Entrevista | 05-02-2020 12:30

“Os autarcas de hoje deixam perder muitas oportunidades”

“Os autarcas de hoje deixam perder muitas oportunidades”
ENTREVISTA

António Mendes foi autarca durante quarenta anos, 24 deles como presidente da Câmara de Constância. Deixou a política activa no final de 2019, poucos dias antes de completar 70 anos.

Diz que os autarcas de hoje têm pouca genica e maturidade, vivem muito no gabinete e são pouco reivindicativos. Quanto à CDU e ao PCP, onde militou, diz que vêm aí tempos difíceis e não acredita num regresso dos comunistas ao poder em Constância nos próximos tempos.

António Mendes fez 70 anos no Dia de Reis, 6 de Janeiro. Foi presidente da Câmara de Constância de Dezembro de 1985 até Outubro de 2009. Saiu pelo seu pé, antes de entrar em vigor a lei de limitação de mandatos. Começou a carreira autárquica em 1979 como eleito da Assembleia de Freguesia de Santa Margarida da Coutada, de onde é natural e onde vive. Foi também vereador da oposição antes de chegar à cadeira do poder.

Em Dezembro de 2019, quarenta anos depois de se ter iniciado nas lides do poder local, renunciou ao mandato na assembleia municipal, órgão autárquico que liderou depois de deixar a presidência da câmara. Agora chegou a hora de descansar, porque a saúde está primeiro, como referiu na entrevista a O MIRANTE realizada em sua casa, na Portela, onde vai tratando da horta e das galinhas.

Gosta de ver futebol na TV, sobretudo o seu Benfica, e durante o tempo de aulas vai buscar o neto de sete anos à escola e ajuda-o a fazer os deveres. Por isso diz que tem o tempo bem ocupado. Diz que leva uma vida normal, embora ainda esteja a recuperar das cirurgias a que foi sujeito em 2019: duas ao coração, de tórax aberto, e uma ao nariz. “Três anestesias gerais em menos de seis meses não é brincadeira”, diz.

A Câmara de Constância está bem entregue ao jovem Sérgio Oliveira (PS)?

A partir do momento em que as pessoas votaram nesse sentido, parto do princípio que ficou legitimado. É um jovem talvez um pouco imaturo, mas há coisas que só o tempo nos ensina. A nível do concelho não se têm visto grandes obras, tirando intervenções correntes.

Os autarcas de hoje parecem ter menos carisma do que os de há 20 ou 30 anos ou não têm sequer tempo para o consolidar devido à lei de limitação de mandatos?

Penso que há alguma diferença em relação aos autarcas da minha geração. Quando cheguei à câmara tinha muitos anos de trabalho e muita experiência às costas.

Falta-lhes experiência profissional e cultura política?

Muitos deles saem da faculdade e vão para a actividade autárquica sem terem lido os compêndios que falam dessas coisas. Faltam autarcas maduros, com cultura política e experiência de vida.

E isso reflecte-se depois no desempenho político...

Sim. Numa câmara confrontamo-nos com múltiplos problemas e solicitações, temos que correr para todo o lado sem deixar perder oportunidades. Essa é um das coisas que mais noto, que se deixam perder muitas oportunidades.

Ainda nesse âmbito a percepção com que se fica é que, salvo as habituais excepções, os autarcas de hoje são menos reivindicativos e menos pressionantes junto do Governo central.

Tenho essa sensação. A ideia que passa cá para fora é que os autarcas de hoje vivem muito no seu gabinete e são menos reivindicativos, talvez para não parecer mal, talvez porque a maioria é afecta ao partido do Governo.

O espírito de capelinha parece continuar a imperar. Os projectos supraconcelhios são escassos. As margens do Tejo estão uma lástima e por aproveitar em boa parte do seu curso pelo Ribatejo.

Os rios, nesta zona, deviam ser olhados em conjunto pelos municípios de Abrantes, Tomar, Barquinha e Constância. As margens estão uma desgraça. A margem direita junto à foz do Zêzere, no concelho da Barquinha, está uma lástima. Aquelas escadarias estão todas escavacadas. Tudo aquilo devia ser arranjado, criarem-se uns caminhos pedonais… Não há dinheiro? Tem que se ir à procura dele! A zona da Foz do Zêzere devia ser bem aproveitada, tanto de um lado como do outro. Fazer-se ali um bom projecto, como o do Parque Ambiental de Santa Margarida, por exemplo.

Admitia ver o concelho de Constância agregado a outros concelhos?

Não tenho um pensamento profundo relativamente a essas questões. Continuo a ver-me aqui, no meu concelho e na minha freguesia…

Esse talvez seja um dos problemas dos autarcas: olharem demasiado para a sua paróquia e não conseguirem ver para lá do muro.

Talvez seja, mas não convivo com estas coisas há muito tempo. Saí da câmara em 2009. Se estivesse lá hoje teria, provavelmente, uma perspectiva diferente.

O que pensa do trabalho da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT)?

