Entrevista | 15-01-2020 12:30

“O velório do centro histórico de Santarém dura há demasiado tempo”

“O velório do centro histórico de Santarém dura há demasiado tempo”
ENTREVISTA

Gustavo Pimentel é um jovem de Benfica do Ribatejo que aceitou o desafio de presidir à Associação de Estudo e Defesa do Património de Santarém, em fase de renovação.

Gustavo Pacheco Pimental, 30 anos, chegou a presidente da Associação de Estudo e Defesa do Património de Santarém “um bocadinho por necessidade, não minha mas da associação”, diz com o tom bem humorado que foi uma constante nesta entrevista. O desafio partiu do anterior presidente, Eduardo Tavares, de quem já era colega de direcção no anterior mandato.

“Tendo a minha vida mais ou menos estabelecida na área da cultura e da história resolvi dar um bocado de expressão àquilo que andava a fazer e dedicar-me às coisas aqui de Santarém”, conta, para justificar a sua participação nesta nova fase da vida da associação. E a experiência tem corrido bem. “ Sou uma pessoa que se dá bem com toda a gente, embora saiba que no meio associativo há sempre discórdias e anti-corpos”, admite.

A cidade desligou-se da Associação de Estudo e Defesa do Património de Santarém, quando esta esteve quase em risco de acabar, ou foi a associação que se desligou da cidade?

É uma questão complexa mas posso tentar responder. A associação passou por uma crise pela qual passaram muitas associações do país. Teve os seus momentos mais áureos, mas à medida que a sociedade foi mudando passou a estar desactualizada, nomeadamente na forma de actuação. Se isto alguma vez foi de massas, hoje não é de todo.

A associação deve funcionar com instrumento de pressão junto dos poderes? Noutros tempos foi uma voz activa e bastante crítica do poder autárquico e não só.

Não estava cá nessa altura. Tento colmatar essa passagem de testemunho falando com pessoas que cá estiveram e ver também o que temos no arquivo e o que foi escrito nos jornais. Mas uma coisa que não queremos é ser uma pedra no sapato, nem da câmara nem de ninguém.

A Câmara de Santarém cedeu-vos um espaço para a sede.

Foi uma grande ajuda, porque a nossa sede apodreceu.

Mas isso acaba também por vos deixar menos confortáveis para fazerem críticas mais contundentes?

Não. Já houve tempos mais complicados, em que a associação tinha um subsídio corrente que a podia deixar mais amordaçada. Tanto que fiz questão de agradecer publicamente a Inês Barroso (vice-presidente da câmara) e de a sensibilizar para uma questão que está aqui ao pé da porta, que é o estado da Torre da Trindade. O que lhe disse é que queremos cumprir a nossa função social e que a câmara e outras instituições nos ajudem. A cidade está muito sectarizada, mesmo ao nível da cultura. Não faz sentido nenhum andarmos separadamente a falar das mesmas questões.

Há 20 anos Santarém tinha em curso uma candidatura a património mundial, que acabou por ser retirada. Foi um objectivo megalómano ou a cidade pode sonhar em vir a ter esse estatuto um dia?

Acho difícil no actual estado de coisas. Não vejo massa humana motivada para isso, no geral.

E a cidade, em si, tem condições para isso?

Temos que pegar num exemplo, que é o centro histórico. Anda-se há anos de mais no velório do centro histórico, a falar dos problemas do centro histórico, e não se sai disso...

E como é que se resolve esse problema?

Só se alcançarão soluções com o trabalho concertado da câmara, dos particulares, da associação do património e de outras entidades. É necessário criar condições para que as pessoas se instalem lá. O problema ali é falta de gente.

Como se convence as pessoas a irem viver ou a investir numa zona da cidade envelhecida e esvaziada de serviços, com ruas estreitas e mal servida de estacionamento?

Sinceramente, seria uma grande pretensão ou falta de noção responder, quando tanta gente já pensou sobre isso e não foi capaz de resolver. Se há coisa que não quero ser aqui na associação é sabichão.

Quando olha para o centro histórico de Santarém fica contente com o que vê?

Fico contente por aquilo que está de pé. Como a Torre da Trindade, aqui ao lado. O convento foi abaixo mas a torre ficou de pé e é um dos maiores símbolos da defesa do património em Santarém. Senão fosse o professor Veríssimo Serrão tinha ido abaixo.

A mobilização da comunidade é fundamental nestas causas.

Sim, mas quem se mexeu na altura foi Veríssimo Serrão, não foram as massas...

