Entrevista | 13-11-2019 18:00

Há 30 anos a marchar pelas medalhas

Há 30 anos a marchar pelas medalhas

João Vieira entrou para a história ao ser o mais velho medalhado num mundial de atletismo.

Fazer 50 quilómetros a marchar não é pêra doce. E ainda menos se for sob um calor e uma humidade sufocantes aos 43 anos de idade. Foi isso que suportou João Vieira durante quase quatro horas, antes de colocar ao pescoço a medalha de prata nos últimos mundiais de atletismo. Nesta entrevista, o atleta de Rio Maior fala também da sua vida pessoal, da política local e do seu irmão gémeo, com quem viveu uma extrema rivalidade desportiva.

A medalha de prata ganha nos mundiais do Qatar, numa prova realizada à meia-noite local sob calor e humidade intensos, foi a conquista mais dura e saborosa da sua carreira?

Foi. Aos 43 anos conquistar uma medalha não é fácil. Entrei para a história do atletismo mundial ao ser o atleta mais velho a conquistar uma medalha. Foi todo um trabalho que realizei com a minha treinadora. Não foi só o que passámos em Doha. Foi o que passámos durante meses a trabalhar para esta competição, em que tivemos uma nova pessoa no grupo de trabalho, o professor Amândio, da Universidade de Coimbra, que nos ajudou bastante em relação à aclimatação para esta competição.

Sabia dessa possibilidade, de se tornar no medalhado mais velho em mundiais de atletismo?

Quando vou para uma competição não vou à procura de estatísticas. Os rankings são rankings e não olho a isso.

Como se ocupa a cabeça durante uma prova de 50 quilómetros, que dura quase quatro horas, para convencer o corpo a não desistir?

O objectivo é não pensar em coisas negativas, pensar sim em coisas positivas, como na família ou em sucessos anteriores, e ter a cabeça focada naquilo que delineamos para a prova. Numa prova de 50km há muitas coisas para fazer, desde o abastecimento ao refrescar do corpo. Quando as coisas estão a correr bem não pensamos em muita coisa. Mas quando começam a correr mal, vem muita coisa à cabeça...

Como foram as horas a seguir à subida ao pódio?

Passei um momento difícil a seguir à prova que não foi conhecido cá. Minutos depois caí no chão porque a temperatura do corpo começou a aumentar. Tive que arranjar uma forma de a baixar e comecei a vomitar. São coisas pelas quais um atleta normalmente passa.

Não houve tempo para festejar?

Não. Saí para a prova às dez da noite e cheguei ao hotel às sete da manhã. Não houve tempo para isso. A seguir à prova estive com a minha treinadora, com o professor Amândio e com o staff da Federação, fui à conferência de imprensa às tantas da manhã e a seguir fui para o controlo anti-doping. Não houve tempo para festejar. O que a gente quer é chegar ao hotel e descansar.

Presumimos que já aponte a mira para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Vai ser o ponto final da sua carreira de atleta de alta competição?

Há uns tempos era assim que estava definido, mas neste momento já não. Quero fazer ainda mais um Mundial no mínimo. Quero ir até 2021, quando provavelmente será a última prova de 50km no panorama internacional. E a minha treinadora já fala em mais um... Tenho participações em onze campeonatos do mundo e vou continuar enquanto tiver força.

Já tem ideia de como vai ser a sua vida quando deixar de competir?

Quero continuar a praticar desporto mas de lazer, não um desporto de competição. O alto rendimento não dá saúde a ninguém. Quero fazer outras coisas, como andar de bicicleta, dar a minha corridinha… E quero continuar ligado ao atletismo como treinador.

Rio Maior é um viveiro de craques da marcha atlética. Como é a convivência entre tantos egos? Há cenas de ciúmes? Felicitam-se quando ganham? Apoiam-se nos momentos maus?

Rio Maior é um viveiro de onde saíram muitos atletas que têm o mesmo objectivo, por isso a convivência nem sempre é muito boa. Mas respeitamo-nos uns aos outros. Cumprimentamo-nos, dizemos bom dia, olá.

Deixa-o chateado as pessoas acharem que é um homem carrancudo e antipático?

Não me deixa chateado. Tenho as minhas posições e quando traço um caminho faço tudo para o atingir. Se a minha forma de o conseguir é estar concentrado no meu treino e desligar de tudo o que existe à minha volta, então é isso que faço.

O atletismo dá rendimentos para viver com dignidade?

Não somos atletas muito bem pagos, nomeadamente os marchadores. Vou sobrevivendo porque é uma aposta de carreira e quando um atleta entra na preparação olímpica tem outros apoios.

