Entrevista | 07-09-2019 18:00

Ando na política para fazer o que prometemos: proximidade e dedicação

Ando na política para fazer o que prometemos: proximidade e dedicação
ENTREVISTA

Elvira Sequeira está no segundo mandato como vereadora em Torres Novas.

Licenciada em Filosofia e professora de profissão, Elvira Sequeira gosta muito de dar aulas mas também se sente muito bem como vereadora da Câmara de Torres Novas. Com os pelouros da cultura, desporto, associativismo e o Teatro Virgínia, não faz planos para o futuro e diz que vai agarrando as oportunidades que lhe surgem.

Atarefada entre telefonemas por causa da final nacional da Supertaça de Futsal, um jogo de alto risco entre Benfica e Sporting, que se realizou no Palácio dos Desportos, em Torres Novas, a 30 de Agosto (dois dias depois desta entrevista), Elvira Sequeira recebeu O MIRANTE numa esplanada da Praça 5 de Outubro, no centro histórico da cidade. A cumprir o segundo mandato como vereadora na Câmara de Torres Novas, presidida pelo socialista Pedro Ferreira, a autarca de 51 anos confessa que tem a seu cargo as áreas que mais gosta: cultura, desporto, associativismo e o Teatro Virgínia.

Como entrou para a política?

Fui abordada pelo anterior presidente, António Rodrigues através da vereadora Manuela Pinheiro. Convidaram-me para fazer parte da lista às autárquicas de 2009. Estava na sexta posição e entraram cinco. Na lista seguinte, já com Pedro Ferreira, entrei como a primeira mulher e fui eleita vereadora. No primeiro mandato tive muitos pelouros e com a saída do vereador Paulo Tojo ainda acumulei o pelouro da Higiene e Saúde Pública. Foi muito desgastante.

É mais fácil aturar a oposição numa reunião de câmara ou os alunos numa sala de aula?

Os alunos numa sala de aula. Têm uma abertura diferente. Gosto de fomentar o espírito crítico e fi-lo muitas vezes durante as aulas, mas nas reuniões de câmara as pessoas já têm esse espírito crítico e o seu uso depende da forma como cada um se exprime. Pode haver um ou outro vereador da oposição mais exaustivo a apresentar as suas ideias.

Gostaria de voltar a leccionar ou prefere a política?

Nunca fui saudosista de nada. Faço sempre o que estou a fazer com gosto e com paixão. Adorava ensinar mas também gosto muito do que estou a fazer. Vou agarrando as oportunidades que me surgem.

A actividade política roubou-lhe o tempo para a vida familiar?

Como qualquer mulher faço a gestão do tempo da melhor forma. Tenho tempo para estar com a minha neta praticamente todos os dias. Páro o que estiver a fazer e ajudo os meus filhos, se precisarem de mim. Praticar desporto é que tem ficado um pouco para trás. Mesmo assim de vez em quando ainda tento ir ao paddle.

Como se prepara para percorrer tantas feiras e festas do concelho?

Quem corre por gosto não cansa, o ditado é velho. Sei que as pessoas que se dedicam ao associativismo e que fazem estas festas e eventos culturais e desportivos que acontecem nas aldeias necessitam do meu apoio. Marcar presença é uma forma de reconhecimento pelo trabalho deles.

Normalmente isso acaba habitualmente por suscitar comentários, nomeadamente nas redes sociais.

Criticavam-me no início do mandato por passar a vida a saltar de festa em festa, que devia ser mais selectiva. Qual é a diferença entre uma colectividade grande e uma pequena? Tenho que valorizar as pessoas que lá estão. Aliás, foi esse o slogan da campanha de Pedro Ferreira: “Proximidade e Dedicação”. Estou lá e depois ponho no Facebook, que é para isso que ele serve, para divulgar o que se faz.

Concorda com alguns investimentos, que alguns consideraram megalómanos, do tempo do anterior presidente, António Rodrigues?

Concordo, alterou a fisionomia da cidade. Deu oportunidade para as pessoas poderem ficar por cá. Hoje temos um Palácio dos Desportos a abarrotar de utilização, temos um Jardim das Rosas que é um local aprazível. São investimentos que mudaram a cidade para melhor.

Compensou depauperar as finanças da autarquia para ficar obra feita?

Foram bons investimentos e continuamos a fazê-los. Houve tempos complicados em que ficámos a pagar a dívida, mas a obra está feita.

Imagina-se a suceder a Pedro Ferreira num futuro mandato?

(Risos) Vivo um dia de cada vez. Às vezes fala-se nisso, há gente que gosta de brincar. Na política já aprendi que as coisas nem sempre são lineares, temos que dar o nosso melhor enquanto cá estamos. Não estou agarrada a um cargo. Não sei qual o futuro, pode aparecer uma oportunidade que me agrade mais. Imagine que me convidavam para as Nações Unidas? Iria ponderar... Alguém me disse há uns tempos que não podia fazer só aquilo que gosto, ao que retorqui que faço só aquilo que gosto, enquanto puder.

