Entrevista | 22-01-2020 12:30

Ao piano e à conversa com o músico Mário Rui Cravo

Ao piano e à conversa com o músico Mário Rui Cravo

Mário Rui Cravo é músico e professor. Vive no Sardoal e dá aulas em Abrantes. Em entrevista a O MIRANTE desfiou algumas memórias, conversou sobre os seus projectos e contou junto a um piano a sua paixão pela música e pela vida.

Mário Rui Cravo, 57 anos, tem um novo projecto que percorre algumas das grandes salas de teatro do Ribatejo, e não só: “No piano: Mário Rui Cravo & na voz: Isabel Silva” junta um professor e uma antiga aluna numa simbiose que diz ser perfeita. A ideia surgiu quando Isabel Silva o ouviu tocar piano através de uma rede social. O desafio foi feito e a partir daí nunca mais pararam. “Queremos oferecer às pessoas uma experiência musical bonita e diferente”, afirma.

Mário Cravo vive no Sardoal e é um homem de muitas histórias de vida e pessoa respeitada na terra. Nesta conversa com O MIRANTE emocionou-se algumas vezes e deixou transparecer o amor pela filha e pela esposa que perdeu recentemente. Quem o quiser ouvir e ver a tocar ao piano composições musicais de vários artistas famosos também pode passar por um conhecido hotel de Abrantes onde actua todas as semanas.

Natural do Sardoal, Mário Cravo é professor em Abrantes há 39 anos. A música apareceu-lhe pela primeira vez na vida aos seis anos quando o pai, que tinha um bom ouvido musical, lhe comprou um acordeão. O pai era presidente do Clube de Campismo de Abrantes e tratava-o carinhosamente como se fosse um “macaco amestrado”, tal era o orgulho que tinha em vê-lo tocar. “Andava comigo atrás das pessoas para me ouvirem tocar”, explica.

Dessa altura até começar a tocar piano foi um instante. “Foi o Sargento Assis, amigo do meu pai, que me ensinou a tocar tinha eu cerca de dez anos”, refere pedindo ao jornalista para deixar escrito o nome do sargento em jeito de homenagem e agradecimento. O piano é um complemento daquilo que Mário Cravo é enquanto pessoa. “O que toco e como toco reflecte o estado da minha alma”, conta, e explica que não usa pautas e que o faz de improviso.

Os 16 anos foram decisivos para a sua vida. Foi estudar para o Conservatório de Lisboa e fundou uma banda chamada “Xeque-Mate” que andou durante alguns anos a percorrer as estradas do país. “Eramos seis elementos, mas para os concertos íamos doze: havia cerveja de borla”, brinca. Chegavam a fazer centenas de quilómetros de táxi para ir tocar. “Nós pagávamos para actuar”, refere. A banda juntou-se, recentemente, ao fim de mais de trinta anos, e encheram por duas vezes o antigo cine teatro do Rossio ao Sul do Tejo.

A composição musical não é o seu forte porque o seu nível de exigência é tão elevado que chega a desesperar. “Gosto de compor mas sou muito crítico do meu trabalho e isso às vezes perturba-me”. Mário Cravo não tem problemas em definir-se porque diz conhecer-se bem. “A minha melhor característica é ser amigo do meu amigo”, embora admita que as portas da sua casa não estão abertas a muita gente porque aprendeu que as pessoas nem sempre são boas. “Com esta postura não tenho más surpresas, só boas”, justifica-se.

Mário Cravo nunca pensou viver exclusivamente da música porque as oportunidades foram poucas. Diz que chegou a sonhar com essa possibilidade, mas nunca teve bons padrinhos e também nunca quis vender a alma ao diabo. Actualmente cobra cerca de 500 euros por um concerto, o que, segundo as suas palavras, é uma fortuna. Para além do seu novo projecto e da profissão de docente, trabalha ainda como pianista no grupo CantAbrantes e é pianista residente no Luna Hotel, actividades que o enchem de orgulho porque está entre a sua gente e na terra onde gosta de viver.

Mário Cravo nunca quis ser figura pública mas admite que tem prazer em ser reconhecido pelas suas gentes. “Gosto que digam que sou um tipo porreiro”, conclui.

Um homem dos sete ofícios e a mulher Patrícia

Há cerca de dois anos a mulher de Mário Cravo, Patrícia, faleceu e deixou-o “sem chão e sem objectivos”. Mário sofreu e ainda sofre a perda da sua companheira, mas não desistiu de viver e de continuar o seu caminho. Valeu-se da música e da actividade associativa ligada à música para não deixar escapar a alegria de continuar vivo e de se rever nos sonhos da sua filha Mariana.

Começou a tocar com a filha Mariana e tudo mudou. “Ouvir a Mariana cantar é como estar a ouvir a voz da Patrícia. É a continuação do seu legado”, conta emocionado. Mariana canta desde que acorda até que se deita. “Às vezes mando-a calar, mas o que ela não sabe é que eu estou deliciado a ouvi-la”, afirma com um sorriso no rosto.

Para além da música, Mário Cravo ocupa o seu dia fazendo de tudo um pouco. Cozinhar é a sua maior especialidade e é a filha Mariana que o garante. “Até as vizinhas do prédio vêm bater à nossa porta para provar a comida do pai”, explica. As caminhadas ao final do dia, a bricolage e a montagem de puzzles são outras das formas que o músico tem para preencher o dia. “Durmo pouco. Tenho tempo para o fazer quando for para debaixo da terra”, atira.

A filha Mariana como testemunha

A conversa com O MIRANTE decorreu na sala de estar do Luna Hotel, em Abrantes. A sala parecia reservada para o encontro e, antes de iniciarmos a conversa, Mário Cravo pediu um gin tónico que o acompanhou ao longo de toda a entrevista.

Ao seu lado estava a filha Mariana Cravo, 15 anos, que também já acompanha o pai em algumas aventuras musicais. “Quis que a Mariana viesse para conhecer melhor a minha história de vida”, explicou no inicio da conversa.

Mariana esteve o tempo que durou a entrevista agarrada ao telemóvel a actualizar as suas redes sociais, mas sempre que Mário Cravo contava alguma peripécia sobre a sua vida os seus olhos depressa se fixavam no pai: “A sério que fizeste isso pai?”, questionava surpreendida.

Em palco nunca olho para o público

Mário Cravo professor há quase décadas já perdeu a conta ao número de alunos que ensinou a tocar. Foi durante oito anos professor na escola de música do Orfeão de Abrantes e hoje dedica-se a dar aulas de piano, guitarra e acordeão em casa. Não sendo insensível a assuntos religiosos, agradece os seus êxitos e o reconhecimento das pessoas que ensinou, ao trabalho e dedicação que sempre teve.

Mário Cravo já actuou em muitos palcos ao longo da carreira, mas aquele que mais lhe enche as medidas é o do Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal. O músico refere que, em palco, nunca olha para a plateia e que já teve muitas brancas, embora sejam as boas recordações que prevaleçam na sua memória.

O professor considera que a música é poesia sem palavras, mas nunca dedicou canções a ninguém embora chore sempre que alguma o faz lembrar pessoas de quem gosta.

Para ver as estrelas numa noite de Verão, Mário Cravo, desafia os leitores de O MIRANTE a visitar os Moinhos de Entrevinhas, o ponto mais alto da vila do Sardoal.

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