Jorge Miguel foi o técnico que ajudou a catapultar muitos atletas de Rio Maior para a ribalta. Na história da disciplina em Portugal há um antes e um depois de Jorge Miguel?

Existe um antes e, embora não conheçamos o futuro, certamente irá haver um depois do Jorge Miguel. Neste momento três ex-atletas do Jorge Miguel já são treinadores – eu, a Vera Santos e a Susana Feitor -, pelo que certamente irão seguir as suas pegadas, captar jovens e elevar o nome do nosso país com atletas de alto rendimento.

Tudo em família: companheira é também pupila e treinadora

Actualmente é treinado pela sua esposa, Vera Santos, que por sua vez é treinada por si. É o que se chama juntar o útil ao agradável?

Sim, fazemos uma equipa de sucesso, trabalhamos em conjunto e é uma equipa para continuar.

Passam muito tempo juntos em diferentes contextos. É uma situação fácil de gerir?

É. Na vida desportiva como na vida privada conseguimos gerir essa relação. Temos divergências ao nível desportivo, por exemplo com os planos de treino, mas depois acertamos sempre agulhas.

A Vera Santos é muito mandona ou é fácil lidar com a treinadora?

É fácil. Como nos conhecemos há bastantes anos sabemos os pontos fortes e fracos de cada um. Ela já sabe quando tenho os meus momentos maus.

O João tem mau feitio?

Não me considero um mau feitio. Mas quando atinjo uma determinada fadiga de treino por vezes dou respostas um bocado más. Isso é natural num atleta de alto rendimento.

Há vida para além do atletismo na vossa família?

Um atleta de alto rendimento não tem muito tempo para a vida social. Tudo é dirigido para o atletismo, para se ter sucesso. O descanso é fundamental e a vida social fica restringida, por exemplo, na visita aos familiares. Tentamos conciliar o máximo possível e o Inverno é a altura do ano em que estamos um pouco mais livres.

Com toda a sua juventude dedicada ao atletismo e à alta competição, provavelmente teve de abdicar de muita coisa. Custou-lhe privar-se de algo em especial?

Não considero que me tenha privado de algo em especial. Sou um atleta que costuma traçar uma linha e segui-la. Se quero ser atleta olímpico e atingir os meus objectivos não posso pensar naquilo de que me privei.

Como as noitadas, os copos com os amigos…

Fiz isso quando era jovem, mas quando passei ao primeiro escalão de sénior acabou. Já não sei o que é ir a uma discoteca há vários anos. É normal.

É um bom garfo? Costuma dar umas facadinhas na dieta?

Costumo. Ainda não tive tempo para desfrutar da comida depois do mundial, pois tenho estado muito ocupado com entrevistas e outras solicitações. A única coisa que fiz foi repor nas minhas refeições bebidas alcoólicas depois de dois meses sem lhes tocar. Gosto de vinho tinto, de vinho verde, cerveja. Mas em alturas de preparação mais específica ponho isso tudo de lado.

As críticas aos políticos

Rio Maior celebrou o seu feriado municipal a 6 de Novembro. A cidade e o concelho têm evoluído no bom sentido?

Sim. O nosso concelho fez uma aposta no desporto e os resultados estão à vista. Temos um complexo desportivo bastante grande, concentrado, que tem trazido excelentes atletas para treinar cá. A cidade também tem evoluído, apesar da realidade económica não ser muito favorável. Gosto de viver cá, pois é uma cidade calma.

Acompanha a vida política local?

Já acompanhei mais.

Já foi convidado para dar a cara por algum partido?

Já fui convidado e tive a minha esposa como candidata a vereadora no primeiro mandato de Isaura Morais como presidente da câmara. A partir daí acabou mesmo a política. Foi uma passagem rápida.

Não foi uma boa experiência?

Quando usam as pessoas para certos fins eu viro a cara. Foi isso que aconteceu.

Tem sentido apoio nas gentes de Rio Maior?

Tenho que dividir a resposta em duas partes. Sinto o carinho do povo de Rio Maior. Já não sinto tanto carinho por parte dos dirigentes da cidade, nomeadamente da classe política. Não me revejo nela, porque de certa forma viraram-me as costas. Mas não foi por isso que deixei de treinar em Rio Maior e de ter cá a minha casa. É aqui que me sinto em paz e em sossego e é aqui que vou continuar.

Acha que deram mais atenção a outros atletas?

Acho que sim. Acho que os dirigentes da cidade deviam ter o mesmo carinho por todos os atletas. Somos todos iguais. Não interessa o clube que representamos. Eu sou sempre o atleta de Rio Maior e, por isso, sinto-me muito satisfeito pela cidade que represento.

