Entrevista | 05-05-2020 07:00

Paulo Gaspar sonha com uma sala de espectáculos em Azambuja

Paulo Gaspar sonha com uma sala de espectáculos em Azambuja

Paulo Gaspar, natural e residente em Azambuja, é um nome reconhecido a nível nacional no mundo do jazz.

O MIRANTE conversou com o músico que fala da paixão pelo clarinete e saxofone, dos empresários oportunistas e medita sobre a liberdade criativa daquela corrente musical.

O jazz é como a sopa: vai-se gostando mais à medida que se envelhece. É uma expressão válida, considera o azambujense Paulo Gaspar, clarinetista, saxofonista, professor de música e apaixonado por aquela corrente musical. Tal como com a sopa, também no jazz é preciso saber onde meter primeiro a colher para começar a degustar.


Paulo Gaspar deu a sua primeira entrevista a O MIRANTE a propósito do Dia Internacional do Jazz, que se assinala a 30 de Abril. Uma data marcada este ano pela pandemia de coronavírus que está a deixar muitos músicos aflitos com falta de trabalho. “Para quem vive dos concertos está a ser dramático”, alerta.


Natural de Azambuja, terra onde vive, Paulo é um dos nomes grandes do jazz nacional, seja pelo seu percurso pessoal enquanto membro de bandas como os Dixie Gang, Lisbon Underground Music Ensemble (do qual foi membro fundador) e orquestra de jazz do Hot Clube de Portugal. Mas também enquanto professor da Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, da Academia Nacional Superior de Orquestra e da Escola Superior de Música de Lisboa.


“É uma grande alegria conseguir trabalhar numa área de que gostamos tanto. A música não é um trabalho mas sim uma paixão, que se faz naturalmente. A população acha estranho a música poder ser uma profissão porque os músicos se divertem. Mas é preciso muito treino. É uma arte de alta competição”, conta.


Começou a aprender música na banda de Azambuja. Aos 19 anos foi para a banda da Armada onde ainda hoje se encontra. Assim que começou a aprender um instrumento sentiu que era o que queria fazer para o resto da vida. “As filarmónicas têm um papel muito importante no ensino da música. É uma arte que pode tornar-se profissão e isso é muito interessante. É preciso dizer aos pais que podem estar a investir num futuro profissional promissor para os filhos se os introduzirem à aprendizagem de música”, defende.


É um apaixonado pelo jazz, que classifica como sendo a mãe de todas as correntes musicais. “O jazz é a linguagem que permite chegar a todos os grupos. O rock e o pop derivam do jazz. Todos os músicos deviam aprender um bocadinho desta música”, considera.


Paulo Gaspar elege a liberdade criativa como a grande mais valia do jazz. “Podemos tocar à nossa maneira e não apenas interpretar as músicas de acordo com os manuais. No jazz há uma grande autenticidade no momento de improvisar. Até para o espectador, que nunca sabe o que vai encontrar. É sempre surpreendente porque não há solos iguais”, conta.

Borlas só por uma boa causa

Paulo defende que a actividade musical deve ser encarada como uma profissão que tem de ser remunerada, condenando por isso as tentativas de empresários que tentam sempre sacar actuações à borla. “Não me importo de tocar de borla desde que o contexto seja muito bem explicado. Por exemplo, iria de bom grado fazer um baile de gala para ajudar a comprar ventiladores para um hospital”, confessa.


No passado já teve de lidar com empresários oportunistas. Montou um concerto e ganhou tanto como o resto dos músicos. “Isso é ofensivo. Nos anos 90 participei em concertos para ajudar África e viemos a saber que o dinheiro nunca lá chegou. O mundo da música foi dominado por empresários mafiosos nos anos 90, mas felizmente hoje as coisas estão mais transparentes”, destaca.


Paulo considera que o jazz tem ganho maior visibilidade e que a corrente musical tem crescido. “Quem diz que o jazz morreu não sabe do que está a falar”, anuncia. O jazz português está vivo e com pulso acelerado e o Ribatejo tem sido uma maternidade de talentos para essa corrente. “Em Vila Franca de Xira as Jam Sessions, que são feitas na biblioteca, são também um bom exemplo. Um dia vou lá ter com eles. Só é pena não haver uma grande escola de jazz em Vila Franca de Xira”, considera.


E voltando à “sopa”: então por onde se deve começar a ouvir jazz para se poder gostar? “Não se pode começar pela sobremesa. Uma pessoa que comece a ouvir o ‘Love Supreme’ de John Coltrane, nunca mais voltará a ouvir jazz por ter uma intensidade brutal. É preciso primeiro conhecer a história e depois ir evoluindo para artistas mais complexos”, explica.
Louis Armstrong com Hot Seven, Benny Goodman, Duke Ellington ou o álbum “Kind of Blue”, de Miles Davies, são bons para começar. Depois é evoluir para Charlie Parker e John Coltrane. “O mais importante é a ordem como se ouve, como numa refeição, não começamos logo pela sobremesa mas sim pelas entradas”, conclui.

“Azambuja já merece uma sala de espectáculos”

Um dos sonhos de Paulo Gaspar é ver nascer uma sala de concertos a sério na sua terra. “Seria maravilhoso se isso acontecesse, porque não temos nenhuma”, lamenta. O auditório que existe, no Páteo Valverde, é demasiado pequeno e sem grande acústica para receber espectáculos de qualidade. “É uma pena que Azambuja não tenha uma sala de espectáculos, é daquelas coisas que lamento imenso”, confessa.


Diz que a vila está na mesma ao longo dos anos mas que apesar disso gosta de lá viver. “É uma terra pacata e boa para os meus filhos crescerem. Estamos muito perto de Lisboa de comboio”, refere.

“Gostava de almoçar com o Woody Allen”

Paulo Gaspar tem 50 anos, nasceu e vive em Azambuja, é casado e tem três filhos. Nunca foi a Nova Iorque ouvir o clarinetista e cineasta Woody Allen, mas gostava de o fazer. “Até gostava de almoçar com ele”, diz com um sorriso.
Tira-o do sério estar em palco a actuar e ouvir gente na plateia a conversar. A quem o considera ser um dos nomes grandes do jazz nacional diz agradecer a simpatia mas não se considera como tal. Tem um disco de clarinete e electrónica para gravar e outros projectos para o futuro, incluindo peças originais por estrear que estão na gaveta à espera do fim da pandemia.


É formado pela Escola Superior de Música de Lisboa, prosseguiu o mestrado na Universidade Nova de Lisboa e em 2011 concluiu o doutoramento em Música e Musicologia na Universidade de Évora. Já leccionou em diversos conservatórios e é frequentemente convidado a realizar masterclasses de clarinete e introdução ao jazz. Tem gravado e colaborado com importantes músicos portugueses e a maioria das orquestras nacionais eruditas e de jazz.

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