Entrevista | 30-10-2019 07:00

“Na nossa sociedade o apoio aos idosos está muito esquecido”

“Na nossa sociedade o apoio aos idosos está muito esquecido”
TRÊS DIMENSÕES

Brandão Soares tem 81 anos e é Provedor da Misericórdia de Alhandra.

Diz quem o conhece que é uma força da natureza. Apesar de alguns problemas de saúde, já ultrapassados, Brandão Soares continua firme no cargo de Provedor da Associação do Hospital Civil e Misericórdia de Alhandra, uma instituição que faz a diferença na comunidade e no apoio aos idosos, tendo 120 pessoas no lar, 26 em centro de dia e 30 no apoio domiciliário. Dá ainda emprego a mais de uma centena de pessoas.

Conheci Alhandra pela primeira vez por causa das notícias do antigo nadador Baptista-Pereira. Foi na altura em que ele atravessou o Canal da Mancha. Mais tarde conheci a terra por ter ido trabalhar para a fábrica de cimento Cimpor. Fui morar para São João dos Montes em 1981.

Comecei a trabalhar aos 12 anos em Lisboa numa oficina. Depois trabalhei na Casa das Limonadas e na Camisaria Grande Gala, na Rua Augusta. Ainda passei pela antiga Junta de Freguesia da Penha de França até entrar na Cimpor. Comecei como praticante de escritório saí de lá como secretário-geral. Foi o trabalho que mais gostei de fazer na vida. Era um cargo de grande responsabilidade.

Vim para a Misericórdia em 1997 e se não tivesse gana para continuar já me tinha ido embora. O que gosto mais nesta posição de Provedor é poder dar resposta às necessidades dos utentes. Todas as manhãs, a primeira coisa que faço quando chego é percorrer o Lar e ver as pessoas. Não somos um hotel de luxo mas não falta nada aos nossos utentes.

Quando me convidaram para este cargo torci o nariz. Não tinha razões para isso e acabei por me apaixonar pela área dos idosos. É muito recompensador. Temos agora uma unidade especial de demências que tem feito a diferença. A musicoterapia tem sido um sucesso. Temos metido a cabeça deles a funcionar com essa e outras actividades.

O apoio aos idosos está muito esquecido na nossa sociedade. Os mais velhos estão muito pouco acompanhados. Basta abrir os jornais para ver isso. Mesmo que tivéssemos o triplo do tamanho não ia chegar para todos os pedidos. Temos muita gente em lista de espera e todos os dias há novas inscrições.

Houve um período de quebra quando a situação económica das famílias piorou. Nessa altura muita gente ficou com os pais em casa. Agora, felizmente, as coisas estão melhores e já se procuram outra vez estas respostas sociais.

Envelhecer não tem de ser uma infelicidade. Não deve ser. A idade traz-nos sabedoria. Continuo a aprender diariamente. Claro que também traz problemas mas isso faz parte da vida.

Não me aborreço com facilidade e considero-me um conciliador. Só me lembro de me ter aborrecido quando tive de despedir duas empregadas. Foi por causa do tratamento incorrecto que davam aos nossos idosos. Foi uma situação pontual porque temos excelentes trabalhadores.

Fui amontoando livros para ler quando me reformasse mas reformei-me e continuo sem tempo para os ler. Espero ainda vir a ter esse tempo, bem como escrever algumas coisas. E poder cuidar do meu jardim, onde tenho de tudo, de flores a árvores de fruto. E quero ir a Marraquexe. Não gostava de morrer antes de lá ir com a minha mulher.

A culpa não é deles mas sim da escola. A escola abdicou da sua função de educadora.

Há muita gente a dar aulas mas professores são poucos. Sinto que a escola abdicou da sua função educadora. De um modo geral os jovens não são o que eu gostaria que fossem. Muitos são inconscientes, têm pouca autonomia e são pouco maduros. Ainda assim vejo o futuro com esperança. É sempre preciso ter esperança.

Não se pode falar de um trabalho só meu. É um trabalho de toda a equipa da Mesa Administrativa. Todos juntos temos conseguido. Como em tudo na vida também aqui é preciso ter uma boa equipa. Ainda temos um ano de mandato mas gostava de ver mais pessoas jovens para renovar.

É preciso equilíbrio, entre a dinâmica dos mais novos e a experiência dos mais velhos. Afinal de contas são eles que vão continuar com isto. Vejo muita dificuldade nos jovens continuarem o associativismo no geral. Se calhar só vamos conseguir ter mais jovens se lhes pagarmos. Da minha parte, no dia em que me pagassem, seria o dia em que eu iria embora.

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