Não me entusiasma muito, mas tudo tem uma história. Nós começámos por formar a Associação de Municípios do Médio Tejo aqui em Constância, com sede na Casa de Preanes. Depois criámos a CIMT, que também tinha sede em Constância. Entretanto houve uma panelinha entre os presidentes de Abrantes, Tomar e Torres Novas e a partir do momento em que decidiram que ficava aqui um pólo da CIMT e que a sede ia para Tomar perdi o entusiasmo.

“Não tenho obra que justifique uma estátua”

Ao fim de 40 anos de vida autárquica sai pela porta pequena, renunciando ao mandato de eleito da oposição na assembleia municipal. Era este o fim de carreira política que queria ou previa há uns anos?

Não espero nada que me compense ou recompense daquilo que foi a minha vida autárquica. Porque o que tinha a esperar foi-me dado.

Ser eleito da oposição não estaria nos seus horizontes há uma dúzia de anos...

Verdade. Mas não foi nada que eu não antevisse entretanto…

Já previa uma mudança de cor política na Câmara de Constância?

Esperava que as coisas se alterassem neste último mandato.

Porquê? Por causa dos candidatos da oposição? Por causa dos vossos candidatos? Pelas cisões na CDU?

Sobretudo por tudo aquilo que a CDU e os seus eleitos poderiam ter feito e não fizeram. Aquilo que valorizava mais a nossa intervenção, que era a grande ligação à população, do meu ponto de vista não foi tão conseguido nos dois últimos mandatos. Não souberam agarrar esse capital.

A sua sucessão na CDU não correu muito bem. Máximo Ferreira só fez um mandato como presidente e, posteriormente, Júlia Amorim acabaria por perder a câmara para o PS liderado por um jovem desconhecido da política.

Esse jovem não era tão desconhecido assim. É um jovem da maior freguesia do concelho, ligado ao movimento associativo. Depois, houve uma coisa importante e que vai continuar a ser no futuro: do ponto de vista sociológico, 80 por cento das pessoas do concelho são socialistas. Se tivesse sido outro candidato pelo PS, provavelmente também ganhava.

Daí deduz-se que era o António Mendes que fazia a diferença quando a CDU ganhava eleições em Constância.

Se calhar há coisas que não me ficam bem dizer, mas era toda uma política em que o responsável máximo da autarquia estava muito ligado à comunidade. Era eu que fazia a diferença? Evidentemente que contribuí bastante, mas ninguém faz nada sozinho.

Gostava que fosse cumprida a recomendação da assembleia municipal para que seja erguido um busto em sua homenagem?

Quando me falam nisso desato a rir. Isso foi aprovado pela primeira vez no anterior mandato, quando a CDU ainda era poder. Neste mandato já foi aprovado também, creio que duas vezes. Não me adianta nem me atrasa. Não é com isso que preencho o meu pensamento. No princípio deste mandato o actual presidente pediu-me para ir à câmara falar sobre isso. E disse-lhe que fizessem o que entendessem, mas estátuas não… Acho que não tenho obra que justifique uma estátua.

Acha que a CDU tem capacidade e recursos humanos para se regenerar e voltar a ser poder em Constância?

Vai ser muito difícil. O que faz as forças políticas são as pessoas. Neste momento vejo isso com alguma dificuldade, mas não quer dizer que não surja capacidade e força. É um concelho pequeno, com determinadas características, em que o presidente tem sido sempre aqui de Santa Margarida. Não é fácil encontrar uma pessoa que se afirme num contexto como aquele que vivemos.

Até porque não é fácil derrotar um presidente de câmara ao fim do primeiro mandato.

A CDU vai concorrer, não quero tirar-lhe entusiasmo e força, mas os próximos dois mandatos vão ser de luta, porque o PS vai com toda a certeza ganhar as eleições.

“O PCP vai ter uma vida muito difícil”

Continua amigo de Cavaco Silva, o Presidente da República que lhe atribuiu a Comenda da Ordem de Mérito?

Continuo. Falei algumas vezes com ele.

Foi apoiante dele quando se candidatou à Presidência da República, apesar de ser da CDU.

O que ele fez por Constância merecia esse apoio, mesmo que eu ainda vestisse a farda do PCP, o que penso que já não acontecia na altura.

Nunca mais pensou em refiliar-se no PCP?

Não pensei nem penso. Tal como não pensei em filiar-me em qualquer outro partido. Creio que nunca serei pressionado por uma ideia dessas.

O PCP tem futuro?

O PCP vai ter uma vida muito difícil. Verificamos que os jovens fogem de militar no partido, de aderir às suas ideias, e, se os jovens não o fazem, quem lá está hoje também não dura sempre.

Terá que ser o PCP a adaptar-se à realidade, a aligeirar os seus dogmas ideológicos?

Os jovens intelectuais e os mais letrados preferem a extrema-esquerda, pois é fino. Ser do PCP tem um peso muito grande. As pessoas ainda vivem com aquele trauma de que é um partido velho, um partido retrógrado, sem ideias novas, que não olha para os jovens…

E não haverá alguma verdade nisso?

É provável que haja. O PCP muitas vezes agarra-se a coisas que são inalcançáveis.

Continua a votar no PCP?

Sim. Só não votei no PCP/CDU nas eleições presidenciais em que Cavaco Silva se candidatou.

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