Entrevista | 29-10-2019 15:00

Dar continuidade à Associação Luís Boavida foi um processo doloroso

Dar continuidade à Associação Luís Boavida foi um processo doloroso
ENTREVISTA

Isabel Boavida assumiu a presidência da direcção criada pelo marido antes de morrer.

A Associação Luís Boavida foi criada há dois anos. O que significa para si dar continuidade ao projecto do seu marido?

Sinto que estou a honrar a sua memória e a cumprir o legado que deixou. Acredito que o Luís, a determinada altura, sentiu que não iria ter uma vida longa e criou a associação para tornar mais institucional algo que já fazia há muito tempo, que era ajudar os outros. Quis deixar o seu cunho pessoal.

Só conseguiu retomar a actividade da associação um ano após a sua morte. O que a motiva a prosseguir com a associação?

Dar continuidade ao sonho dele. Tem sido um processo muito doloroso. Era muito difícil mexer nas coisas dele. Comecei a ler os cadernos onde tinha muita coisa escrita, de projectos que queria colocar em prática. Percebi que era importante para ele. Os amigos e a família deram-me muita força e incentivaram-me a continuar.

Alguma vez pensou em extinguir a associação?

Num primeiro momento pensei que não conseguiria continuar. Não me estava a fazer bem mexer nas suas coisas. Eram muitas memórias. Mas bastava olhar para uma fotografia dele para sentir que tinha que seguir o seu legado. Sinto-me feliz quando distribuo o dinheiro às associações que apoiamos.

Como foi acompanhar o seu marido naquele ano em que descobriu a doença?

Sentir que o meu marido iria morrer e eu não podia fazer nada é uma impotência muito grande, uma dor indescritível. O pior momento foi quando nos informaram que o tumor era maligno, dos mais agressivos. Chamam-lhe o ‘rei dos tumores’. Parece que o chão nos foge dos pés e caímos num abismo.

É uma mulher crente em Deus. Nessa altura pôs a sua fé em causa?

Revoltei-me muito com Deus, disse muita blasfémia. Nem queria ouvir falar em Deus. Retirei todas as imagens de santos que tinha em casa. Achei que tudo o que aconteceu ao meu marido era uma injustiça, porque se houvesse Deus não o teria feito passar por tanto sofrimento. Agora já estou noutra fase do processo e mais reconciliada com Deus.

Não tem havido capacidade para atrair empresas para o concelho

O associativismo está vivo em Tomar ou falta sangue novo?

O concelho de Tomar tem muitas colectividades, desde o desporto até à cultura. O associativismo é onde estão as nossas verdadeiras raízes. É a força viva do povo e em Tomar está muito vivo. Isso deve-se às pessoas que têm orgulho na sua terra e têm gosto em dinamizá-la.

Que importância tem o Politécnico de Tomar (IPT) para o concelho?

O IPT é uma das principais forças vivas que Tomar tem. Os alunos dão muita vida e alma à cidade. São centenas de alunos que fomentam a vida da cidade, a vários níveis. Também permite que os nossos jovens fiquem a estudar em Tomar e muitos jovens de fora vêm para cá. O IPT tem sido muito importante a nível de várias parcerias com diversas instituições e empresas.

O turismo está a ser bem potenciado?

Vemos muitos turistas mas também vemos muita gente a deambular pela cidade sem saber bem para onde ir. Temos um património histórico muito rico mas não está bem explorado. Se existisse um centro interpretativo com uma visão integrada de todos os monumentos do concelho e o que significam daria maior dinamismo e uma importância mais conseguida ao património histórico que temos.

Como é que se traz para Tomar os milhões de turistas que todos os anos visitam Fátima?

O turismo religioso é diferente, é uma questão de fé. Mas falta a Tomar fazer pressão junto dos operadores turísticos para trazer esses turistas à região. Tomar tem que saber tirar partido desses milhões de turistas que vêm aqui tão perto. Tem que se incluir Tomar como uma das visitas do roteiro que é vendido ao cliente.

A câmara municipal tem sabido captar empresas geradoras de riqueza?

Durante o tempo em que o PSD governou a Câmara de Tomar aproveitou-se os fundos comunitários e fizeram-se grandes obras e saneamento básico. Foram opções políticas. Admito que tanto na gestão do PSD como durante o tempo em que foi presidente do município Pedro Marques (PS) algumas grandes empresas que quiseram instalar-se em Tomar não foram devidamente acarinhadas pelo município para que ficassem cá. E é uma situação que se mantém. Esta inabilidade de captar empresas para o concelho faz com que não haja desenvolvimento económico.