A sociedade escalabitana, se calhar, não tem estado muito virada para essa causa do património que envolve apenas um nicho de pessoas.

Hoje nada se faz sem lóbis. As pessoas não se mobilizam se não houver um determinado grupo de gente informada ou até especialista e habilitada a falar dos assuntos. E é isso que a associação pretende ser. Por isso é que queremos criar um conselho científico para nos dar alguma autoridade para falar e sermos ouvidos. Queremos ser contra-corrente mas com muito civismo.

Antes de abraçar este desafio aconselhou-se junto de figuras ligadas à causa da defesa do património e ao passado da associação, como Pedro Canavarro, Jorge Custódio, Maria Emília Pacheco ou José Miguel Noras?

Eu não me aconselhei mas a equipa aconselhou-se. A associação quase morreu, quem a mantinha fez o melhor que pôde mas depois foi preciso recomeçar.

Convidou alguma dessas figuras para a sua lista ou para colaborar consigo?

Eu não, mas o Eduardo Tavares, que na altura estava à frente dessa campanha de renovação, e continua a estar, concertou com essas figuras e sócios de mérito os passos a dar. Houve sessões públicas para decidir o futuro da associação e, no fundo, a responsabilidade foi tomada nas mãos dos sócios de mérito, como o professor Martinho, Pedro Canavarro, Jorge Custódio, etc… O facto de estarmos aqui hoje, apesar do trabalho que a direcção desenvolveu, foi devido a eles.

Um homem da história que também se dedica à música

Gustavo Pimentel nasceu no dia 19 de Junho de 1989 no Hospital de Santarém mas no Cartão do Cidadão tem como terra natal Benfica do Ribatejo, no concelho de Almeirim. É nessa aldeia, onde vivem os pais, que continua a residir quando não está em Lisboa, onde estuda no mestrado em História Medieval, que se seguiu à licenciatura em História. A tese de mestrado vai ser sobre os campos de Santarém a sul do Tejo.

Antes de ingressar na universidade esteve dois anos no Seminário Maior de Lisboa. Foi um período intenso da sua vida. “Foram dois anos que pareceram dez. Foi uma espécie de recruta para a vida a que eu devo tudo”, diz. Constatou que o seu caminho não era seguir a vida religiosa mas mantém ligações à igreja, designadamente como membro da Real Irmandade do Santíssimo Milagre de Santarém.

Cresceu envolvido no ambiente do Rancho Folclórico de Benfica do Ribatejo, a que pertence juntamente com os pais, e isso despertou-lhe o gosto pelo associativismo. É também membro da Academia Itinerarium XIV, Ribeira Muge, do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão e cantor e percussionista no grupo Sanct’Irene Ensemble, que interpreta música antiga trovadoresca e música tradicional portuguesa.

Sente Santarém como a sua cidade e foi lá que estudou, na Escola Profissional do Vale do Tejo, antes de ingressar no ensino superior. Pelo meio ainda foi desenhador estagiário na Câmara de Almeirim. É presidente da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém desde 11 de Abril de 2019 e um dos seus objectivos é alargar a área de influência da associação a concelhos vizinhos.

“É uma vergonha Santarém não ter um museu municipal”

O que pensa do aproveitamento que tem sido dado pela Câmara de Santarém a este antigo quartel militar onde têm a vossa sede?

Há muitas ideias mas é sempre difícil colocá-las em prática. Mas, para não ser pobre e mal agradecido, tenho que dizer que a cedência deste espaço à nossa associação foi importante, tal como acontece com outras.

Era neste complexo que podia nascer um grande museu municipal que Santarém não tem?

Santarém precisa de um museu à altura de uma capital de distrito. É uma vergonha, uma questão escandalosa. Um museu municipal, como Santarém precisava, não existe. O local ideal, para mim, seria o Convento de São Francisco e as dependências envolventes da antiga Escola Prática de Cavalaria (EPC). É o melhor salão nobre que há em Santarém. Mas admito que falar é fácil. E o problema não é de agora.

Os núcleos museológicos dispersos que existem não cumprem essa função?

Quanto a mim essa solução não funciona. Nesses espaços mostram-se também coisas interessantes mas não é o melhor que temos. O melhor espólio está na reserva museológica situada debaixo do arquivo distrital. É uma mostra com um acesso muito condicionado, temporário e seleccionado. Devia estar acessível ao público, não só para as pessoas verem mas também para se estudar.

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