Entrevista | 17-09-2019 10:00

Fabíola Cardoso é a mente aberta para lutar pela diversidade no Parlamento

Fabíola Cardoso é a mente aberta para lutar pela diversidade no Parlamento

Fabíola Cardoso, 46 anos, professora, lésbica, mulher activa e que luta pelos direitos e liberdades.

A candidata do Bloco de Esquerda pelo distrito de Santarém nasceu em Angola, cresceu em Castelo Branco e está em Santarém há mais de vinte anos. Escolheu viver e trabalhar na cidade porque a sua companheira na altura estava a estudar em Santarém. Tem dois filhos de 15 e 17 anos. É uma mulher prática e não é de se ficar por teorias, por isso é conhecida por demonstrar nas aulas como se coloca um preservativo. De ar descontraído, Fabíola chega a esta entrevista com um caderno com notas, o programa eleitoral do Bloco e vários folhetos para deixar no jornal. Há uns anos teve um carcinoma da mama, que a deixou com medo. Mas também com vontade de lutar e vencer, que é uma das suas principais características. A candidata não espera que o Bloco possa eleger um segundo deputado pelo distrito, mas acredita que vai subir a votação.

Quando é que descobriu a sua orientação sexual?

A construção da nossa identidade, normalmente, acontece a partir da adolescência. Descobri que era lésbica bastante cedo e que isso não era uma questão só pessoal, mas que determinava a minha relação com os outros. Era também uma questão política, porque Portugal nessa altura não reconhecia igualdade de direitos às pessoas homossexuais. Havia uma série de restrições na lei e na sociedade, que tiveram de ser mudadas.

Que problemas teve por não esconder que é lésbica?

O principal problema prendeu-se com a falta de referências positivas na sociedade. Eu não conhecia a palavra lésbica, a sociedade portuguesa ainda invisibilizava essas diferentes maneiras de viver o amor. E isso é extremamente complicado para uma jovem que está a construir a sua própria identidade. Uma das grandes vitórias do movimento gay, lésbico, nos últimos anos, foi a visibilidade social, foi ser reconhecida a existência, que em vez de ser ostracizada e discriminada deve ser tratada com naturalidade.

O que é que a marcou mais na relação com os outros?

Marcaram-me mais as vitórias, as conquistas, os momentos em que conseguimos garantir maior igualdade de direitos. Porque esses direitos fizeram do nosso país um país mais respeitador da diferença, mais livre, mais justo para todos. A primeira marcha realizada em Portugal, em 2000, numa organização em que participei, foi um momento muito significativo de reivindicação de liberdade, de igualdade, de visibilidade e que me marcou bastante. Tal como direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e, por uma questão mais pessoal, a lei que veio permitir a adopção por pessoas do mesmo sexo.

“Não faço parte da elite de colunáveis”

O que é que a Fabíola faz na cidade que não costuma aparecer em muitas das iniciativas, apresentações ou inaugurações?

Vivo e trabalho em Santarém, desloco-me a pé na cidade, tenho filhos que vão à escola na cidade. Mas não faço parte de uma determinada elite de colunáveis que aparecem em todos os eventos sociais. Tenho o prazer de ir a vários eventos culturais, talvez não os suficientes, e participar em concertos, ir ao cinema do cineclube, participar em caminhadas ou assistir aos debates promovidos pela Sociedade Recreativa Operária.

Crianças não precisam de pai, precisam é de estabilidade

Preferiu gerar os seus filhos em vez de adoptar, foi uma opção ou um recurso?

Na altura não era possível em Portugal duas pessoas do mesmo sexo adoptarem em conjunto uma criança. Havia pessoas que, estando numa relação com alguém do mesmo sexo, conseguiam contornar a lei. Mas não é da minha natureza fazer as coisas utilizando subterfúgios. Não iria mentir perante um processo tão importante quanto o da adopção.

Como foi a experiência de ter filhos?

É uma aventura em que aprendemos não só sobre a natureza humana, mas também sobre nós próprios e somos constantemente confrontados com as alegrias, as tristezas, as esperanças, os medos, as preocupações que resultam dessa relação maravilhosa que é a maternidade ou a paternidade.

Educa os seus filhos no conceito de uma sociedade aberta e livre?

A biologia ensina-nos que a diversidade é o valor mais importante de todos, onde reside a capacidade de evolução, de adaptação da espécie e das populações. As sociedades mais evoluídas, as sociedades onde as pessoas se sentem mais felizes, são aquelas onde há diversidade.

