Entrevista | 22-06-2020 10:00

“Quando descobrimos utentes infectados no lar nem consegui dormir”

“Quando descobrimos utentes infectados no lar nem consegui dormir”
TRÊS DIMENSÕES

José Joaquim Alves, 67 anos, provedor da Associação do Hospital Civil e Misericórdia de Alhandra.

Novo provedor tomou posse a 3 de Fevereiro, poucas semanas antes do início da pandemia de coronavírus. José Alves é sócio da maioria das associações de Alhandra e engenheiro mecânico de profissão. Nunca teve medo do trabalho e defende que a idade da reforma deveria ser antecipada. Quando soube que tinha quatro utentes infectados com Covid-19 no lar que dirige sentiu um murro no estômago e não conseguiu dormir. Mas como não é homem que se derrube facilmente meteu pés ao caminho e mobilizou a equipa para lidar com o desafio. Hoje a Misericórdia de Alhandra não tem casos de infecção. Confessa-se uma pessoa optimista que acredita que o melhor ainda está para vir.

Não me considero viciado em trabalho mas tenho dificuldade em não trabalhar. Tanto mais que assim que me reformei surgiu-me uma oportunidade de trabalho na área comercial e aceitei. A ética e a deontologia são importantes em todas as áreas. Devemos sempre pugnar por fazer as coisas bem feitas porque quando isso não acontece colocamos em causa o trabalho de todos. Entendo que a vida deve ser feita de conhecimento contínuo e nunca termos medo de aprender coisas novas e mudar quando é preciso. Não nos devemos acanhar.


Irrita-me a falta de palavra e a desonestidade. Sou um pacificador e diria que sou um falso calmo. Tenho necessidade de me controlar nas situações difíceis. Mas sinto-me bem na pele de provedor. Estou a dar o meu melhor sem receber nada, contribuindo para a sociedade. É o meu contributo social. Nasci no concelho de Alenquer mas vim para Alhandra quando tinha um ano de idade por isso considero-me um alhandrense. Hoje vivo em São João dos Montes. Sou sócio da maior parte das colectividades de Alhandra. Em duas delas já tenho mais de 50 anos de sócio: no Alhandra Sporting Club e na Euterpe, onde estou também no conselho fiscal.


Enquanto engenheiro mecânico comecei na Mevil, em Vila Franca de Xira, como chefe do gabinete de estudos e projectos. A empresa teve problemas e fiquei com dinheiro por receber. Depois fui para a Mague, em Alverca, onde entrei no controlo de qualidade. Saí antes de me despedirem. A Mague era um mundo e em termos industriais era o nosso orgulho. Tínhamos engenharia cem por cento portuguesa e foi uma grande escola de vida e de profissão. Estávamos muito avançados para a época e até havia planos para fazer centrais nucleares. Felizmente, trabalho nunca me faltou nem nunca tive problemas em arranjá-lo. Quando estava numa outra empresa fui responsável pelo módulo 3 do Centro Cultural de Belém, no que diz respeito às caixilharias, vidro, alumínio e ferro. Tive uma vida profissional intensa.


É importante as pessoas reformarem-se em idade activa. Para usufruirem dos anos que lhes restam a fazerem coisas que lhes dão prazer. Gosto de me sentir activo. Se pudermos conciliar a vida profissional e a vida pessoal e social é o ideal. A minha relação com a Misericórdia de Alhandra começou em 1997 quando fui convidado para a mesa administrativa.


Não se pode dizer que tivemos uma entrada calma nestas funções, por causa da pandemia. Não é fácil mas não estou nada arrependido de ter aceite o desafio. Tenho o mesmo prazer que tinha, mas confesso que está a ser mais trabalhoso do que era expectável. Nunca baixámos os braços mas não estávamos à espera de uma situação destas. Não acreditávamos que isto fosse acontecer. Foi completamente surreal. Felizmente temos um grupo de profissionais muito bem e com muitos anos de experiência que nos ajudou a montar um plano de contingência que seguimos à risca.


O maior choque foi quando fui chamado pelo presidente Mesquita para uma reunião na câmara por causa da Covid. Como tinham estado a fazer testes no dia anterior desconfiei logo. Deram-me a notícia dos quatro casos positivos e foi como um murro no estômago. Estava preparado para tudo menos para lidar com isso. Ainda assim não tive medo, tivemos de meter tudo a funcionar sem hesitações. Isolámos os utentes sem problemas e correu tudo bem. Os utentes têm aguentado estoicamente. Entretanto já fizemos mais dois testes em semanas diferentes e deram sempre negativo. Foi um alívio.


Nessa noite nem consegui dormir. Posso dizer que foi o período mais complexo e difícil de ultrapassar desde que estou nestas funções. Os nervos não foram de aço, foram frágeis, mas sempre tive confiança que íamos dar a volta a isto. Procuro não sofrer por antecipação mas gosto de planear e não dar passos em falso. Agora temos uma vigilância constante, não podemos baixar a guarda em nada, não podemos facilitar. Melhorámos os cuidados de desinfecção. A pandemia acabou por ser uma boa escola para termos mais cuidados no futuro. Apesar de nos estar a sair muito caro tudo isto. Mas sabemos que um dia em que facilitemos temos grandes hipóteses de morrer.


Sou um optimista e entendo que é por aí que devemos olhar o futuro. Tenho o sonho de ampliar a associação e criar ainda melhores condições para quem cá trabalha e reside. Vamos tentar concretizar esse sonho e devemos sempre acreditar que coisas melhores estão ao virar da esquina.

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