Entrevista | 17-06-2020 18:00

“Os encarregados de educação de hoje são excessivamente protectores”

“Os encarregados de educação de hoje são excessivamente protectores”
TRÊS DIMENSÕES

José Carreira tem 58 anos e é desde 2006 responsável pela gestão do Agrupamento de Escolas de Almeirim.

É professor desde 1981, mas diz que tudo se iniciou por acaso. Gerir um agrupamento de escolas que tem cerca de 260 docentes e 2.300 alunos não é tarefa fácil, mas admite que gosta de desafios.

A minha carreira como professor começou em 1981. Terminado o curso na Escola Agrária de Santarém fui acompanhar uma prima professora a um concurso para docentes. Uma ex-professora perguntou-me se queria concorrer. Concorri e fiquei colocado. Comecei a dar aulas na Escola Secundária de Rio Maior e depois passei por várias escolas de Lisboa, nomeadamente a Escola Agrícola da Paiã. Mais tarde estive em Coruche durante três anos, tendo sido colocado em Almeirim em 1993, onde me mantenho até hoje.


O que mais me cativou no início, sendo tão novo, foi o bom ambiente vivido nas escolas e o primeiro ordenado. Um cheque de cerca de 20 mil escudos. Nunca tinha sonhado ser professor, era algo que não me passava pela cabeça. Acabei por iniciar aí uma carreira de que gosto e que me orgulha. Depois fiz duas formações em Administração Escolar que me permitiram enveredar pelo cargo de gestão que hoje ocupo. Como director, preocupa-me criar as melhores condições de trabalho para todos os elementos da comunidade.


Ao longo da minha carreira posso dizer que a escola mudou. Hoje a escola está mais aberta à comunidade e há uma participação maior de elementos externos à escola, na vida da mesma. Isso é muito positivo. No entanto, aquilo que há anos não era questionado, hoje merece reparos, algumas vezes com razão, mas a maioria das vezes não. Refiro-me aos docentes, alvo de críticas de elementos que, por vezes, não estão por dentro daquilo que se pretende na educação. Acontecem algumas faltas de respeito evitáveis. Os encarregados de educação hoje em dia são excessivamente protectores dos seus educandos, não aceitando, muitas vezes, chamadas de atenção por parte da escola. Cada vez mais exige-se profissionalismo e atenção ao desempenho da actividade docente, para não dar azo a dúvidas. É muito diferente de antigamente.


Se estivesse hoje a iniciar uma carreira voltaria a ser professor. Há questões perturbantes que hoje os professores enfrentam. Alguma falta de respeito e incompreensão da sociedade, associada a dificuldades na progressão na carreira, faz com que não haja muitos candidatos a esta profissão. Hoje é difícil atingir o topo da carreira.
O professor é um pilar fundamental na formação de uma pessoa. Pessoalmente, jamais esquecerei o meu professor da escola primária, o professor Churro, que me acompanhou desde a 1ª à 4ª classe e me preparou para o exame da 4ª classe que, antigamente, era tão importante como fazer 18 anos ou tirar a carta.


Ser director de um agrupamento de escolas exige qualidades como resiliência, persistência, tolerância, muita humanidade e capacidade de diálogo. Lidamos com crianças, jovens e adultos a conviverem no mesmo meio. Jovens em idades complexas e com comportamentos diferentes de antigamente. É necessário articular com pais, autarquia e representantes da comunidade. Cumprir com as directrizes da tutela também não é tarefa fácil, é preciso muita capacidade de resposta, porque querem tudo para ontem.
Nunca pensei que fosse fácil assumir a direcção, mas calculei que fosse ficando mais fácil ao longo dos tempos. Isso não aconteceu. Decidi em 2006 assumir a gestão do agrupamento, porque quis rentabilizar o mestrado que tirei em Administração Escolar. No início era só uma escola, neste momento são onze de todos os níveis de ensino, porque juntaram tudo num só agrupamento. Mas gosto de desafios e, acima de tudo, de criar condições para a comunidade escolar trabalhar com dignidade. Depois é o gosto especial de ver o percurso de alunos, desde o pré-escolar até à sua saída para o ensino universitário ou mercado de trabalho. Entram crianças e terminam como jovens adultos responsáveis. Essa evolução é o que move os docentes e o director em particular, pois é o responsável pelo projecto educativo do agrupamento.


Sou natural e residente em Santarém e lamento a desertificação do centro histórico. Desde que há muitos anos entregaram o centro histórico aos peões e proibiram os carros de passar nas principais ruas de comércio que o centro da cidade perdeu muito. Há muitos edifícios em mau estado ou abandonados. O caso do Teatro Rosa Damasceno é uma pena. O presídio tem uma cúpula linda e não é aproveitado. Santarém tem vários locais a precisar de serem intervencionados.


Almeirim é uma excelente cidade para se trabalhar. Tem um presidente da câmara muito dinâmico, sempre preocupado com a comunidade escolar e a população em geral. Nunca fui de fazer desporto, mas todos os anos, nas férias, vou uma semana para a neve. Mas adoro Portugal. Sintra é um dos meus locais preferidos. Gosto de agricultura e jardinagem. Já fui de ler quando era jovem, mas agora não tenho tempo. Prefiro ver filmes e séries. Mas entretenho-me mais na jardinagem e na agricultura. Não gosto de derrotas mas tive que aprender a lidar com elas, até pelo facto de ser sportinguista.

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