Entrevista | 08-01-2020 18:00

“É difícil arranjar jovens que queiram aprender mecânica”

“É difícil arranjar jovens que queiram aprender mecânica”
TRÊS DIMENSÕES

O primeiro trabalho de Sérgio Simão foi arranjado pela mãe numa oficina do Cartaxo.

Sérgio Simão tem 42 anos, vive em Vila Chã de Ourique, concelho do Cartaxo, e é sócio da Auto Reparadora de Vale de Estacas, situada na Zona Industrial de Santarém e integrada na rede nacional “A Oficina – Especialistas em Automóveis”. O seu primeiro trabalho foi numa oficina e foi aí que ganhou o gosto pela mecânica. É benfiquista, tem três filhos, não perde uma largada de toiros e não resiste ao torricado de bacalhau ou a um prato que inclua enguias. Para ele, os jovens estão cada vez mais desinteressados pela mecânica automóvel e os clientes são cada vez mais exigentes.

Quando era miúdo lembro-me de ajudar o meu avô na apanha da batata. O meu pai estava emigrado e a minha mãe, como trabalhava, deixava-me com os avós. Era o Casal das Sesmarias, concelho do Cartaxo. Ficava lá com o meu irmão mais velho. O tempo era quase sempre para a brincadeira mas de vez quando também ajudávamos no campo.

A bicicleta sempre foi a minha paixão. Desde jovem que sempre gostei de fazer passeios com amigos no meu veículo de duas rodas. Com a falta de tempo passei a fazê-lo apenas aos fins-de-semana.

Arranjei o primeiro carro aos 16 anos. Quando terminei o nono ano de escolaridade disse à minha mãe que não queria estudar mais e ela foi falar com o dono da oficina em frente ao local de trabalho dela, no Cartaxo, para arranjar um lugar para mim. Foi ali que dei os primeiros passos na mecânica. Passados onze anos mudei-me para a empresa Santagri, em Santarém, onde estive como mecânico automóvel até há seis anos quando me juntei ao Pedro Henriques para continuar o negócio do pai dele.

Cheguei a ser treinador de guarda-redes no clube de Achete. Durante muitos anos pratiquei futsal em várias equipas da região, mas depois tive de parar porque não conseguia conciliar com o trabalho. Comecei pela Casa do Benfica do Cartaxo. Depois passei pelo Ouriquense, pela Constrolândia, pelo Núcleo do Sporting do Cartaxo até acabar por ser treinador dos guarda-redes do Grupo de Futsal de Achete.

O torricado de bacalhau é o meu prato de eleição. Sou grande apreciador da gastronomia regional e nunca recuso um bom prato de torricado, de enguias fritas ou ensopado de enguias. Quanto a ir para a frente do fogão raramente o faço, mas gosto, aos fins-de-semana, de fazer grelhados no espaço de barbecue da minha casa.

Se fosse presidente da câmara repavimentava muitas das estradas do Cartaxo. Acredito que o presidente do município, Pedro Magalhães Ribeiro, está a fazer um bom trabalho para tirar a autarquia da ruptura financeira. No entanto, a maioria das estradas do concelho parece caminhos de campo tal é o seu estado de degradação.

É difícil arranjar jovens que queiram aprender mecânica. Os jovens que vêm para aqui para a oficina é só por obrigação para terminar o 12.º ano de escolaridade. Antigamente havia muita gente interessada, mas agora, de mil estudantes que estão a frequentar o curso no Instituto de Emprego e Formação Profissional só conseguimos aproveitar dois ou três.

Muitos clientes aparecem já com diagnóstico feito e nem sempre bem feito. As pessoas têm tendência para pesquisar na internet e só depois vão à oficina. Isso vem complicar a vida dos mecânicos porque muitas vezes a reparação que os clientes pedem não é a mais adequada. O que acontece é que, passado uns tempos, reaparecem com o mesmo problema e culpam-nos da situação.

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