Entrevista | 07-09-2019 15:00

Não há discriminação sexual se homens e mulheres souberem pôr-se no seu lugar

Não há discriminação sexual se homens e mulheres souberem pôr-se no seu lugar

Dia Internacional da Igualdade Feminina foi celebrado a 26 de Agosto.

O MIRANTE falou com a directora-geral da Fundação Luiza Andaluz, em Santarém, que há quase um século acolhe crianças do sexo feminino abandonadas ou oriundas de famílias desestruturadas. Quisemos saber como se preparam estas raparigas para enfrentar o mundo onde a igualdade de géneros não é um dado adquirido.

A irmã Cristina Pereira tem 46 anos e está a fazer um ano que chegou à Fundação Luiza Andaluz, onde ocupa o cargo de directora-geral. Confessa que não é uma experiência fácil mas quando é enviada aprende a gostar das missões e empenha-se na totalidade.

A fundação nasceu há 94 anos, pela mão da madre Luiza Andaluz, uma escalabitana que começou por acolher meninas na sua própria casa na altura da gripe pneumónica e fez nascer a instituição que hoje acolhe 16 raparigas entre os cinco e os 23 anos num edifício no centro histórico da cidade.

Quando foi criada a instituição tinha como objectivo acolher meninas órfãs. Ao longo dos anos foi sofrendo alterações e hoje é um lar de acolhimento de raparigas que para ali são enviadas pelo Tribunal, pela Segurança Social e pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ). “Muitas delas têm pais e têm contacto com os pais, mas o motivo que as trouxe a esta casa foi o não estarem reunidas as condições que lhes permitissem crescer em harmonia junto do seu agregado familiar”, explica a irmã Cristina.

Algumas têm ali uma estadia breve e rapidamente regressam às suas famílias, outras permanecem por mais tempo. Quando atingem os 18 anos as jovens podem sair, mas se não estiverem reunidas as condições para a sua autonomia, podem solicitar a permanência. Os 14 funcionários da casa, maioritariamente mulheres, garantem cobertura 24 sobre 24 horas.

“Tentamos funcionar como uma família. As crianças ou jovens são integradas nas diversas actividades. As mais jovens vão para o infantário e as mais velhas para as várias escolas da cidade. De acordo com os seus interesses e as suas aptidões”, conta-nos a directora-geral, acrescentando que para além da escola há outros interesses que elas têm e que lhes são facilitados.

Como uma família, por vezes têm a difícil tarefa de as levar às várias actividades: coro, futsal, viola, canto, catequese. Houve uma jovem que chegou a frequentar o râguebi. “Manifestou algum interesse e nós anuímos, dada a sua problemática pareceu-nos que lhe faria bem para extravasar energia”, diz.

Cada actividade é uma mais valia para que ganhem competências e autonomia e saibam relacionar-se em sociedade. Muitas das actividades desenvolvidas no lar têm o apoio de empresas e instituições da região. Cristina dá o exemplo do projecto de ecologia que desenvolveram em parceria com a Resitejo ao longo do último ano lectivo. “Convidamos pessoas para virem aqui falar do assunto e intensificámos o número de ecopontos para que elas separem os próprios lixos”, afirma Cristina, rematando que para este mês está agendada uma visita às instalações da empresa. Outro exemplo é uma parceria com o Centro de Saúde, que levou uma enfermeira à instituição para falar sobre doenças sexualmente transmissíveis.

Estas casas são sempre um mal menor

Cristina Pereira realça que o objectivo da instituição é ser um lar transitório e que as raparigas saiam da casa com sucesso. Nem sempre saem para as famílias, por vezes são encaminhadas para outras instituições. “Não somos uma comunidade terapêutica, quando, por exemplo, nos surge um caso de uma jovem que consome drogas tentamos, por justiça com a própria jovem, procurar ajuda adequada noutra instituição”, explica.

A directora-geral reconhece que por vezes há situações difíceis potenciadas pelo estado de sofrimento das crianças e jovens. “São meninas muito marcadas e isso por vezes afecta as suas relações sociais”. Também reconhece que podem acontecer episódios de preconceito da sociedade. “Uma vez ou outra, quando acontece algum problema uma menina institucionalizada pode ser logo apontada. Há sempre algum estigma”.

A institucionalização acontece por diversos motivos. A violência doméstica e os abusos sexuais tendem a prevalecer, mas também há casos de incapacidade dos progenitores em controlarem os comportamentos dos filhos. “Chegam-nos adolescentes de 13, 14 anos com uma série de experiências de vida muito complexas. Tentamos ser o seu porto seguro e a sua família, mas sabemos que somos uma situação transitória. Estas casas, na minha perspectiva, são sempre um mal menor. Não somos a família delas, fazemos um esforço e uns ensaios”, afirma Cristina, acrescentando: “Já muita gente lhes faltou, não podemos ser nós, instituição, a faltar-lhes”.

Educar é criar balizas e por vezes têm a ingrata missão de dizer não. Uma coisa é certa, quando uma rapariga sai da instituição, independentemente dos motivos por que chegou, não sai igual. “Muitas vezes contactam-nos depois de saírem, perguntam como estamos, vêm mostrar os bebés. Por vezes voltam para pedir ajuda, pagar uma consulta… Algumas procuram-nos porque se separaram ou tiveram uma experiência menos positiva”, conta a directora-geral.

Numa sociedade ainda sexista, com discriminação das mulheres, Cristina defende que os valores que tentam incutir-lhes são os de igualdade. “Se mulheres e homens se souberem pôr no seu lugar essas questões não são relevantes. O problema é que por vezes se baralham um bocado. Nos ensinamentos que lhes damos fazemos valer que homens e mulheres têm o mesmo valor, são diferentes e complementares”.

Para a irmã, a discriminação que mais se sente não é sexual. “Em termos gerais estas meninas têm muitas dificuldades, é raro fazerem um percurso escolar que chegue à universidade. Se não têm um grau de escolaridade muito elevado a integração no mercado de trabalho fica comprometida, por isso quando não conseguem o trabalho que queriam, não tem tanto a ver com questões sexistas mas sim com um conjunto de competências que não adquiriram”.

Cristina Pereira reforça que apesar de serem uma instituição só de mulheres, não são feministas, mas sim pessoas capazes e conscientes do seu valor. Adianta que só não acolhem rapazes porque as limitações físicas do edifício não permitem um lar misto.

Dia Internacional da Igualdade Feminina a 26 de Agosto

O Dia Internacional da Igualdade Feminina foi assinalado a 26 de Agosto em alusão à ratificação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, nesse dia, em 1789, em França. A data evoca as conquistas das mulheres na sociedade ao longo da história, na luta por condições de igualdade entre géneros, e promove a reflexão sobre as relações de poder na sociedade, em que os homens ainda tendem a ser privilegiados.

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