Assumir a programação do Teatro Virgínia para resolver um problema

Actualmente tem os pelouros da cultura, do desporto e do associativismo. São as áreas em que se sente mais à vontade?

São as áreas que me dizem mais, em que posso lidar directamente com as pessoas. Não sou de ficar sentada a uma secretária num gabinete. Quatro anos é pouco tempo para concluir projectos. Fiquei com alguns trabalhos por fazer nessas áreas e estou a dar-lhes continuidade.

Como define Torres Novas em termos de cultura?

Sem modéstia, somos culturalmente uma das cidades mais activas do distrito. Não digo que não se faça nada nos outros concelhos, faz-se, mas ninguém tem um teatro como o Virgínia. Todas as semanas temos eventos, sejam lançamentos de livros, exposições, música ou dança. No teatro temos três grupos ligados ao Virgínia e ainda temos o Teatro da Meia Via, o Teatro Experimental de Riachos e o Fatias de Cá (núcleo de Torres Novas, na Brogueira).

E quanto ao desporto? Vários desportistas de clubes torrejanos têm dado nas vistas com excelentes resultados a nível nacional. Foram-lhes dadas condições para isso ou é mérito pessoal?

É claro que sem condições para treino os atletas não se podem desenvolver. Temos uma boa piscina e isso tem potenciado os bons resultados do Clube de Natação e da sua Escola de Triatlo. Claro que os bons resultados também se prendem com o investimento das pessoas que representam os clubes e que nós apoiamos com acesso gratuito aos equipamentos e algum apoio financeiro. Por exemplo, para os atletas de alto rendimento criámos um subsídio de três mil euros anuais que ajuda a suportar as despesas de treinos e deslocações ao estrangeiro.

O que é que ainda não conseguiu implementar para melhorar essas áreas?

Em termos de cultura estamos a trabalhar numa Bienal de Arte. Para o desporto, além de uma pista de atletismo, falta concluir o pavilhão dos Riachos e uma piscina de exterior na cidade. Tenho também como objectivo criar mais estruturas informais de desporto que fomentem a prática desportiva. Como, por exemplo, tabelas de basquetebol espalhadas pela cidade.

A saída do programador do Teatro Virgínia, Rui Sena, causou alguma celeuma. Como está a correr a nova forma de programar?

Tenho tido boa recepção à programação que preparei para os últimos três meses do ano. Já há bastantes bilhetes vendidos. Vivo cá e estou cá desde sempre, talvez tenha isso como vantagem em relação ao Rui. Apercebo-me do gosto das pessoas. Tento chegar ao público que já é fiel ao teatro e à dança, mas também àqueles que não têm por hábito vir ao teatro e aos jovens. Temos um equipamento de excelência e é preciso que as pessoas se apercebam que podem ver um bom espectáculo em Torres Novas sem ter que ir a Lisboa.

É uma área que não dominava...

O que aprendi foi com o Rui. Trabalhava com ele directamente e ele dava-me opinião. Percebi como se faz a programação de um teatro como o nosso. Deu-me lições, não me importo de o dizer. Mas não é de todo o que quero fazer. Estamos a preparar o concurso para director artístico. Não sou directora artística, sou programadora. Estou apenas a resolver um problema.

Um colégio de freiras trouxe-a para o Ribatejo

Elvira Sequeira nasceu no Lobito, em Angola, e orgulha-se da sua cor e do seu sangue, onde corre uma mistura entre o Oriente e África. Tinha sete anos quando chegou a Lisboa e ali ficou até terminar a terceira classe. Depois foi para Abrantes, o local mais perto de Lisboa onde os pais conseguiram vaga num colégio de freiras para si e para as duas irmãs. Quando acabou o nono ano as freiras sugeriram que seguisse para o Colégio São José de Cluny, em Torres Novas. E assim seguiu sozinha para a cidade onde ainda hoje vive.

Licenciou-se em Filosofia na Universidade Católica, em Lisboa, deu aulas no Entroncamento, na Chamusca e em Alcanena. Foi presidente da associação de pais das escolas básica nº 1 e Secundária Maria Lamas, de Torres Novas, e vice-presidente do Centro Social de Bem-Estar da Zona Alta. Em adolescente quis ser freira missionária e ir para outros países ajudar. Chegou a inscrever-se na ONU e como adida cultural. Depois veio o casamento, os filhos, a neta e a política.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1419
    05-09-2019
    Capa Vale Tejo
    Edição nº 1419
    05-09-2019
    Capa Médio Tejo