Entrevista | 29-10-2019 18:00

É preciso ganhar calo antes de se abrir um negócio

É preciso ganhar calo antes de se abrir um negócio
IDENTIDADE PROFISSIONAL

Mário Jorge, 52 anos, é proprietário dos cafés Misofia, em Alverca do Ribatejo.

Na infância perdia-se entre as cepas das videiras, em Azambuja, a ajudar a família nas vindimas. Chegou a tentar a sua sorte como agricultor, mas o lucro era baixo para compensar a dureza do trabalho no campo. O proprietário dos cafés Misofia, em Alverca do Ribatejo, foi primeiro empregado de balcão, porque considera que não se deve ser patrão sem se ter adquirido experiência.

Os portugueses são verdadeiros amantes do café e a maioria não dispensa beber o seu elixir energético pela manhã. “Andam de olhos abertos mas só acordam depois de lhes ser servido o café”. Quem o diz é Mário Jorge, gerente dos cafés Misofia, em Alverca do Ribatejo. E tudo parece ser desculpa aceitável para uma pausa, seja porque se dormiu mal ou porque se encontrou um amigo pelo caminho. “Nem quando veio a crise as pessoas abdicaram da pausa para o café”, comenta.

Mário Jorge diz que na sua profissão o mais difícil é ter de lidar com clientes rabugentos que fazem pedidos exigentes. “Há quem peça uma chávena com três quartos de café e antes de beber fique a avaliar se está servido como idealizaram”, explica, sublinhando que quando se iniciou nesta profissão era tudo mais simples. Por outro lado, diz ter a sorte de poder chamar alguns dos seus clientes de amigos. “É o que se leva de bom desta profissão, ter clientes fiéis”, com quem pode falar sobre todo o tipo de assuntos. O futebol e a política, claro, são assuntos da ordem do dia.

O percurso profissional de Mário Jorge não começou atrás de um balcão. Ultrapassada a ideia de infância de querer ser bombeiro e correr de casa até à porta do quartel de Alverca “para saber onde era o fogo”, o seu primeiro trabalho foi na lavoura, em Azambuja. Com pai e avô agricultores não podia ter começado de outra forma. Habituado desde pequeno a ajudar nas vindimas, no Secundário decidiu tirar um curso de técnico comercial de agricultura para seguir as pisadas da família. Investiu em terrenos, montou estufas e viveu da agricultura até perceber que o caminho não era por ali. “Trabalhava-se muito e ganhava-se pouco”, lamenta, criticando os parcos subsídios e a venda dos hortícolas a “preço irrisório”.

Com o serviço militar obrigatório, na altura, acabou por interromper o seu percurso profissional para fazer 13 meses de tropa. Tempo que valeu “pelos valores transmitidos de aprender a acatar ordens e a respeitar a hierarquia, algo que faz falta a muita gente hoje em dia”, defende. Passou ainda pela antiga fábrica da Opel em Azambuja e foi nesse tempo que lhe surgiu a ideia de abrir um café. “Mas primeiro quis ganhar experiência. É preciso ganhar calo antes de se abrir um negócio e aprender com quem sabe”, adverte.

Depois de oito horas a montar peças de automóveis trabalhava, em part-time, no café que viria a comprar um ano mais tarde, o Misofia do Centro Comercial Parque. “Comecei a ganhar-lhe o gosto e quando surgiu a oportunidade de ficar com o estabelecimento não hesitei”, conta.

Passados 14 anos à frente do Misofia diz que é mais fácil ser-se empregado do que patrão, porque são menores as responsabilidades e as horas de trabalho. “Tenho cinco funcionários e sou o único que não tem folgas, nem aos fins-de-semana. Tenho de ser o maior zelador do meu negócio”, diz. É também o primeiro a chegar e o último a sair. Às 08h00 já está a pôr no forno os croissants, folhados e pão para servir nos pequenos-almoços. Pelas 09h00 já perdeu a conta aos bons dias que disse e ao número de cafés que tirou.

Há cerca de um ano resolveu expandir o negócio com a abertura do Misofia junto à Igreja dos Pastorinhos, a sensivelmente 300 metros da casa mãe. É entre o horário de almoço, o de menor afluência, que aproveita para avaliar o stock disponível e tratar da contabilidade. Nos seus estabelecimentos, garante, “não há bolos que ficam na vitrine de um dia para o outro”, porque, justifica, “não daria aos clientes o que também não comeria com gosto”.

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