Entrevista | 23-06-2020 12:30

Manuel Gonçalves Gama

Manuel Gonçalves Gama
AGORA FALO EU

Reformado - 81 anos, natural de Ourém e residente em Benavente

A justiça é igual para todos?

Não, nunca foi nem há-de ser. Repare-se que há processos que correm com rapidez e outros que andam anos sem um desfecho. Figuras públicas, dinheiros e o poder continuam a influenciar a justiça. Temos vários casos que são exemplo disso, como o que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

A censura é coisa do passado?

E do presente também. Nos anos em que estive em Moçambique, enquanto secretário do Ministério Público, vi muita censura a acontecer. As pressões continuam a existir e continua a faltar, nomeadamente, liberdade de imprensa em alguns órgãos de comunicação.

Quais os principais valores que lhe foram transmitidos na infância e que o acompanham até hoje?

Todos os valores da religião católica, como o sermos todos iguais e não prejudicar o próximo. São eles que norteiam a minha vida e ainda hoje sou católico praticante.

Quando passeia por Benavente o que mais lhe agrada?

Sem dúvida a Igreja Matriz e o Parque 25 de Abril. Outra coisa que me agrada nesta terra que me recebeu, já que sou de Ourém e vivi muitos anos em Moçambique, é o facto de aqui nunca ninguém me ter fechado a porta. Acho as pessoas simpáticas e amáveis.

Os jovens hoje em dia estão motivados para manter vivas as tradições?

Não e acho que as primeiras a cair vão ser as que estão ligadas à religião. Pelo que vejo a juventude não sente o chamamento da Igreja e, por isso, infelizmente muita tradição, como as festas religiosas e procissões vão cair com o passar dos anos.

Sabe dançar o fandango?

Nem sei dançar o fandango nem dança nenhuma. Sou o que se costuma chamar de pé de chumbo.

Uma pessoa bem informada sobre o que acontece no país e no mundo é uma pessoa culta?

Do ponto de vista geral sim. Informação também nos traz cultura por isso não perco o noticiário na televisão, nem a leitura de O MIRANTE, do qual sou assinante há muitos anos.

A idade da reforma em Portugal está bem nos 66 anos e cinco meses?

Na minha opinião não, estava melhor nos 65 anos. Trabalhar depois dessa idade é roubar o que resta da vida a uma pessoa. Há mais vida além do trabalho e todos merecemos aproveitá-la antes que se esgote.

Tem medo da morte?

Já lutei contra um cancro da próstata e nunca tive medo de morrer. Gosto de me agarrar à vida e nem agora com a pandemia a morte me assusta. Claro que tenho cuidados para manter o vírus longe de mim.

Gosta mais de cozinhar ou que cozinhem para si?

Gosto de comer. Quanto a cozinhar prefiro que cozinhem para mim, especialmente a minha mulher, que é uma óptima cozinheira.

Já escreveu ou gostava de escrever um livro?

Já escrevi. É o livro da minha vida, escrito por mim e dedicado à minha neta Helena. Chama-se “Voltas e reviravoltas de uma vida”. A minha vida que quis deixar escrita em papel para que um dia a Helena, quando eu partir, a possa recordar sempre que quiser.

Se pudesse entrar numa máquina do tempo para onde voltava ou o que mudava?

Voltaria sempre para um lugar onde a minha família estivesse e dedicava-lhes mais do meu tempo. Sinto que passei demasiado dele a trabalhar e não aproveitei a vida como devia junto dela. Talvez me tenha esquecido que a vida são dois dias e que cada um conta.

O que mais deseja na vida?

A única coisa que desejo é continuar a ter saúde para poder ver a minha neta Helena, de 10 anos, a tornar-se mulher e um dia poder vê-la entrar na universidade. Quero muito estar cá quando esse dia chegar.

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