Entrevista | 05-02-2020 10:00

“Em Inglaterra as pessoas são mais frias mas tudo se resolve com uma chávena de chá”

“Em Inglaterra as pessoas são mais frias mas tudo se resolve com uma chávena de chá”
TÃO LONGE E AQUI TÃO PERTO

Flávio Gonçalves trabalha em Inglaterra como técnico de radiologia e é por lá que quer continuar. Apesar das diferenças culturais o jovem da Golegã conseguiu adaptar-se facilmente ao país que decidiu deixar a União Europeia.

Flávio Gonçalves é técnico de radiologia no Pilgrim Hospital Boston, em Inglaterra. O jovem, natural da Golegã, decidiu largar tudo em Setembro de 2009 para partir sozinho para uma grande aventura por terras de sua majestade.

“Já queria emigrar desde que estava a tirar o curso de Radiologia em Lisboa. Optar pelo país foi fácil, pois Inglaterra além de contar com uma economia melhor que Portugal, tem uma língua oficial conhecida de todos e a profissão de técnico de radiologia é valorizada”, confessa o jovem de 33 anos, admitindo que se adaptou facilmente ao novo país e à cidade de Grantham.

Flávio Gonçalves explica que existem algumas diferenças entre Portugal e Inglaterra. E não é só pela condução à esquerda. Começa logo pela forma de relacionamento. Enquanto os portugueses são conhecidos por abrirem a porta a toda a gente, com os ingleses não acontece o mesmo. “Aqui as pessoas são mais frias mas tudo se resolve com uma chávena de chá”, adianta o técnico de radiologia.

Depois, o respeito entre as pessoas é muito maior. De tal forma que nos hospitais não têm seguranças à porta como acontece em Portugal. Outra diferença é a nível da gastronomia. Além de consumirem pouco peixe, por ser um alimento muito caro, muita alimentação é à base de fritos. “Chegam mesmo ao ponto de venderem nas pequenas ‘fish shops’ barras de chocolate panadas e fritas”, conta.

Saudades da família, do sol e da comida da mãe

Flávio vive sozinho e para já não tem namorada. Apaixonado pelo seu país, o jovem confessa que do que sente mais saudades de Portugal é da família, dos amigos, do sol e da comida portuguesa, principalmente a feita pela sua mãe. Felizmente, adianta, vive-se numa era em que a tecnologia ajuda a encurtar distâncias, graças às vídeo-chamadas, mensagens e emails.

Nos tempos livres, além de ir ao ginásio, sai com os amigos e viaja para conhecer o país e, claro, tenta sempre arranjar um tempinho para falar via Skype com os amigos e a família que se encontram em Portugal.

O dia de Flávio Gonçalves começa cedo, entrando ao serviço pelas oito da manhã. Segue-se um longo dia de trabalho com uma hora de pausa para almoçar. Quando não faz turnos extra é pelas 18h30 que sai do hospital e ruma a casa ou ao ginásio. É quando aproveita para descansar e ir para o fogão. “Normalmente, aventuro-me a confeccionar comida portuguesa que é a que gosto mais”, revela.

O técnico de radiologia, especializado em tomografias computorizadas ao cérebro, não tem dúvidas que o atendimento nos hospitais ingleses é muito melhor que nos hospitais portugueses. Começa logo pelo tempo de espera depois da triagem. “Em Inglaterra, se um doente esperar mais de quatro horas para ser atendido, o hospital pode ser multado”, conta, revelando que isso acontece muito raramente e normalmente são doentes menos urgentes e que requerem uma determinada especialidade.

O jovem diz ainda que também os exames são gratuitos e a medicação é bastante barata, tendo sempre um custo de cerca de nove libras, apesar do seu preço original ser maior. “Ou seja, se tiver três medicamentos caríssimos, paga-se só 27 libras”, explica o emigrante.

Flávio conta que já lhe passaram doentes de todo o tipo pelas mãos desde o politraumatizado ao que sofreu um simples acidente de trabalho. Garante ainda que os mais queixosos são os mais novos e também são os que, por norma, têm as situações mais simples de resolver. Sem ver com bons olhos o futuro da sua profissão e do país, e apesar do Brexit, Flávio diz que pretende continuar a viver em Inglaterra e constituir família ali. “Talvez quando me reformar volte para Portugal, mas até lá vou-me mantendo aqui, onde as condições são muito melhores”, afirma.

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