Entrevista | 25-09-2019 18:00

Não é fácil ser cozinheiro porque os clientes estão cada vez mais exigentes

Não é fácil ser cozinheiro porque os clientes estão cada vez mais exigentes
IDENTIDADE PROFISSIONAL

Paulo Inácio é proprietário dos restaurantes O Árbitro em Riachos e no Entroncamento.

Nunca foi muito virado para os estudos pelo que foi com naturalidade que começou a trabalhar aos 16 anos. Paulo Inácio trabalhou em diversas actividades e, pelo meio, superou uma leucemia até se estabelecer por conta própria no ramo da restauração, após ter feito um curso profissional.

As moelas, bifanas e os pratos do dia iam saindo da cozinha do restaurante O Árbitro, em Riachos, concelho de Torres Novas, até que Paulo Inácio, proprietário do estabelecimento há cinco anos, viu que faltava a salsa. Decidiu então ir bater à porta do vizinho, que já o conhece, para pedir um raminho. Dessa vez tudo se resolveu, como também quando faltou hortelã ou mesmo o sal. É assim que Paulo muitas vezes se tem desenrascado quando acontecem situações inesperadas nos restaurantes que gere, pois além do de Riachos abriu outro estabelecimento há cinco meses no mercado do Entroncamento.

Imprevistos não têm faltado na vida do empresário de 51 anos, como a leucemia que teve quando ainda era jovem e que conseguiu ultrapassar, ou o fecho da empresa onde trabalhava e que o levou a realizar um curso de cozinha de ano e meio no Instituto de Emprego e Formação Profissional de Torres Novas.

Nascido e criado em Riachos, Paulo Inácio nunca foi muito virado para os estudos, mas confessa que até tinha algum jeito para dar uns toques na bola. Era, aliás, assim que passava muito do seu tempo depois das aulas, acompanhado dos amigos. Deixou a escola no 9° ano de escolaridade para começar a trabalhar aos 16 anos na área de instalações e equipamentos no Hospital de Torres Novas.

O empresário ainda se manteve na unidade hospitalar sete anos, mas o diagnóstico e o tratamento de uma doença cancerígena fizeram com que deixasse aquele trabalho para ir para uma loja de aluguer de vídeos em Torres Novas. Ainda se manteve lá durante três anos até ir para Leiria trabalhar como encarregado numa empresa de resíduos urbanos por mais três anos, altura em que o negócio fechou e regressou a Riachos.

“Já tinha um gosto pela cozinha e por isso decidi nessa altura tirar um curso nessa área para me especializar”, explicou o empresário. Trabalhou depois durante seis anos na cozinha do Centro de Recuperação Infantil do Entroncamento até se estabelecer com negócio próprio.

Actualmente a gerir dois espaços de restauração, Paulo Inácio divide os seus dias entre tachos e panelas, compras de alimentos, papelada e família. Os dias começam bem cedo para o empresário, saindo de casa pelas 07h30 da manhã para ir ao mercado comprar os legumes frescos e o resto que precisa no supermercado. Depois distribui os produtos e diz às cozinheiras quais os pratos do dia.

“Normalmente nunca planeio nada. É sempre no mercado que decido o que vai ser confeccionado naquele dia”, adianta o cozinheiro a O MIRANTE. Chega a hora do almoço e Paulo mete as mãos nos tachos e panelas para ajudar na cozinha. Dependendo da dificuldade do prato, vai alternando entre o restaurante de Riachos e do Entroncamento. À tarde, Paulo trata da burocracia e vai ao supermercado comprar o que falta e à noite ajuda na hora do jantar, acabando por ir para casa pela meia-noite.

Com cinco anos no mundo da restauração, o empresário conta que já recebeu todo o tipo de clientes nos seus dois estabelecimentos. Já teve inclusive alguns que chegam, comem e só depois verificam que não podem pagar com cartão de débito, acabando por ter de fazer dois quilómetros para ir levantar dinheiro à caixa multibanco mais próxima. “Nunca deixo ninguém sair sem comer. Normalmente esses casos acontecem com motoristas de pesados e depois digo-lhes para pagarem para a próxima que passarem aqui”, admite.

Paulo Inácio não tem dúvidas que não é fácil nos tempos que correm abrir um negócio. Tudo por causa do excesso de burocracia e dos impostos que se tem de pagar. O empresário confessa ainda que, apesar de estar na moda trabalhar na área da cozinha, abraçar a carreira de cozinheiro neste momento não é fácil, sobretudo devido à crescente exigência dos clientes. “É que há muitos clientes que se esquecem que em casa também nem sempre sai bem”, conclui.

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