Entrevista | 15-03-2020 18:00

“A tentativa de corrupção a um engenheiro civil vai sempre existir”

“A tentativa de corrupção a um engenheiro civil vai sempre existir”
TRÊS DIMENSÕES

João Paulo Duarte Carvalho tem 49 anos, é casado e tem duas filhas.

João Paulo Duarte Carvalho tem 49 anos, é casado e tem duas filhas. É presidente da delegação distrital de Santarém da Ordem dos Engenheiros. Defende que a melhor obra pública feita em Santarém, ao nível das acessibilidades, foi a Rua O. E uma das melhores requalificações feitas no centro da cidade foi a do Teatro Sá da Bandeira. No campo privado, defende que o W Shopping veio dar vida à cidade.

Se não fosse engenheiro civil não sei o que seria. Sempre soube que queria ser engenheiro civil, mas ainda estive indeciso entre arquitectura, dúvida que passou depressa. Na vida, tudo é engenharia, até o simples processo de abrir uma torneira, e isso fascina-me.

Nasci e fui criado na Ribeira de Santarém. Foi sentado à porta de casa que comecei a fazer os primeiros desenhos de casas. Andei na escola primária da Ribeira, depois no Liceu Sá da Bandeira e na Escola Secundária Dr. Ginestal Machado. Fui para o Instituto Politécnico de Tomar onde tirei o bacharelato e, em 2005, retomei os estudos e terminei a licenciatura. Tenho ainda duas pós-graduações que tirei no ISLA de Santarém.

Tive a felicidade de sempre ter trabalhado na minha área de formação. A minha primeira experiência profissional foi numa empresa de construção civil nacional depois fui para uma multinacional. Entre 2000 e 2002 estive no gabinete de projectos dos Serviços Municipalizados de Vila Franca de Vira e entre 2002 e 2018 fui funcionário da Câmara Municipal de Santarém.

Estou num momento da minha vida em que decidi parar um pouco em termos profissionais. Desde 2019 dedico-me em exclusivo à Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) e à direcção da delegação de Santarém da Ordem dos Engenheiros. O dinheiro não pode estar acima da saúde e da família. Quando começa a acontecer isso há que parar e rever as prioridades.

Uma obra pública que considero ter sido pensada com uma boa intenção foi a requalificação do Teatro Sá da Bandeira. Está uma obra fantástica, das melhores feitas até hoje em Santarém. Ao nível privado, considero que o W Shopping foi uma boa obra, em vários sentidos, porque veio dar vida ao centro da cidade.

O que falta em Santarém é dinamismo para tirar partido das nossas potencialidades e também dos fracassos das cidades em redor. Por exemplo, não consigo compreender como é que Santarém não consegue captar as pessoas que não têm poder de compra para adquirir ou arrendar casa em Lisboa, com a crise imobiliária que se faz sentir naquela cidade.

Há vários espaços em Santarém a precisar de uma intervenção urgente como o Largo dos Pasteleiros, por exemplo. Santarém tem um problema muito sério ao nível das acessibilidades. A Calçada do Monte tem que ser urgentemente mexida. Tal como a Avenida do Brasil porque tem um erro crasso: os separadores centrais. Se estiver em hora de muito trânsito na via da esquerda e o carro se incendiar, não se consegue abrir a porta. Não existe uma variante ao Vale de Santarém. A viagem até ao Cartaxo pode demorar imenso e isso poderia ser evitado.

A Rua O foi estruturante para a cidade mas em termos políticos valeu zero. Foi uma obra que já era esperada há muitos anos. As pessoas reclamavam muito e na altura o presidente da câmara, Rui Barreiro, não ganhou politicamente nada com a conclusão da obra.

É inevitável haver tentativas de corrupção aos engenheiros civis. Aconteceu-me uma vez. Estava a iniciar a carreira, não percebia porque é que um cliente da empresa onde trabalhava me oferecia sempre os almoços. Só quando me ofereceu estadia na sua casa de férias é que entendi. Recusei e dei-lhe a entender que não conseguiria que eu assinasse o que quer que fosse que não estivesse dentro da legalidade. Mas sei de muitos casos em que se deixam ir e acabam por estragar uma carreira por meia dúzia de tostões. Mas ainda há muitos engenheiros civis honestos.

Nunca fui de férias para o estrangeiro, sou uma pessoa pouco deslumbrada e poupada. O mais longe que fui foi a Espanha. Tenho outras prioridades, neste momento, a nível familiar. As férias são feitas em Portugal, numa casa que comprámos em Almograve.

Gosto de BTT mas pratico com menos regularidade do que gostaria. É uma óptima forma de conhecer o país. Já estive em vários locais. Nos tempos livres gosto de ler, mas apenas livros técnicos. Ao cinema já não vou há cerca de oito anos. Ao teatro fui recentemente ver a peça do Grupo Veto Teatro Oficina, A Cidade, de que gostei muito.

Não sou um grande aficionado mas a polémica em torno das corridas de toiros levou-me a ir mais vezes. Defendo a democracia e que as opiniões devem ser respeitadas. Vou mais às corridas para defender aquilo que é uma tradição. Mas tenho pena de ver a Praça de Toiros Celestino Graça a deteriorar-se. Deveria seguir o exemplo da Praça de Toiros de Almeirim e ser multifacetada.

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