É diferente uma criança ser criada sem a figura masculina?

O que é que a criança precisa de aprender com o pai? O que é que é tão profundamente diferente naquilo que uma mãe pode ensinar a um filho. Aquilo que um rapaz tem de aprender poderá aprender com outras figuras masculinas que não sejam propriamente o seu pai. O que é essencial é que haja estabilidade, diálogo, confiança, respeito, amor pela criança.

A confusão da lista, o ambiente, a necessidade de mudar a agricultura

Porque é que foi para o Bloco de Esquerda?

O BE foi formado por pessoas que vinham de vários partidos e por muitas pessoas que, como eu, não tinham partido. A minha proximidade com o partido deve-se às questões do ambiente, quando participei numa acção de protesto em Santarém, porque na altura o município não aderia ao Dia Europeu Sem Carros.

A formação das listas por Santarém geraram confusão. Porque é que preteriram o actual deputado Carlos Matias?

O BE tem uma lógica de evolução, de rejuvenescimento, de transmissão, de mudança. Quando o Bloco foi para o parlamento havia até sistemas de rotatividade entre os deputados.

A Fabíola chegou-se à frente para ser candidata ou foi uma opção da estrutura?

O meu nome surge defendido pela concelhia de Santarém. Os estatutos do BE são bastante democráticos, são os mais democráticos de todos os partidos. Criou-se uma lista que recebeu apoio de outras concelhias e avançou naturalmente.

Mas também houve alguma contestação, por não terem escolhido Carlos Matias.

O bloco é um partido plural, diverso, democrático e é normal que haja esse tipo de contestações e reações. As pessoas são livres de falar, de expressar a sua opinião.

Já apaziguaram essa guerra?

Essa questão está ultrapassada e neste momento o Bloco quer é ter bons resultados, marcar a diferença e ser um factor decisivo para os próximos quatro anos. O Carlos Matias pertence ao BE, vai continuar a pertencer e certamente tem interesse que tenha o melhor resultado possível.

A sua orientação sexual pode ser um fator para cativar votos?

A bandeira da igualdade de direitos, a bandeira de combate a todas as formas de discriminação é uma bandeira que o Bloco tem levantado desde o seu início. Haver candidatos que sejam gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais é um fenómeno completamente natural da democracia, natural da representatividade democrática. Não os haver é que mostra o enviesamento que existe na sociedade portuguesa.

É fácil conotar o Bloco com o partido dos gays, concorda?

O Bloco não é só o partido dos gays e das lésbicas, mas é um partido onde gays e lésbicas encontram um espaço de intervenção e cidadania, de participação, de expressão política, como qualquer outra pessoa, independentemente da sua orientação sexual.

É por isso que tem subido de importância no panorama político?

Uma das razões pelas quais o BE tem vindo a subir é por esta amplitude de horizontes. O parlamento só será verdadeiramente representativo da sociedade portuguesa quando nele estiverem presentes os elementos que existem nessa sociedade. Isto parece-me um fenómeno absolutamente evidente.

A ser eleita, o que vai fazer na Assembleia da República?

Queremos ter o maior grupo parlamentar de sempre. As tarefas que vou ter dependem do grupo e dos deputados. Há algumas áreas que são as minhas áreas naturais, como a educação, o ambiente, os direitos.

Tem alguma proposta sobre este distrito que gostasse de levar ao parlamento?

Tenho muitas questões a levar e espero ser um elemento que contribua para aproximar não só as populações da Assembleia da República como esta das populações. Na minha maneira de viver e de estar procuro estar sempre muito próxima das pessoas, ouvir, dialogar, aprender com as pessoas.

Mas qual é a situação que urge resolver?

As questões de ambiente parecem-me centrais neste distrito, como as relacionadas com a poluição dos cursos de água. Ainda recentemente deparámo-nos com a presença de jacintos Sorraia. As questões de ambiente devem ser abordadas de uma maneira integrada, numa perspectiva não só de resolver pontualmente os assuntos, mas de mudar de facto o paradigma.

O açude em Abrantes é um erro ambiental ou político?

Aquele açude foi um erro grave que deve ser evitado no futuro. O BE é um partido radical no sentido que procura a raiz dos problemas e não podemos construir açudes para resolver só o sintoma.

Mas o açude temporário no Sorraia foi necessário para se garantir as culturas agrícolas devido à subida da água salgada.