Rio Maior tem um novo presidente da câmara. O que espera de Filipe Santana Dias?

Espero que continue o trabalho de Isaura Morais e que tenha sucesso. Que traga coisas boas para Rio Maior.

Teve pena que Isaura Morais saísse da Câmara de Rio Maior?

Cada um tem que seguir o seu caminho. Estava no último mandato como presidente e por isso chegou a um ponto em que teve de fazer opções. Acho que foi o melhor para ela. É tão natural como um atleta sair de Rio Maior e ir para o Sporting.

Nasceu no Algarve mas veio residir para Rio Maior com dois anos. Foi uma opção feliz dos seus pais?

Sim. As famílias mudam para onde têm trabalho. A minha mãe trabalhava em Rio Maior. O meu pai é do Algarve. Os patrões da minha mãe tinham uma casa de férias no Algarve e foi aí que eles se conheceram. O patrão ofereceu trabalho ao meu pai e vieram os dois para Rio Maior. Foi uma opção natural.

A extrema rivalidade com o irmão gémeo

O seu irmão gémeo, Sérgio Vieira, foi durante muitos anos o seu principal rival interno, ainda para mais representando ele o Benfica. Era complicado competir contra um irmão?

A rivalidade entre nós foi bastante grande. Não treinávamos juntos, os treinadores eram diferentes e toda a gente sabe que sou muito sério naquilo que faço. Quando represento um clube é para ganhar tudo, por isso a rivalidade foi extrema. Lutei com todas as armas para lhe poder ganhar.

Isso não afectou a vossa relação?

Naquela altura não éramos muito chegados. A rivalidade era bastante grande mas às vezes torna-se ainda maior devido aos dirigentes dos clubes. No nosso caso foi uma rivalidade saudável. Toda a gente conhece o João Vieira e sabe que o meu objectivo é sempre ganhar.

O seu irmão foi o adversário mais complicado que teve a nível interno ou há aí gente mais nova com potencial?

O adversário mais difícil que tive, e que não tinha respeito nenhum por nós, era o José Urbano já há muitos anos. Julgava-se num altar. O meu irmão foi um excelente atleta, com uma qualidade por vezes superior à minha, mas um marchador tem que conciliar duas coisas: o físico e a mente. Eu consigo conciliar as duas e quando não consigo vou procurar ajuda.

O seu irmão era um factor de motivação para si estando em prova?

Sim. Costumava dizer que eu e o meu irmão bastávamos para dar espectáculo numa competição.

Sente a falta dele em prova?

Não, porque considero que cada atleta tem que seguir o seu caminho. E ele seguiu o dele. Sente-se feliz no que está a fazer. Neste momento tenho uma ligação maior com ele por já não ser meu adversário. Este ano, na minha primeira prova de 50km, foi ele que me deu apoio no abastecimento. E é o padrinho da minha filha.

Mais de meia centena de títulos nacionais numa longa carreira

Conta no currículo com 54 títulos nacionais no escalão de seniores em marcha atlética nas suas diversas variantes, que vão dos cinco aos 50 km marcha. Esteve em onze mundiais de atletismo e em quatro Jogos Olímpicos. Tem também algumas medalhas em grandes competições internacionais: bronze nos Campeonatos da Europa de Gotemburgo 2006 nos 20 km marcha; prata nos Campeonatos da Europa de Barcelona 2010 nos 20 km marcha; e a mais recente, de prata, obtida em Setembro nos 50km marcha nos Mundiais de Atletismo do Qatar. Aos 43 anos tornou-se o atleta mais velho a subir ao pódio em mundiais de atletismo, o que o fez entrar na história da modalidade.

João Vieira nasceu a 20 de Fevereiro de 1976 em Portimão mas aos dois anos foi viver para Rio Maior, onde os seus pais fizeram vida. Ainda reside na chamada cidade do desporto, apesar de já há alguns anos tanto ele como a companheira, Vera Santos, terem passado a representar o Sporting CP. O casal tem uma filha pequena que o atleta considera um suporte bastante grande quando as coisas correm mal.

Desde muito jovem dedicado ao atletismo, no Clube de Natação de Rio Maior, João Vieira estudou até ao 11º ano, que não chegou a concluir. Para já não pensa prosseguir os estudos, pois está focado na sua carreira como atleta de alto rendimento e como treinador e coordenador da secção de marcha do Sporting. João é também o capitão da equipa masculina de atletismo de pista dos leões.

Antes do atletismo a tempo inteiro, trabalhou durante cinco anos para a Câmara de Rio Maior como monitor desportivo. Não surpreende por isso que diga que se tivesse que escolher outra profissão gostaria de ser professor de educação física.

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