O que levou a que Tomar perdesse o fulgor industrial que teve noutros tempos?

Tomar viveu momentos de ouro, nos anos 60 e 70 do século passado, com a Casa Mendes Godinho que empregava milhares de pessoas. Havia muitas empresas da área do papel que também geravam muitos postos de trabalho. Com a crise do sector essas indústrias foram desaparecendo e as pessoas tiveram que procurar emprego noutros locais. Além disso, era muito caro comprar casa em Tomar e muitas pessoas optaram por viver em concelhos vizinhos onde o preço era metade. Tudo isso ajudou a que agora tenhamos dificuldade em recuperar.

Se fosse presidente da Câmara de Tomar quais seriam as suas prioridades?

Tentaria que Tomar não vivesse só da Festa dos Tabuleiros. Adoro a festa mas Tomar está muito centrada na festa. Poderia aproveitar-se para criar o tal roteiro turístico de Tomar onde o ponto alto seria a Festa dos Tabuleiros. Esta poderia ser mais potenciada todos os anos e não apenas quando se realiza. Temos algo de luxo mas precisa de ser alimentado.

A nível de competências estruturaria a câmara de outra forma. Criava o pelouro da Modernização Administrativa para dar outra forma de andamento a todos os assuntos e optimizar cada sector com as pessoas mais indicadas. E saber quem responde por quem e por que processos.

Associação ajuda instituições e pessoas carenciadas do concelho

A Associação Luís Boavida foi criada a 21 de Outubro, data de aniversário do seu mentor, com o objectivo de ajudar instituições do concelho de Tomar e pessoas com carências económicas. Um ano após a morte de Luís Boavida a actividade foi retomada com Isabel Boavida a assumir a presidência da direcção. Tem cerca de 200 sócios e a quota anual é de cinco euros. O orçamento deste ano foi de 7.500 euros. Apesar disso, têm muitos donativos e na altura de pagar a quota a maioria dos associados paga mais do que o valor estipulado.

Os custos da edição do livro “Centro Interpretativo Tomar Templário”, uma ideia de Luís Boavida, cuja obra tem o seu prefácio, foram suportados na totalidade pelo cunhado de Isabel Boavida, que ofereceu os 500 exemplares à associação. As receitas dessas vendas revertem para a associação.

Em Maio organizaram um jantar de homenagem para assinalar o primeiro aniversário da morte de Luís Boavida. O dinheiro angariado serviu para ajudar uma instituição do concelho e uma jovem do Ginásio Clube de Tomar. A intenção é continuar a realizar eventos para continuar a ajudar quem precisa. Este ano foi criado um torneio de futsal, o Troféu Luís Boavida, um orgulho para a sua família por perceber o quanto era estimado na comunidade.

Advogada com paixão pela política

Isabel Boavida nasceu a 3 de Março de 1963 na Rua dos Arcos, no centro de Tomar, onde actualmente, do outro lado da rua, tem o seu escritório de advocacia. Licenciou-se em Direito pela Universidade Católica de Lisboa. Tem um filho, de 28 anos, médico, que está a tirar a especialidade de anatomia patológica.

A advogada acredita que a doença do marido influenciou a escolha de João. “O meu filho acompanhou muito de perto a doença do pai e fez muita pesquisa, inclusive em fóruns internacionais da área, para tentar descobrir o melhor tratamento. Acredito que todo este processo influenciou a sua escolha”, afirma.

Conhecia o marido desde os tempos de escola em Tomar mas só começaram a namorar depois de concluírem as licenciaturas. Estiveram casados 28 anos. Sempre gostou de política e foi militante da Juventude Social-Democrata e depois do PSD. É eleita por esse partido na Assembleia Municipal de Tomar. Gosta de falar e defender as suas ideias mas nunca pensou ser candidata à presidência do município, que era o sonho do seu marido.

Deixou de fazer planos nem pensa numa candidatura à concelhia do seu partido. Mas não fecha as portas a nada. “Depende dos caminhos que se abrirem mas a concelhia está bem entregue. Não vale a pena fazer muitos planos porque não sabemos o dia de amanhã. Também aprendi a relativizar. Os grandes problemas que me apoquentavam deixaram de ser problemas. Depois do que passei tudo se há-de resolver”, conclui.

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