O que é que faz com que seja necessário construir aquilo? Porque é que as marés estão a chegar mais a montante? Isto resolve-se aumentando os caudais ecológicos do rio, não só anuais ou mensais, mas caudais diários. Não podemos apenas andar a resolver os problemas pela rama. O BE é o partido que questiona seriamente o modelo de agricultura vigente.

Está a defender uma mudança da agricultura da região para que modelo?

Com o clima não se negoceia. Estamos a assistir a mudanças climáticas sérias, profundas. É preciso atrevermo-nos a desenvolver uma agricultura extensiva, uma agricultura que seja menos exigente em termos de água. Possibilitar uma transição para um modelo de produção que em vez de apostar numa agricultura intensiva, regada a produtos químicos, garanta alimento de uma maneira mais sustentável.

Como é que o Bloco vai mudar o estilo de vida das pessoas?

Essa parte os jovens, a sociedade, já está a fazer por si. Muitos jovens estão seriamente preocupados com as questões ambientais. Não compete ao Estado mudar a mentalidade das pessoas, mas compete-lhe criar estruturas que correspondam às exigências que a sociedade já está a fazer.

Para além disso, qual é a vantagem de votar no Bloco?

É votar no partido que defende o fim das portagens, nomeadamente na A23, por exemplo, e que se preocupa com o despovoamento das zonas rurais, do envelhecimento da população e da falta de serviços públicos.

Acha que conseguem eleger um segundo deputado por Santarém?

A matemática diz que isso será muito difícil. Santarém tem perdido deputados, à medida que tem perdido população. Esperemos que o Bloco possa contribuir para que o distrito de Santarém deixe de perder população, possa ganhar deputados e o distrito possa ganhar mais representatividade a nível nacional.

A doença, a coragem e trabalhar demais

Há uns anos teve um carcinoma da mama. Como é que lidou com isso?

Com coragem, com medo, com vontade de luta, que é uma das minhas características. Tive ao meu lado muitas pessoas que me apoiaram. Os meus filhos eram pequenos, o que contribuiu para o medo e ao mesmo tempo para a determinação em vencer a doença. Fui seguida no Hospital de Santarém por excelentes profissionais, não só em termos técnicos como humanos.

Ficou com uma boa impressão do Serviço Nacional de Saúde…

O SNS é a melhor resposta que temos e garante serviços de qualidade, que chegam a todas as pessoas. Sou uma defensora do SNS, mas é necessário aumentar os recursos, investir seriamente no SNS e as propostas do Bloco vão nesse sentido, para que a saúde deixe de ser em defesa dos interesses privados.

A doença mudou a forma como encara a vida?

A doença reforçou a ideia que já tinha desde os 17 anos de que a vida é para ser vivida, é necessário fazer acontecer, como diz o Bloco (risos). É preciso não vivermos coagidos, reféns de uma série de normas sociais que nos são incutidas e fazermos aquilo que está correto.

Mas os problemas de saúde deixam sempre marcas…

A doença trouxe a necessidade de abrandar e a noção das minhas próprias limitações. Eu trabalhava de mais, fazia de mais e descansava de menos. Tenho tentado a partir desse momento aceitar as minhas limitações e as minhas fragilidades.

Trabalhava muito?

Sempre trabalhei muito na escola e sempre tive outras actividades fosse em termos de associativismo, fosse em termos de intervenção politica partidária. Eu sou bastante activa e é difícil estar sossegada, porque acho que há tanta coisa para fazer, tanta coisa para mudar à nossa volta, que me é difícil ficar a assistir de braços cruzados.

A professora que ensina a usar o preservativo

Porque é que nas suas aulas demonstra aos alunos como se deve colocar um preservativo?

A utilização dos métodos contraceptivos faz parte do currículo da disciplina de ciências naturais há muitos anos. Acredito nas actividades práticas e pratico-as. Usar um microscópio, desenhar uma flor, dissecar um rim de porco, são atividades que são não só fontes de aprendizagem, mas também de relação, de envolver as emoções dos alunos. Estar a falar de métodos contraceptivos numa perspectiva absolutamente teórica, parece-me redutor.

Mas levar preservativos para a escola e mostrar como se colocam deve fazer confusão a alguns professores.

É uma coisa habitual nas escolas e é praticada pela maioria dos meus colegas. Muitas vezes pede-se a colaboração da unidade de cuidados na comunidade, que deslocam profissionais à escola para fazerem essas aulas e esclarecerem dúvidas dos alunos. E muitas vezes isso inclui coisas práticas, como por exemplo abrir um preservativo, saber utilizar um preservativo, saber colocar um preservativo. Não me parece que seja algo de extraordinário.

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