triângulo: Tomar-Abrantes-Torres Novas. Não se está a contar com o principal fornecedor de jovens, que é Ourém.

Teria sido melhor Ourém ter entrado na constituição de uma área metropolitana com Leiria?

O melhor é criar algo que está instituído, mas que funcione.

A comunidade intermunicipal não funciona?

Não funciona, serve para despacho. Os deputados intermunicipais vão às sessões, basicamente, discutir política, que podia ser discutida no café. As reuniões têm poucos ou nenhuns efeitos práticos.

Ainda andamos a pagar dívidas da campanha de Moita Flores

Teve um desentendimento com Moita Flores quando este era presidente de câmara e o comparou a um manhoso, lembra-se?

Foi numas eleições para a distrital em que concorria contra Vasco Cunha que ele apoiava. Ele nem me conhecia, não era militante do PSD, não fazia parte da estrutura. Hoje por acaso até me dava algum gozo fazer comentários, mas não o iria rotular com nenhuma das figuras tristes da história de Portugal, quando o vejo com alguns problemas na justiça.

Foi um exemplo de mau exercício do poder local para Santarém?

O perigo destas pessoas que vêm como os grandes filósofos é que não têm contenção na torneira e é gastar dinheiro até não haver mais, para fazer grandes alegorias à volta de coisas que depois bem espremidas dão em coisa nenhuma.

Então está satisfeito por se ter visto livre dele na política regional.

Ainda hoje a comissão política do PSD tem problemas com ele, porque deixou dívidas de campanha. Ainda ando a pagar dívidas de campanha dele, ao fim de dez anos.

Não sabiam dos gastos com a campanha?

Claro que não. Algumas dessas dívidas nem deviam ser cobradas ao partido, porque ele as fez em nome sabe-se lá de quem, sem autorização do partido.

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