Entrevista | 23-06-2020 07:00

Mais de 500 idosos e 300 profissionais em lares ilegais no Médio Tejo

Mais de 500 idosos e 300 profissionais em lares ilegais no Médio Tejo

Maria dos Anjos Esperança é coordenadora da Unidade de Saúde Pública do ACES Médio Tejo. Na sua área de actuação foram identificados 76 lares ilegais com mais de 500 idosos e 300 profissionais.

Maria dos Anjos Esperança é coordenadora da Unidade de Saúde Pública do ACES Médio Tejo. Na sua área de actuação foram identificados 76 lares ilegais com mais de 500 idosos e 300 profissionais. A delegada de saúde receia que o pior da pandemia ainda não tenha passado e considera que o desconfinamento está a ser feito com demasiado à vontade.

Na região do Médio Tejo foram identificados 76 lares ilegais com mais de meio milhar de idosos e três centenas de profissionais. A informação é dada pela coordenadora da Unidade de Saúde Pública dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo. Maria dos Anjos Esperança diz que os idosos em lares, licenciados e não licenciados, estão confinados e dependentes do apoio de outras pessoas que entram e saem por isso estão mais vulneráveis e expostos ao novo coronavírus.


“Nos lares não licenciados o risco de contaminação é maior porque existe uma maior proximidade entre as pessoas. Por vezes há sobrelotação e não existirá o número de cuidadores necessários. Nos lares licenciados há uma vigilância mais assertiva”, afirma em entrevista a O MIRANTE. Acrescenta que já se estão a realizar testes aos profissionais dos lares, legais e ilegais, do Médio Tejo, sublinhando que este não é tempo para fiscalizar mas sim para ajudar no que for preciso de forma a evitar mais contágios nestas estruturas.


A médica considera que as pessoas estão a fazer um desconfinamento com demasiado à vontade. “Todos os dias, quando vou para casa, passo por algumas esplanadas cheias de pessoas, onde não se respeita nem metro e meio de segurança. Tenho receio que a situação piore e que tenhamos que fazer novo confinamento, o que não será bom para ninguém, sobretudo a nível mental”, alerta, ressalvando que as pessoas podem sair de casa mas devem continuar a manter as regras de distanciamento, uso da máscara e lavar as mãos.


O sucesso de Portugal não ter tido tantos casos como Espanha ou Itália foi terem sido tomadas as medidas certas precocemente. “Os cidadãos perceberam que tinham que ficar em casa para se proteger e proteger a sua família. Isso fez toda a diferença e permitiu que o Serviço Nacional de Saúde aguentasse o aumento de casos e desse resposta a todos com eficácia”, destaca.


No Médio Tejo também há casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus em bairros sociais. A delegada de saúde pública admite que por vezes é difícil manter algumas pessoas isoladas, mas com o apoio das forças de autoridade e autarcas têm conseguido fazê-lo. Maria dos Anjos conta a O MIRANTE que pelo menos seis pessoas do Médio Tejo, que trabalham na zona de Azambuja e na construção civil em Lisboa, contraíram a Covid-19 nos locais de trabalho. “Por isso é fundamental sermos notificados de todas as pessoas que estão infectadas para tentarmos travar a propagação do vírus”, explica.

A importância da comunicação social

Durante a pandemia Maria dos Anjos Esperança sempre falou com os jornalistas e deu toda a informação e os números reais dos infectados na sua área de actuação. A médica considera essencial uma boa relação com os meios de comunicação locais e regionais uma vez que, diz, são o veículo mais importante para fazer chegar a informação às pessoas.


“Temos que partilhar a informação para que saibam que não estamos a esconder nada. Se não dermos os números correctos a população vai ficar com medo e achar que o problema é mais grave do que realmente é. A comunicação social é o melhor aliado para que todos saibam a real dimensão do problema e para saberem que devem ficar em casa e protegerem-se”, afirma.


Maria dos Anjos Esperança nunca viveu uma situação tão dramática e intensa como esta a nível profissional. Perdeu a noção dos dias da semana porque trabalhava diariamente das 08h00 às 22h00. “Ninguém está preparado para uma situação desta dimensão mas depressa nos preparámos. Tomámos as decisões que nos pareceram sempre as mais adequadas e íamos adaptando as situações consoante o dia-a-dia. Ter uma equipa coesa e unida foi fundamental”, destacou.

Decidiu ser médica em criança inspirada por uma freira

Maria dos Anjos Esperança nasceu a 31 de Julho de 1956 em Figueiró dos Vinhos, distrito de Leiria. O funeral do seu pai coincidiu com o dia do seu sexto aniversário. Com a morte do progenitor, mudou-se com a mãe e o irmão para Coimbra, onde estudou. Decidiu ser médica em criança depois de ter estado doente e de uma freira lhe ter dado injecções. Lembra que as injecções doíam mas queria fazer o mesmo que a Madre Fátima para ajudar as pessoas.


Gosta de futebol e é adepta da Académica de Coimbra. Formou-se em 1981 e começou a trabalhar no Hospital da Universidade de Coimbra em Janeiro de 1982. É médica de Saúde Pública desde 1990. Foi morar para Torres Novas por ser a cidade do seu marido com quem está casada há mais de 30 anos. Trabalha na Unidade de Saúde em Tomar, junto ao tribunal da cidade. É coordenadora da Unidade de Saúde Pública do ACES Médio Tejo desde Outubro de 2018.


Esteve sem ver o seu filho, de 31 anos, desde Fevereiro. Apesar de falarem todos os dias por videochamada só o reencontrou a 22 de Maio. “Estive sempre de máscara mas confesso que lhe dei um abraço muito apertado e me fartei de chorar”, recorda com um sorriso. O marido é empresário em Tomar e decidiram não estar afastados durante a pandemia. Maria dos Anjos explica que o plano de contingência na empresa do marido é muito rigoroso e em casa têm todos os cuidados. Deixam os sapatos à entrada e desinfectam as mãos assim que chegam ao lar.

Uma consulta médica com satélites, armas e polícias

Maria dos Anjos Esperança não esquece o dia em que um utente entrou no seu gabinete para uma consulta, pediu para abrir a janela, que dava para um jardim, e contou-lhe que tinha dois chips na cabeça: um que recebia informações dos Estados Unidos da América e o outro da Rússia. Sentou-se à sua frente e tirou uma arma que pôs em cima da mesa. Ao contrário do que é habitual, a médica não fechou a porta do gabinete. O seu colega percebeu que algo se passava e chamou a polícia. “Em saúde também se trabalha muito sem falar. Trabalhava já há muitos anos com esse colega e como não fechei a porta ele percebeu que algo grave se passava por isso chamou a polícia”, recorda.


A médica foi sempre conversando com o doente, com problemas psiquiátricos, que lhe pediu para lhe passar uma autorização para viajar. A justificação que deu para ter que abrir a janela era que estava a receber informação dos dois satélites, o americano e o russo. “Disse-me que se lhe dessem a informação para me matar tinha que me matar. Nestas alturas temos que ter sangue frio e continuei a conversar até a polícia entender qual era a melhor altura de entrar no gabinete”, explica. O doente mostrou-lhe um bilhete verdadeiro para viajar para a Austrália dali a dois dias. Disse que tinha que ir fazer o mesmo que já tinha acontecido no 11 de Setembro nos EUA.


A tensão terminou quando um funcionário passou pelo corredor da Unidade de Saúde e ao ver tantos polícias exclamou em voz alta: “Estão aqui tantos polícias porquê”. O paciente pegou na arma e saltou a janela tendo sido apanhado por um polícia que o dominou. “Se não fosse esse colega não sei quando é que aquilo acabaria”, recorda bem-disposta mas sem esconder o susto por que passou.

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